O Encontro de Famílias que Diocese do Algarve promoveu no passado dia 16 deste mês, com a participação de 44 pessoas, em Lagoa, no Centro Cultural Convento de São José, contou com o testemunho de dois casais que procuraram partilhar como encontram tempo para Deus.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A primeira partilha foi feita pelo Bruno e pela Teresa, oriundos das paróquias de Tavira, casados quase há 14 anos e pais de duas filhas de três e 11 anos. O casal começou por considerar que “a dualidade entre a aceleração digital e a procura do divino é um dos maiores desafios” da era atual, sentida no seu dia a dia. “A vida acelerada exige resultados imediatos. A vida com Deus exige espera, perseverança e paciência”, comparou, admitindo que no meio da “correria” diária “é muito fácil deixar Deus para segundo plano”.

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Bruno e Teresa explicaram então que a solução passa por tentar “que Deus esteja presente nas pequenas coisas”. “Tentamos viver as coisas mais simples do quotidiano, usando sempre Jesus como modelo. Temos que nos perguntar: «O que é que Jesus faria nesta situação?» para tentarmos corrigir as nossas atitudes humanas”, sustentou Teresa.

“Acreditamos que quando colocamos Deus no centro, mesmo que seja em pequenos gestos, a família ganha mais força, mais união e mais paz. Deus entra na nossa vida real, no meio da correria, do cansaço, das imperfeições e até do barulho do mundo moderno. Mas temos que ter o coração bem aberto para o ouvir no silêncio que existe no meio de tantos ruídos”, realçaram.

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O casal acrescentou haver dois momentos importantes no dia. “O primeiro é à noite, antes de dormir, mesmo cansados e, às vezes, irritados, rezamos em família e parece que ficamos um pouco melhores. É uma oração simples”, contaram, acrescentando: “O segundo momento acontece quando nos deslocamos para a escola com a Clara. Aproveitamos aquele pequeno tempo juntos para irmos rezando”. “Depois de deixar a Clara na escola, costumamos também aproveitar as novas tecnologias e vamos fazendo a nossa meditação diária”, acrescentaram, explicando que na deslocação entre a escola e o trabalho vão “ouvindo o ‘Passo-a-Rezar’ ou o ‘10 minutos com Jesus’ [App Store e Google Play]”, duas aplicações digitais de oração.

Embora reconhecendo “o benefício da tecnologia, quando bem utilizada”, o casal constatou haver “outro desafio para a família” resultante do “equilíbrio difícil” entre “a vida digital” e a restante dimensão da vida familiar. “O mundo digital prometeu poupar tempo, mas parece que apenas criou mais espaço para preenchermos com as nossas pressas”, afirmou Bruno, criticando a “ilusão da presença”. “Parece que estamos em todo o lado – nas redes sociais, nas reuniões, no WhatsApp, nos blogs – mas raramente estamos aqui. O digital fragmenta a nossa atenção”, lamentou, acrescentando que a família criou a regra de, “pelo menos à hora das refeições”, “não haver telemóvel para ninguém”.

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No caso da filha de 11 anos, asseguram mesmo o controlo parental no telemóvel. “As redes sociais estão todas bloqueadas e ela tem um limite diário de utilização do telemóvel. Mas também temos a noção de que não podemos viver apenas na proibição ou numa rigidez extrema porque muitas vezes aquilo que é totalmente proibido é o mais apetecível”, afirmaram, acrescentando que tentam sempre “dialogar e explicar os malefícios de estar sempre online”. “Queremos que ela aprenda a ter sentido crítico, responsabilidade e equilíbrio”, frisaram.

Teresa, enfermeira, sustentou que já este ano, “a Organização Mundial da Saúde integrou na sua classificação internacional de doenças os transtornos de comportamento relacionados com o digital”, lembrando que no comportamento digital aditivo “o vício das redes sociais e dos smartphones cria mesmo critérios químicos de dependência, em que os sintomas são idênticos aos das doenças aditivas em que a pessoa perde o controlo” de si próprio e “negligencia o sono, a higiene, o trabalho, as relações pessoais”.

Neste contexto, Bruno acrescentou a dificuldade em se relacionar com Deus. “Deus encontra-se na brisa leve e suave, no silêncio, na reflexão e na demora”. “Como ouvir essa brisa se os nossos ouvidos estão viciados nas notificações ou no toque do telemóvel, nos likes, nas visualizações, no ruído do vazio exterior e principalmente no ruído interior?”, questionou, acrescentando que “quando o cérebro está viciado ao estímulo constante, a oração ou o tempo com Deus parecem uma perda de tempo, que não serve para nada, sem eficácia, porque o sistema de recompensa está à espera de uma próxima notificação”.

O casal realçou a importância do testemunho dos pais. “Os filhos aprendem mais pelo exemplo do que pelas palavras. Eles reparam se rezamos, se temos paciência, se damos importância à fé, se estamos viciados nas tecnologias e se a tecnologia nos controla ou se somos nós que usamos a tecnologia, se procuramos Deus apenas quando precisamos d’Ele”, referiram.

