O cónego Carlos de Aquino alertou este ano na Jornada de Pastoral Litúrgica da Diocese do Algarve que o sacramento da Confissão está em crise, pois “é muito mal vivido, espiritual e pastoralmente”, na “vida pessoal e até eclesial”, e que é “absolutamente necessário” e “urgente” a sua redescoberta como “encontro com Cristo”.
Na sua intervenção sobre o tema “O Sacramento da Reconciliação – desafios pastorais”, o sacerdote da Diocese do Algarve explicou que “a crise da confissão não é apenas moral, mas também antropológica e espiritual”. “Vivemos hoje um grande paradoxo, pastoral até: nunca se falou tanto de cura interior, de saúde emocional e de espiritualidade e nunca se recorreu tão pouco ao sacramento da Penitência”, lamentou, acrescentando que “se a espiritualidade fosse bem vivida, assumida, havia maior frequência a este sacramento e também seria mais valorizado”.
Naquele encontro de formação que este ano se realizou por regiões pastorais, subordinado ao tema “A Liturgia dos Sacramentos da Cura”, o formador identificou entre as principais causas da crise a “acentuada perda do sentido do pecado”, o “medo do julgamento”, a “confusão entre acompanhamento psicológico e o sacramento”, o “desconhecimento do que é o próprio sacramento” e das consequências da sua receção.
“É preciso situarmos de maneira nova este sacramento para deixar de estar em crise, dentro de uma compreensão correta do pecado, não apenas como uma transgressão à lei, mas como uma falta de resposta pessoal e adequada ao plano de Deus”, propôs, sugerindo “também uma nova compreensão da vida cristã como um processo permanente de conversão” com vista à “santificação” que recordou ser a finalidade daquele sacramento.

O formador lembrou que, juntamente com a Santa Unção, a Confissão “também faz parte dos sacramentos da cura”. “Cura a alma ferida no pecado que nos afasta da comunhão com o Senhor e que também nos cura no comportamento da nossa própria vida, até do nosso corpo porque o educa naquilo que é de bem e de bom”, justificou, acrescentando que “o pecado fere a graça, obscurece a consciência, gera divisões internas, abre espaços para a escravidão espiritual”. “Na Confissão, a graça santificante de Deus é restaurada, a amizade é retomada, a consciência é iluminada, a pessoa reintegra a comunhão”, sustentou, alertando que “a cura não é mágica”. “A confissão não é uma terapia psicológica ou um ritual automático, é um encontro com a misericórdia”, realçou.
Lembrando que pode ser denominado como Penitência, Confissão, Reconciliação ou Conversão e que cada denominação acentua uma dimensão diferente, o sacerdote começou por destacar ser um “sacramento fundamental” oferecido pela Igreja. “Depois do Batismo e da Eucaristia, este é o grande sacramento proposto pela Igreja para a nossa comunhão com Deus, connosco mesmos e uns com os outros”, advertiu, acrescentando: “a Igreja, na sua mediação, faz-nos perceber que, quando não estamos em comunhão com Deus porque estamos feridos na nossa fragilidade e no nosso pecado, isso adia aquele que é o projeto que cada um de nós quer para si mesmo, que é a felicidade. E não podemos ser felizes quando a nossa vida está vazia ou estamos divididos, feridos e afastados de Deus e uns dos outros”.
O cónego Carlos de Aquino disse ser preciso ter em conta “três realidades” ao falar-se de Penitência e Reconciliação: “a realidade do pecado, a realidade da misericórdia e a realidade da conversão”. “São três dimensões importantíssimas e que, às vezes, estão mal aprofundadas, refletidas, assumidas na nossa própria vida”, sustentou.
O liturgista recordou haver três modos de celebração do sacramento: a “confissão individual”, a “celebração comunitária”, que inclui a primeira, e a chamada “absolvição geral dos pecados” que “está reservada à autoridade do bispo”, exceto em caso, por exemplo, de acidente grave. “A primeira forma valoriza muito a consciência do pecado e da conversão, mas empobrece muito a dimensão eclesial porque cada pessoa se confessa sozinha e, às vezes, pensa que o seu pecado não tem nada a ver com os outros. A segunda forma faz-me perceber que estou junto de pecadores, comigo necessitados de conversão e que o meu pecado fere também a comunidade”, observou.

O sacerdote lembrou ainda que entre as várias formas de penitência estão também a oração, o jejum, a esmola e as obras de caridade e de misericórdia e também as celebrações penitenciais. “O ato penitencial da própria Eucaristia também é uma forma de penitência muito importante, também nos perdoa os pecados veniais”, recordou, defendendo que na catequese deveria haver celebrações da Reconciliação sem sacramento para os catequizandos “serem habituados à linguagem, à importância da conversão, ao sentimento do pecado e à valorização da misericórdia de Deus”.
O sacerdote lamentou a associação do sacramento à comunhão. “A confissão não é para a comunhão, é para a vida cristã e para a santidade”, alertou, sugerindo ainda a nível pastoral “celebrações penitenciais bem preparadas” e com “horários acessíveis”, “formação mistagógica sobre a confissão” e “linguagem que fale de cura e da misericórdia”.
O cónego Carlos de Aquino lembrou ainda as “formas de penitência quotidianas” como o “cumprimento do dever”, a “aceitação das situações de vida”, a “caridade com os irmãos”, a “correção fraterna”, o “perdão mútuo”, a “justiça”, a “pobreza evangélica”, o serviço na Igreja, a escuta da Palavra, a oração e a “revisão de vida”.
A Jornada de Pastoral Litúrgica para a Região Pastoral do Centro realizou-se no dia 10 de janeiro no Centro Paroquial de Loulé; para a Região Pastoral do Barlavento no dia 07 de fevereiro no Centro Pastoral de Ferragudo; e para a Região Pastoral do Sotavento no dia 14 de fevereiro no salão paroquial de São Luís, em Faro.
Diocese do Algarve realizou Jornada de Pastoral Litúrgica sobre os “sacramentos da cura”










