O núcleo algarvio da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores quis encerrar o presente ano pastoral com um jantar-palestra com aquele que foi o ex-presidente daquela organização entre 2009 e 2015.

Sob pretexto do livro que escreveu durante a pandemia de Covid-19 e publicou em 2023, intitulado “Não há Vidas Grátis”, onde reconheceu ser um “workaholic” (trabalhador compulsivo) e um “self-made man” (indivíduo que alcançou sucesso, riqueza ou prestígio pelos seus próprios méritos), António Pinto Leite mostrou-se convicto na passada sexta-feira, 19 de junho, de que “ninguém deve trabalhar 60-70 horas por semana”. “Nem pensar, mas foi o que eu fiz durante 40 anos e agora não o vou fazer”, complementou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na conferência que apresentou em Portimão, no hotel Júpiter da Praia da Rocha, após o jantar volante que teve lugar naquela unidade hoteleira e que foi precedido pela celebração da Eucaristia na igreja matriz da cidade, o advogado e empresário abordou temas daquela publicação em que apresentou uma reflexão mais pessoal e existencial sobre as escolhas que moldam uma vida: os custos do “sucesso”, a importância da família, a experiência da fragilidade, a redescoberta da fé, a procura de sentido. 

Pinto Leite defendeu haver uma questão a que importa responder: “Pagámos um preço justo pelas causas que abraçámos na vida?”. O autor explicou que resolveu escrever aquele livro aos 68 anos por sentir que a sua vida “não tinha sido grátis”. “Não é uma autobiografia normal. É uma espécie de um romance com a minha vida”, clarificou, acrescentando que na explanação do “preço” da sua vida escolheu “dois pontos: a família e Deus”.

Em muitos momentos de voz embargada, António Pinto Leite considerou que “tinha uma vida de louco”, “mas estava às duas da manhã a fazer os trabalhos” escolares com os filhos quando chegava a casa. “Eles ficavam à espera que eu voltasse. Esta é uma decisão pela qual eu julgo que paguei menos que o preço justo”, observou, acrescentando ainda assim que “um workaholic tem sempre uma dívida para com os seus filhos”. “Para um workaholic — e esse é um capítulo dos mais sofridos que escrevi — é a aflição do pai ausente em que fui à procura dentro do tempo de estar com cada um dos meus filhos”, complementou, considerando que “um pai ausente é bom que faça o seu balanço de vida”. 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Por outro lado, o conferencista aconselhou a preservar o “amor apaixonado”. Distinguindo entre “a paixão que preenche e passa, o amor que não passa, mas não preenche e o amor apaixonado que preenche e não passa”, aquele dirigente associativo alertou que “o que acontece nesta vida desvairada” e “realmente tão intensa” “é o desgaste da parte apaixonada do amor”. 

Considerando que “perder uma amante com quem se é casado” “seria o pior erro da vida”, Pinto Leite disse ser “difícil” haver “grandes amores sem fidelidade”. “Eu tenho 71 anos e continuo apaixonado pela minha mulher. Tenho o coração sempre a arder e já vi que não vai passar”, referiu.

António Pinto Leite considerou ainda que “fundar e construir com grandes advogados uma grande sociedade de advogados que hoje tem 285 associados é uma coisa boa e que correu bem” e que “é bom ter estado ali 30 anos”. “Mas dei um preço excessivo da minha vida a esse projeto. Tenho consciência clara disso”, lamentou, lembrando que não era rico. “Eu venho de pobre. Eu não tinha nada”, justificou, lembrando ter começado a vida como “empregado de mesa no Bairro Alto” porque o pai, depois do 25 de Abril, “ficou sem nada” e “teve de emigrar para o Brasil”. “Eu tinha pouquíssimo, mas tinha o suficiente para o ajudar e tinha que alimentar a minha avó que não tinha pensão social nenhuma”, completou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Admitindo ter andado “permanentemente em stresse e em zona de ansiedade quase patológica”, o orador considerou que aqueles dois estados “fazem uma primeira vítima imediata: a oração”. António Pinto Leite reconheceu assim a “perda” na sua relação com Deus. 

Lembrando que após “20 anos como cristão” perdeu a fé e esteve “20 anos afastado” também da Igreja, testemunhou ter sido a doença grave da mulher que o lembrou da frase aprendida em garoto: “A tua fé te salvará”. “Agora tenho de ter fé, sem isto não consigo salvar a Guida”, recordou ter pensado, acrescentando ter sido a assistência espiritual que procurou que o ajudou a perceber que o seu afastamento de Deus foi “uma lesão”. “Pergunto-me a mim próprio o que teria sido a minha vida se naqueles 20 anos eu tivesse tido a companhia de Deus”, afirmou, acrescentando que “a oração teria sido um grande auxiliar” para se “moderar”.

António Pinto Leite, que disse estar na “estrada do fim” com a consciência de que já não é “milionário do tempo”, defendeu que os crentes têm de ter “uma estratégia para a eternidade” expressão que intitula o último capítulo do seu livro. “O que é que eu tenho para levar para a eternidade? Dois peixes”, acrescentou, numa referência ao milagre de Jesus a partir de dois peixes e cinco pães, certo de que “Ele está especializado em milagres, Ele multiplicará”.

A conferência contou com a participação de cerca de 50 empresários e gestores, para além do presidente da Câmara de Portimão, Álvaro Bila.