Os católicos e anglicanos do Algarve voltaram a rezar pela unidade de todos os cristãos.
Associando-se à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que anualmente é celebrada, no hemisfério norte, entre 18 e 25 de janeiro, católicos e anglicanos residentes no Algarve voltaram a reunir-se no passado dia 24 deste mês na igreja de São Francisco, em Faro.
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos centrou-se este ano no tema ‘Há um só corpo e um só Espírito’, inspirado na Carta aos Efésios.
Os materiais de oração e reflexão foram preparados por um grupo ecuménico coordenado pelo Departamento para as Relações Inter-religiosas da Igreja Apostólica Arménia.
O subsídio propôs aos cristãos que recorram à “herança cristã partilhada” para aprofundar a comunhão, baseando-se em tradições seculares de oração do povo arménio e em hinos dos antigos mosteiros, alguns datados do século IV.
Segundo o guião do Oitavário, a unidade é apresentada como “um mandamento divino no cerne da nossa identidade cristã, mais do que um simples ideal”.
Na celebração de domingo, o bispo da Igreja Católica do Algarve lembrou que a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos convidou, este ano, “a escutar a voz e o testemunho vivo dos cristãos da Arménia — pertencentes às igrejas Apostólica Ortodoxa, Católica e Evangélica — herdeiros e unidos por uma fé antiga provada pelo sofrimento, pela perseverança e pela esperança”.
“Da Igreja Apostólica da Arménia às comunidades católicas e evangélicas, ecoa uma mesma confissão: Cristo é o centro, e o Espírito é o laço que sustém o povo de Deus. A partir da sua experiência, somos chamados a redescobrir que a unidade cristã nasce da fidelidade a Cristo e da ação do Espírito Santo no meio do seu povo”, prosseguiu D. Manuel Quintas.
O bispo diocesano destacou o testemunho da fé daqueles cristãos. “A experiência do cristianismo arménio e o seu testemunho lembra-nos que a unidade se torna mais forte quando é provada e ensina-nos que a unidade se fortalece quando é enraizada na memória, na fidelidade e na oração. Em contextos de perseguição, diáspora e fragilidade, a fé comum revelou-se mais profunda do que as divisões históricas”, referiu, alertando que “mesmo em contextos de divisão, perseguição ou dispersão, a fé permanece quando os cristãos se reconhecem uns nos outros como irmãos e irmãs no mesmo Senhor”.
“Esse testemunho interpela-nos hoje: a credibilidade do anúncio cristão depende da nossa capacidade de viver reconciliados, como irmãos e irmãs chamados pela mesma esperança. Nesta celebração ecuménica, somos convidados a renovar o nosso compromisso: caminhar juntos, escutar-nos com humildade, valorizar a diversidade como riqueza e deixar que o Espírito Santo cure as feridas da separação”, prosseguiu, desejando que a unidade das Igrejas cristãs “não seja apenas um ideal distante, mas um testemunho concreto para o mundo – um sinal de reconciliação, de paz e de esperança”.
“Que o Espírito Santo que nos ensine a ser artesãos da unidade. Que as nossas igrejas, fiéis às suas tradições, saibam reconhecer-se mutuamente como membros do mesmo Corpo”, pediu.
D. Manuel Quintas recorreu ainda a São Paulo para lembrar que a unidade “não é uma construção humana nem uma uniformidade forçada, mas um dom”. “A unidade não é algo que criamos, mas um dom que recebemos. Antes de ser um objetivo a alcançar, é uma realidade recebida no batismo, vivida na fé e chamada a ser visível no amor. Estamos já unidos em Cristo, ainda que essa unidade não seja plenamente visível. O caminho ecuménico é, por isso, um caminho de conversão, de escuta mútua e de oração comum”, considerou, acrescentando que “a tradição anglicana, com a sua ênfase na oração partilhada, na comunhão vivida e no diálogo entre diferentes expressões da fé, oferece um contributo precioso para este percurso”.
“A unidade constrói-se quando rezamos juntos, quando caminhamos juntos e quando damos testemunho comum do Evangelho no mundo. Não se trata de apagar diferenças, mas de as acolher à luz do amor de Cristo, reconhecendo nelas uma riqueza e não uma ameaça”, evidenciou.
A celebração contou também com a presença do diretor do Secretariado para o Diálogo Ecuménico e Inter-religioso da Igreja Católica algarvia, o cónego Rui Barros Guerreiro, e com frei Álvaro da Silva, guardião da Fraternidade Franciscana de Faro, e com a pastora Carla Vicencio Prior, em representação da Igreja Anglicana.
“As nossas divisões ainda existem e são reais, mas mesmo assim aqui estamos todos, juntos, a testemunhar que apesar das diferenças partilhamos a mesma fé em Cristo. Não precisamos ser todos iguais para caminharmos juntos em Deus. A unidade começa quando seguimos Cristo, a luz do mundo”, afirmou aquela responsável anglicana.
O ‘oitavário pela unidade da Igreja’, hoje com outra denominação, começou a ser celebrado em 1908, por iniciativa do norte-americano Paul Wattson, presbítero anglicano que mais tarde se converteu ao catolicismo.
O ecumenismo é o conjunto de iniciativas e atividades tendentes a favorecer o regresso à unidade dos cristãos, quebrada no passado por cismas e ruturas.
As principais divisões entre as Igrejas cristãs ocorreram no século V, depois dos Concílios de Éfeso e de Calcedónia (Igreja copta, do Egito, entre outras); no século XI com a cisão entre o Ocidente e o Oriente (Igrejas Ortodoxas); no século XVI, com a Reforma Protestante e, posteriormente, a separação da Igreja de Inglaterra (Anglicana).










