O Centro Pastoral de Pêra encheu-se dos acordes acústicos da guitarra do padre Duarte Rosado que deram suporte à interpretação natural e despretensiosa, ao serviço da narrativa das suas canções que faz refletir.

O sacerdote jesuíta, que é uma das atuais referências nacionais da música católica, atuou no passado sábado, 09 de outubro, num concerto promovido pelo Setor da Pastoral dos Jovens da Diocese do Algarve, em ambiente intimista, em que a música aliada à palavra bíblica foi terreno para a reflexão sobre o amor, a liberdade, a fragilidade e a relação com Deus, com recurso à simplicidade melódica e ao engenho literário.

O concerto decorreu com o sacerdote a interpretar os temas acompanhado apenas pela guitarra, explorando diferentes afinações do instrumento. Ao longo da atuação, o padre Duarte Rosado foi apresentando os temas e partilhando o significado das letras, num diálogo com o público que permitiu conhecer melhor o processo criativo e a dimensão espiritual da sua obra.

João Costa, um dos coordenadores do Setor Diocesano da Pastoral dos Jovens, descreveu o trabalho do sacerdote como uma “porta genuína de beleza que nos acolhe e nos deixa entrar por caminhos muito bonitos onde a nossa fé se liga com a estética e com a música”. O responsável acrescentou que a Pastoral dos Jovens há muito tempo que aspirava pela vinda do sacerdote-músico.

Natural do Porto, onde nasceu em 1985, Duarte Rosado é sacerdote jesuíta, cantor, compositor e letrista. Estudou Psicologia, curso que não concluiu por ter entrado, aos 21 anos, na Companhia de Jesus. Fez o noviciado em Coimbra, estudou Filosofia em Braga e Teologia e Teologia Bíblica em Roma, onde viveu cinco anos.

Numa primeira abordagem musical, a sua criação do padre Duarte Rosado partiu dos textos bíblicos do profeta Isaías, conjugando a poesia com uma linguagem musical contemporânea. Sobre este encontro entre a antiguidade dos textos e a sua criação musical, considerou tratar-se de um “texto muito antigo com uma linguagem musical bastante nova”.

O álbum ‘Um Grito Chamado Isaías’, que reúne sete canções inspiradas no profeta bíblico, demorou cerca de dez anos a ser gravado. O sacerdote explicou que a decisão de escrever música está também ligada à vontade de fazer dela um “lugar de missão”. “Escreve-se também para quem vai ouvir na esperança de que isto possa ajudar, por um lado, a rezar, depois, por outro lado, a olhar para dentro e para uma certa profundidade”, afirmou.
O amor como liberdade e risco
Entre as canções interpretadas esteve “Oração da Insensatez”, um tema inédito que integrará o próximo álbum do sacerdote. Ao apresentá-lo, o padre Duarte Rosado questionou a valorização excessiva da prudência e da sensatez, defendendo que, em determinadas circunstâncias, estas podem limitar a capacidade de arriscar e de viver. A canção surge como um pedido de insensatez, inspirado na forma como entende o amor de Deus e a vocação humana para amar.

A ideia de um Deus que ama sem controlar esteve também presente numa das canções do álbum Um Grito Chamado Isaías. Segundo explicou, trata-se de “um Deus que liberta” e que, ao amar, corre o “risco” de deixar o ser humano verdadeiramente livre.

O tema do amor incondicional regressou na interpretação de outra canção inspirada em Isaías, através da ideia de um Deus que “não se cansa de amar e acompanhar”. “Ao mesmo tempo que é doce, segredada quase, é gritada pela nossa teimosia em convencermo-nos de que somos amados independentemente de tudo”, referiu.
A dificuldade em aceitar esse amor esteve igualmente no centro de “Fechado”, outra das novas canções apresentadas. O sacerdote relacionou o tema com o medo de se mostrar tal como se é perante os outros. Explicou que, por vezes, as pessoas procuram apresentar uma espécie de currículo, mostrando apenas os aspetos positivos da sua vida, e acabam por construir uma muralha que as impede de se deixarem conhecer e amar.

A reflexão estendeu-se à sociedade contemporânea, que considerou marcada por possibilidades de entretenimento permanente. “Hoje em dia, se quisermos, podemos passar a vida inteira toda, entretidos”, observou, alertando para a possibilidade de o entretenimento funcionar como forma de anestesiar determinadas dimensões da experiência humana.
A fragilidade como caminho de crescimento
A fragilidade, tema central de uma das canções mais conhecidas do sacerdote, ocupou um lugar de destaque no concerto. Ao apresentar “Fragilidade”, o padre Duarte Rosado relacionou a identificação do público com a música com o facto de esta abordar experiências concretas da vida.

O sacerdote questionou a procura de uma perfeição assente em ter tudo organizado e sob controlo, contrapondo-lhe uma conceção de perfeição ligada ao amor, à misericórdia e à bondade. O músico defendeu que a vida é necessariamente incompleta porque cada pessoa se encontra a meio de um caminho de crescimento.

Para o padre Duarte Rosado, reconhecer essa condição permite deixar de lutar contra uma fragilidade inevitável e transformá-la numa oportunidade de amadurecimento. A canção, disse, exorta a um tipo de perfeição “que faz crescer e ajuda a viver”.
Também em “Sede”, o sacerdote abordou a experiência humana como uma travessia no deserto, evocando o percurso do povo de Israel. Descreveu o deserto como um lugar de confiança, onde a pessoa se encontra desarmada e deixa de poder apoiar-se naquilo que apresenta como mérito próprio. “O deserto é sempre o lugar da confiança”, afirmou, explicando que a canção procura apresentar a sede interior como um espaço de encontro com Deus. “Acho que temos em nós, dentro de nós, uma sede que tem exatamente a forma de Deus” acrescentou.

O repertório incluiu ainda “O Fora e o Dentro” e terminou com “Sabor da Maçã”, esta última interpretada a pedido e acompanhada pelo público com palmas.
Depois do concerto realizou-se um momento de convívio, acompanhado de um lanche oferecido pelo Centro Pastoral.

A atuação permitiu conhecer uma obra em que a música de autor, a poesia bíblica e a experiência espiritual se cruzam, procurando suscitar perguntas, promover a reflexão e abrir espaço à oração.
Novo álbum a caminho
Durante o concerto, o músico anunciou que está a preparar um novo álbum, que terá edição também em vinil. Entre os temas que farão parte do disco, para além das já referidas “Oração da Insensatez” e “Fechado”, deu também a conhecer “Alegria dorida”, tema que aborda uma alegria que não deixa de ser atravessada pela dor, e mais duas novas canções.