Teresa disse ainda nunca faltarem à Eucaristia dominical. “Independentemente da correria, das atividades, do cansaço, participar na Missa ao domingo é uma prioridade para nós. É o momento em que reencontramos a paz interior e lembramos o que verdadeiramente é essencial: o encontro pessoal com Jesus”, referiu.

Bruno apontou ainda outro “desafio muito, muito grande”, explicando que passa por encontrar o “equilíbrio saudável entre servir a Igreja, servir a família e estar com a própria família”. “Porque, às vezes, esse equilíbrio desequilibra um pouco”, complementou, acrescentando serem “um casal muito ativo” na paróquia e que “isso também ocupa muito tempo”. “Muitas vezes entre encontros, preparações, atividades e serviço à comunidade, acabamos por ter ainda menos tempo disponível”, contou, evidenciando que a prioridade deve ser a vida familiar. “Depois lembramo-nos que a nossa principal missão é sermos pais, marido e mulher, porque a primeira comunidade que Deus nos confiou foi precisamente a nossa família”, justificou.

Já Lília e Paulo Reis, oriundos das paróquias de Loulé, casados há 22 anos e pais de duas filhas – a Leonor, de 21 anos, e a Rita, de seis anos – observaram a questão que levou àquela reflexão de um ponto de vista ligeiramente diferente, mas que acabou por coincidir na mesma conclusão. “Não é arrumarmos a nossa vida e termos um espaço para Deus. É deixar Deus estar em tudo aquilo que fazemos, mesmo que sejam as pequenas coisas”, afirmaram.

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Também Lília e Paulo constaram o “paradigma dos tempos modernos” em que “o tempo acelerou e o espaço contraiu”. “Aparentemente estamos próximos de toda a gente que está longe e afastados de quem está ao nosso lado. É uma coisa muito estranha e isso causa-nos uma sensação de vazio. E tantos são os dias em que chegamos ao final e nos confrontamos: «Hoje não tive tempo para Deus». Mas será que é verdade? Será que Deus não esteve lá e, se calhar, nós é que não o reconhecemos?”, questionaram.

O casal advertiu, por isso, que “Deus não está no tempo que sobra”. “Ele está no próprio movimento da vida e parece sussurrar: «Eu estou no que fazes, se me deixares estar»”, considerou, confirmando que as famílias vivem “em grande velocidade sem tempo para preparar nada” e “para perceber que Ele lá está”. “Quando finalmente paramos, percebemos que não foi Deus que esquecemos. Foi a consciência da sua presença que se perdeu no ruído, mas Ele permaneceu fiel, discreto e paciente”, salientaram, acrescentando que “o tempo para Deus não se mede em minutos”, mas “em presença interior”.

“Estarmos despertos para Deus é mais do que guardarmos um momento para Ele. É estarmos despertos para aquilo que Ele nos convoca em todo o momento, seja em que situação for, sentindo a presença d’Ele. É estarmos abertos a que Ele atue em nós. E é talvez aí que Deus se revela… não nas coisas extraordinárias da vida, mas nas coisas ordinárias da vida, nas coisas que fazemos todos os dias e que podem ser para Deus”, desenvolveram.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Lília realçou ainda a importância de ver Deus nas outras pessoas e aprender com elas. “Os nossos filhos também nos ensinam. Ao olhar para eles e vê-los a descobrir o mundo, também vemos Deus. E vemos Deus nos nossos amigos, e até naquelas pessoas de que não gostamos tanto e que nos põem um bocadinho à prova e nos fazem pôr em perspetiva algumas coisas… Deus olha para tudo isto e diz: «Aqui estou eu, no amor que dás sem perceber»”, afirmou.

Relativamente aos filhos, realçaram a importância de perceber “o contexto em que vivem, falar com eles, deixá-los falar, ouvi-los, percebê-los, mais do que impor-lhes regras” e também o valor do “exemplo”. “É aí que falhamos tantas vezes: «Não podes usar o telemóvel», mas o pai está a usar. «Ah, mas é só um e-mail que recebi agora e tenho que responder». Os desafios são muitos e complexos. Não é tanto aquilo que se diz, é aquilo que se faz e o amor com que se entrega”, consideraram, lembrando que na vida familiar “também há muitas tentações”. “Esta fidelidade às pequenas coisas é desafiante”, observaram.

O casal também testemunhou rezar o terço à noite com as filhas e “todos os sábados” no grupo das Equipas de Nossa Senhora, a que pertencem desde 2016. “Quando alguém faz anos da nossa equipa, em vez de irmos para um restaurante jantar fora, reunimo-nos em casa e rezamos o terço”, complementaram, acrescentando também a participação sempre na Eucaristia como algo central na sua vida.

Diocese do Algarve promoveu Encontro de “Famílias que encontram tempo para Deus”

 

Encontro Diocesano de Famílias incluiu apelo da AIPAR ao acolhimento familiar