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Licenciado em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico e pós-graduado em Gestão Financeira pela Universidade Católica Portuguesa, João Pedro Tavares trabalha na banca de investimento e, em entrevista ao Folha do Domingo, fala sobre a ‘Economia de Francisco’, uma reflexão iniciada em 2019 pelo Papa Francisco, com inspiração em São Francisco de Assis.

Com mais de três décadas de experiência profissional em consultoria, em particular na área de serviços financeiros, o presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores, que foi membro fundador dos grupos ‘Cristo na Empresa’, explica como acha ser possível implementar um novo paradigma para a economia como deseja o Papa e o que é que os empresários cristãos aprenderam com a pandemia. Entrevista conduzida por Samuel Mendonça.

Acredita que será possível implementar um novo paradigma para a economia como deseja o Papa? Os agentes económicos aceitarão a introdução de valores e variáveis não económicas? Não ficará limitado à esfera dos empresários cristãos?

Temos de inspirar e desafiar os líderes empresariais a ir mais além. A pandemia ajudou-nos a entender várias coisas. Primeiro: não temos solução para tudo; Segundo: Somos mais frágeis do que pensamos; Terceiro: Precisamos uns dos outros e estar mais próximos uns dos outros; Quarto: O nosso impacto pode ir muito para lá das fronteiras tradicionais da nossa empresa (afinal, um vírus num par de semanas cruzou o mundo!); Quinto: Os modelos instituídos precisam de ser reformulados.
E é neste ponto que pretendo pegar. Temos de arriscar e ser audazes e ir mais adiante. Implementar novos modelos que permitam criar mais valor e distribuí-lo de forma mais justa. Temos de assumir esta responsabilidade pessoal. Por isso defendemos a inclusão de variáveis não económicas nos modelos vigentes. Variáveis sociais e económicas. Medir o impacto em stakeholders internos e externos. Há estudos que apontam nesse sentido e destaco o que se refere às “Empresas humanizadas”.

As sementes da ‘Economia da Comunhão’ estão à vista e estes são propósitos que (aparentemente) demoram a dar fruto, mas tudo vai germinando no coração das pessoas. A ‘Economia de Francisco’ é um desses frutos

A implementação da ‘Economia de Francisco’ pode considerar-se um avanço na ‘Economia de Comunhão’, inspiração de Chiara Lubich?

Não é um avanço mas um crescimento e um novo alcance, pois uma não vive sem a outra. São caminhos que se fazem e uns inspiram os outros. As sementes da “Economia da Comunhão” estão à vista e estes são propósitos que (aparentemente) demoram a dar fruto, mas tudo vai germinando no coração das pessoas. A “Economia de Francisco” é um desses frutos, também ele, muito inspirado no Santo do século XII.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O Papa pede uma nova geração de economistas que vivam o Evangelho nas empresas. Esta nova geração está a ser formada? De que forma?

Sim, esta nova geração está a ser formada e são os nossos jovens. Há dinâmicas em curso com a academia e já se caminha para a terceira edição desses programas de formação. São programas que envolvem várias universidades de economia e gestão. É um exemplo das pontes a que Francisco nos chama ao invés dos muros. As universidades todas a colaborarem em conjunto.

Na ‘Economia do Bem Comum’ os meus adversários são as minhas limitações e a minha visão míope

Este novo paradigma pressupõe uma aposta nos jovens. Significa que se parte do princípio de que pelas gerações de mais idade não será possível atingir o objetivo?

Precisamente como dizia: estamos a construir pontes. Quando se está na “Economia do Bem Comum” os meus adversários são as minhas limitações e a minha visão míope. Estes jovens estão a “polinizar” o coração dos mais seniores para que este caminho de transformação – e enorme esperança! – não seja futuro mas seja já presente. É um processo inclusivo e que não exclui ninguém. É a oportunidade para um “nascer de novo” e com isso, mesmo sénior, “ser uma nova geração”, uma “melhor versão de mim mesmo”. Desistir – muitas vezes mascarado com o “já sei tudo, não preciso de aprender” – seria a pior opção e é muitas vezes sinal de insegurança ou de autossuficiência. É o miopismo no nosso coração…

Os governantes não deveriam ficar satisfeitos, nem com a consciência apaziguada, pela distribuição de subsídios e apoios sociais que fazem, pois, a nossa sociedade, na origem, tem 44% de potenciais pobres

Há também uma definição da prioridade do combate à pobreza. Como deverá fazer-se este combate? Em articulação com o sector social? Que passos já foram dados?

Também aqui teremos de ser inclusivos. É juntar público e privado e social. Temos de ser convergentes no “bem comum”. É necessário envolver as famílias, pois se há pessoas pobres há, sobretudo, famílias pobres. Todos estão convocados e envolver-se, trabalhar e transformar. Vamos começar pelas empresas e pelos que trabalham que ainda são uma parcela significativa de pobres. Os governantes não deveriam ficar satisfeitos, nem com a consciência apaziguada, pela distribuição de subsídios e apoios sociais que fazem, pois, a nossa sociedade, na origem, tem 44% de potenciais pobres. É preciso repensarem-se os modelos e sermos todos, em conjunto, promotores de transformação. Pensar-se que é responsabilidade do público ou do privado já é uma falta de visão, pois não inclui, mas exclui.

O lucro é importantíssimo para a sustentabilidade de uma empresa mas não deve ser o seu fim. (…) Do mesmo modo, na economia social uma organização não se obrigar à sua sustentabilidade é outro enorme erro

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O Papa fala na necessidade de pôr a fraternidade no centro da economia. Será preciso aliar as componentes liberal e social? Como é que se consegue?

O maior erro seria liberal ou social e estaria a excluir. É preciso promover uma linguagem comum como ponto de partida. Dividir o mundo em “organizações com fins lucrativos” e “organizações sem fins lucrativos” é, por si só, um erro. Primeiro porque é miopia pensar que a finalidade de uma organização é o lucro. O lucro é importantíssimo para a sustentabilidade de uma empresa mas não deve ser o seu fim. Tem de ser um meio (fundamental) para um Bem Maior, como o propósito e a missão. Do mesmo modo, na economia social uma organização não se obrigar à sua sustentabilidade é outro enorme erro. Toda e qualquer organização (independentemente do sector) tem de “criar e distribuir valor entre os seus intervenientes e para a sociedade”. Numa segunda derivada, tem de o fazer de forma justa e inclusiva. Essa é a linguagem comum que tem de ser fomentada. O segundo aspeto é assumir que os recursos são limitados e que, por isso mesmo, é preciso fazer-se mais com menos. De que forma? Partilhando os recursos com os outros, criando efeito de rede, trabalhando em conjunto. Portugal é um país demasiado pequeno para não se trabalhar em rede e se não o fizermos, seremos mais pequenos ainda…

A pandemia trouxe-nos sofrimento mas, sobretudo, bonitas lições

O que é que os associados da ACEGE aprenderam com a pandemia? Que desafios pós-Covid?

Volto ao início, às aprendizagens. Já sabíamos muito do que refiro no início, mas tomamos maior consciência de que: somos frágeis, somos interdependentes, temos de recriar os modelos, temos de cuidar das famílias dos nossos colaboradores, as pessoas estão no centro das organizações e têm de ser tratadas com dignidade. Há inúmeras histórias muito bonitas e tocantes sobre cada um destes aspetos. O caminho faz-se caminhando e a pandemia trouxe-nos sofrimento mas, sobretudo, bonitas lições.

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