O cardeal e historiador D. Manuel Clemente começou por reconstruir o título da conferência que o trouxe a Vila Real de Santo António no passado dia 11 de maio – “O Marquês de Pombal e a Igreja Católica” – garantindo que o pressuposto estava errado. O patriarca emérito de Lisboa disse que o título correto é “A Igreja do Marquês de Pombal”, “que não era a Igreja toda, mas era aquela que prevalecia e prevaleceu enquanto ele esteve esteve no governo”.

Com aquele pressuposto, que haveria de marcar toda a sua intervenção no Centro Cultural António Aleixo, D. Manuel Clemente deixou claro que a Igreja do século XVIII de que Sebastião José de Carvalho e Melo – nascido ainda no século XVII – fez parte era uma Igreja de Estado, nacional, regalista e anti-jesuítica composta por “figuras de grandíssimo relevo”.

O conferencista começou por explicar que a organização da Igreja Católica que chegou aos dias de hoje, sobretudo desde meados do século XIX, com as definições da infalibilidade pontifícia e do primado do Papa sobre toda a Igreja, “não era bem assim entendida” nos séculos XVII e XVIII. D. Manuel Clemente evidenciou que “a maneira que tinham de entender a Igreja não era como hoje, com esta ligação direta até de jurisdição ao Papa, mas era muito vinculada aos reis” e que a “conceção nacional da Igreja era muito vulgar, quase aceite assim sem grande rebuço pelo conjunto das nações católicas” e que “nas Igrejas que se mantiveram ligadas a Roma” “essa ligação não se rompeu, mas era muito condicionada”.

D. Manuel Clemente lembrou que o Marquês de Pombal entrou no governo logo no princípio do reinado de D. José I, em 1750, como “um dos secretários de Estado” e que, após a sua prestação na resposta ao terramoto de 1755, ficou “praticamente só no comando” governativo.

Acrescentando que a “nova proposta política” que traz “assentava numa conceção de despotismo iluminado, galicanismo e saturação do absolutismo”, explicou que “as ideias de Pombal são regalistas” por terem por base “uma consideração das Igrejas no âmbito, sobretudo, nacional e com preponderância do poder real em cada território, embora não cortando com Roma, mas condicionando muito a ação direta dos papas nos respetivos países”.

D. Manuel Clemente disse ainda que “esta concentração do Estado, tanto quanto ele pôde fazê-lo, da tropa, da administração e da educação” resulta da governação do Marquês de Pombal. “O Estado, como órgão central de exercício da soberania em todos os setores – educação, cultura, economia, exército, tudo – é uma criação pombalina. Não era assim antes de Pombal”, garantiu, acrescentando outros campos como o da administração ou o da justiça, lembrando, por exemplo, que “ele faz da inquisição um tribunal pura e simplesmente estatal”.
O historiador acrescentou que Sebastião José, “quando está a fazer isto, está a fazer julgando que está a fazer bem, até em termos de Igreja”. “Para ele isto não punha problemas de consciência, como também não punha problemas de consciência a repressão de qualquer espécie de reação”, explicando que “qualquer resistência era eliminada” como foi o caso de frei Miguel da Anunciação, então bispo de Coimbra, que “condenou livros que Pombal aceitava” e foi enviado para a prisão da Junqueira.

Lembrando que, “nem todos simpatizavam com o poder que os jesuítas tinham alcançado” e que “Sebastião José terá com ele sempre no seu governo frades e padres – figuras de grande alcance – que também não gostavam” daqueles religiosos, o historiador explicou que Pombal “quer a extinção pura e simples da Companhia de Jesus em todo o mundo” e “com esta pressão e com esta campanha internacional, em 1773, o Papa Clemente XIV não tem outra saída senão, para bem da Igreja e para que haja paz, extinguir a Companhia de Jesus”.
D. Manuel Clemente disse que desta “frente anti-jesuítica” faziam parte “figuras de grandíssimo relevo como o frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas, que foi o seu ministro da instrução até ao fim, franciscano” e “grande amigo e correspondente” do bispo do Algarve D. Francisco Gomes do Avelar; “o padre António Pereira de Figueiredo, um grandíssimo erudito, tradutor de toda a Bíblia em português”, entre outras.

O patriarca emérito acrescentou que “não há ideia nenhuma de acabar com as ordens religiosas” por parte de Pombal, que até simpatizaria com a tentativa de reforma das ordens religiosas que ficou conhecida como ‘Jacobeia’. “Mas isto tinha um problemazinho: é que muitos dos membros da Jacobeia, com a atenção que davam a este ímpeto espiritual, relativizavam os outros poderes, inclusivamente o poder político e isto era inaceitável para os regalistas. Uma Jacobeia que ficasse dentro do mundo político, sim. Uma Jacobeia que quisesse julgar o que é que acontecia no mundo político, não”, explicou.
D. Manuel Clemente evidenciou que, em Vila Real de Santo António, “tem tudo a ver” com o contexto acima descrito “em termos arquitetónicos, plásticos e artísticos”. “O que vemos aqui tem como modelo a baixa de Lisboa porque o Reinaldo Manuel foi um dos arquitetos da baixa de Lisboa”, destacou, lembrando terem sido aos arquitetos e engenheiros de Mafra a quem coube a reconstrução do terramoto. “É outra geometria do espaço, significa-se outra coisa: centralizada, simples, ordenada, o rei no centro”, sustentou, considerando que a “mini baixa de Lisboa” em Vila Real de Santo António também é “quadriculada, certinha” com “uma praça central e no meio um obelisco que desde o tempo dos egípcios foi sempre o símbolo do poder, da força e lá por cima, a cruz”.

A conferência de D. Manuel Clemente, promovida pela paróquia de Vila Real de Santo António, fez parte da programação do quarto de milénio das festividades da fundação daquela localidade e do programa comemorativo dos 250 anos da igreja matriz que incluiu ainda, no dia 12 de maio, a Eucaristia, seguida de procissão de velas em honra de Nossa Senhora de Fátima, presididas pelo patriarca emérito de Lisboa, e no dia 13 de maio a Missa de Ação de Graças, presidida pelo bispo do Algarve, D. Manuel Quintas.








