Um vídeo de setenta segundos explicou-me o problema do mal. Contrapicado, música por baixo, três frases e um «reflete nisso». Quarenta e dois mil gostos.

Na mesma semana, uma biblista com trinta anos de trabalho publicou cinco páginas sobre uma tradução que se arrasta desde o século IV. Catorze partilhas. Duas eram da irmã.

O problema não é o rapaz do vídeo. É a nossa aritmética.

Habituámo-nos a confundir três coisas distintas: aparecer, saber e ter razão. Quem aparece muito, parece saber. Quem fala sem hesitar, parece ter razão. E o número de seguidores tornou-se uma espécie de diploma que nenhuma instituição emitiu e que todos aceitamos.

Vejam o que as plataformas premeiam: a voz única, veloz, emocionada, categórica. E vejam o que enterram: o «ainda não sei», a nota de rodapé, os quatro anos de investigação, o texto revisto por gente que discorda, a catequista que há duas décadas prepara adolescentes e nunca gravou nada. Só para pensar um pouco.

Simplificar é um serviço quando abre uma porta; é amputação quando corta precisamente aquilo que não caberia no aplauso.

Ocorre-me o critério de um homem de Haro que ganhou um Mundial. Luís de la Fuente não convoca por compilações de melhores momentos. Convoca por caráter: se trabalha, se escuta, se sofre com os outros, se aceita a disciplina de um plano que não foi desenhado à medida do seu nome. O talento entra — mas entra a assinar um contrato de pertença. O desmarque que ninguém filma. A dobra que evita o golo. O passe que só existe, porque outro correu vinte metros em vão.

Ninguém ganha nada sozinho. No digital, quase todos falamos como se ganhássemos.

Trago isto para dentro de casa. Há clericalismo de batina e há clericalismo de leigo com tripé. Quando o Reel se torna ambão privado, quando a fé se torna etiqueta de marca, quando uma comunidade começa a depender do estado de espírito de uma celebridade religiosa — mudou o dono do microfone, não mudou a doença.

Comunicar bem não é vaidade. Ter alcance não é pecado. Formatos breves poupam tempo e às vezes salvam pessoas. O desvio começa noutro sítio: quando o mensageiro cresce até tapar a mensagem.

O que peço é modesto e difícil. Que quem sabe use o saber para servir e não para vencer discussões. Que quem ensina se deixe corrigir em público, sem drama. Que quem comunica remeta o leitor para fontes, para comunidades, para gente mais competente — mesmo perdendo cliques nisso. Que quem tem visibilidade a empreste a quem o algoritmo deixou na penumbra.

E depois há a luz. Existem aqueles anéis luminosos que se apontam ao próprio rosto: favorecem a pele e não iluminam mais nada. E existe o amanhecer, que ninguém possui e que serve para todos verem onde põem os pés. Para quem crê, o amanhecer tem nome — e não é o nosso. Começa por J. O resto de nós é constelação: saber, experiência, responsabilidade e fé, repartidos por muitos, sem centro próprio.

Fica a pergunta, que não cabe em quinze segundos: estamos a escutar quem mais sabe e melhor serve — ou apenas quem aprendeu a pôr a câmara no ângulo certo?