Naquela tarde, tive a graça de me sentar ao lado de uma senhora de noventa e quatro anos. A fragilidade do seu olhar deteve-me, como se o tempo, por instantes, tivesse parado para que apenas aquele encontro existisse.

O silêncio que se espalhava pela sala levou-me de regresso aos confins da infância. Vi-me novamente ao lado da minha mãe, sem compreender o mundo, apenas o silêncio dos domingos e o amor que me envolvia. Agora, o silêncio era o mesmo – embora a senhora não fosse minha mãe, por um breve momento quase acreditei que podia ser.

O meu coração desejava escutar-lhe a voz: qualquer palavra teria sentido, mas ali o silêncio reinava como lei. Restava-me sentir o calor humano que emanava dela, um aconchego invisível, sem gesto, mas pleno.

Na primeira oportunidade, arrisquei uma frase:
— A senhora está muito bem.
O sorriso que me devolveu tinha a largura inteira da sua idade, como se cada ruga fosse um traço de eternidade.
E, quando se teceram palavras de homenagem aos professores, aquele instante ganhou ainda mais sentido e significado. A senhora não era professora, mas a sua presença tinha a mesma força acolhedora de quem vivera uma vida que ensinara a amar.

Conversámos alguns minutos. Senti a felicidade unir-nos, como se a vida nos tivesse oferecido um breve parentesco de almas. Ao despedir-me, toquei-lhe a mão com a maior amabilidade que guardara e, nesse gesto simples, vieram-me lágrimas aos olhos – lágrimas de quem se despede de alguém que acabara de conhecer, mas que já deixara saudades.

Confesso: há instantes em que nada oferecemos, mas tudo recebemos. Momentos que os olhos não veem, mas o coração reconhece. São instantes de amor puro, quase invisíveis, mas cheios de verdade.