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“Quero ser um padre do povo, com o povo”

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

Em criança, a vontade e o querer ser padre concorriam com os de ser piloto de aviação. Mais tarde trabalhou no circo, fez teatro de rua e foi bailarino. Na procura da sua vocação, depois de fazer a formação nos três Seminários da sua Guiné Equatorial, Jesús Ejocha, natural da capital Malabo, aceitou o convite de um seminarista algarvio para vir conhecer a diocese e, em 2010, ingressou no Seminário de São José, em Faro.

Filho de uma família de 15 irmãos (alguns já falecidos), o diácono de 33 anos, depois de ter estagiado nos últimos anos nas paróquias de Silves, São Bartolomeu de Messines e Monchique, vai ser ordenado sacerdote pelo bispo do Algarve no próximo sábado. Texto e foto por Samuel Mendonça

Com que idade entraste no Seminário?

Entrei no Seminário Menor de Malabo com 15 anos que frequentei até ao equivalente aqui ao 12º ano. Como o meu pai era militar e foi transferido de Malabo para a cidade de Ebibeyin, tive de ir para lá. Aí fiz o equivalente ao 11º ano, seguindo depois para Bata para fazer o 12º ano, tendo vivido nesse ano no Seminário Menor de lá. Quando acabei essa fase voltei à Diocese de Ebibeyin para fazer o equivalente ao nosso ano propedêutico. Posso dizer que, se calhar, fui dos poucos seminaristas que passou pelos três seminários da Guiné Equatorial, tendo conhecido os bispos das três dioceses.

Por que é que resolveste entrar no Seminário?

Quando era pequenino queria ser ou piloto de aviação, porque gosto muito de aviões, ou padre. Foi passando o tempo e a certa altura, quando estava no circo, aceitei o convite de um amigo para ser acólito na catedral da minha diocese. Essa experiência durou três meses e no ano seguinte entrei no Seminário. Começou assim a minha aventura de querer ser padre. Com o passar do tempo, a vontade de ser piloto foi ficando, pouco a pouco, para trás, enquanto que a intenção de ser padre foi ganhando terreno. Foi uma coisa que nasceu a partir da experiência de ser acólito.

Como é que vieste parar ao Seminário do Algarve?

Foi uma aventura maluca, mas que valeu a pena [risos]. Antes de vir para cá fui, no ano de 2007, para Espanha fazer uma experiência com os franciscanos. Primeiro participei na “Experiência TAU” [encontro anual europeu de jovens franciscanos] em Itália, na qual conheci o Nelson Rodrigues [que irá ser ordenado diácono na mesma celebração em que Jesus será ordenado sacerdote] e depois voltei à Guiné. Falei com os meus pais e disse-lhes que no ano seguinte gostaria de fazer uma experiência com os padres franciscanos. Os meus pais acharam que eu deveria decidir com os meus superiores e assim fiz. Vim para Espanha fazer essa experiência com os padres franciscanos de Santiago de Compostela e estive com eles cerca de dois anos. Entretanto, participei noutra “Experiência TAU” em 2009, em Santiago de Compostela, na qual voltei a encontrar-me com o Nelson. Em 2007 ele já me tinha feito o convite para vir para o Algarve mas eu recusei porque tinha a minha diocese e tinha de voltar para a Guiné. Em 2009 ele voltou a convidar-me para conhecer a Diocese do Algarve, o Seminário, os padres e, na altura, respondi-lhe: «logo se vê», mas lembro-me que, naquele mesmo ano, voltei a contactá-lo para lhe dizer que gostaria de vir então a Portugal. Depois de acertar os pormenores com o padre Pedro [Manuel, prefeito do Seminário do Algarve], a minha primeira vinda aconteceu em agosto, durante duas semanas, e depois voltei para Espanha. Só no dia 9 de setembro de 2010 vim, então definitivamente, para ficar no Algarve. Cheguei ao Algarve, vi e gostei.

Foi então o Nelson Rodrigues o responsável pela tua vinda?

Foi. É o responsável por eu estar aqui hoje.

Mal sonhavas que ias ser ordenado juntamente com ele.

Eu sempre quis e é uma grande alegria sermos ordenados juntos porque ele foi o responsável. É muito importante para os dois.

Achas que Deus se serviu dele para te fazer uma proposta?

Sim. Deus fala através dos seus intermediários e vejo que a mão de Deus passou muito por ele. Vê-se muito a providência divina na minha vocação. Num retiro que realizei há poucos dias fiz uma análise retrospetiva. Olhando de fora pode parecer que perdi muito tempo porque muitos dos colegas que entraram comigo no Seminário já são padres há muitos anos, mas olhando a minha caminhada, do ponto de vista da fé, vejo que tudo tem um sentido. Deus foi colocando as coisas no momento certo porque sabia o porquê e, se calhar, estava destinado que eu devia acabar aqui. Só Deus sabe. Também foi Deus que achou por bem que eu fizesse uma experiência de vida religiosa para perceber se estava chamado a ser padre religioso ou não. Acho que tudo valeu a pena porque conheci todas as dimensões: a realidade da Igreja da Guiné Equatorial, a realidade da vida franciscana e a realidade da vida do presbitério do Algarve. E entre tantas coisas optei por aquela com que mais me identifiquei.

Há, portanto, momentos da tua caminhada em que consegues reconhecer mesmo a presença de Deus a orientar-te num determinado sentido?

Sim. E acho que não é por acaso que fui ordenado diácono na solenidade de São Pedro e São Paulo, nem é por acaso que vou ser ordenado padre outra vez na mesma solenidade. É que a minha caminhada e a minha vocação têm muito a ver com a vida destes dois apóstolos.

A minha caminhada vocacional não foi nada fácil. Por todos os lugares por onde passei houve momentos em que queria mesmo desistir.

Como assim?

Vejamos o caso de São Paulo. Antes de ser aquele missionário que foi, antes de Deus entrar no seu coração, era uma pessoa normal. Eu, antes de ir para o Seminário, levava uma vida normal. Andei pelo circo, fiz teatro de rua, pertenci a uma escola de teatro e fiz dança. Pratiquei até karaté, chegando mesmo ao último nível, porque o meu pai, como militar, queria que todos os filhos estivessem preparados. Tínhamos todos que saber manusear armas, de tal forma que eu sei desmontar, limpar e remontar uma arma. A determinada altura, Deus convida-me a deixar essa vida quando todos pensavam que ia seguir o mesmo caminho militar do meu pai. De facto, tenho irmãos que também seguiram por esse caminho, mas a determinada altura aparece o espírito divino que me pede para ser acólito. E a partir daí começa tudo.

Com São Paulo aconteceu o mesmo. Foi perseguidor, mas chegou uma altura em que Deus lhe disse que queria que ele fosse discípulo da sua palavra.

Com São Pedro acontece o mesmo. Tinha a sua vida, tinha mulher, era casado, era um grande pescador, levava uma vida normal e depois aparece o Senhor que o chama a segui-lo e acaba por ser, como sabemos, um grande «pilar» da Igreja. Foram dois grandes evangelizadores, dois apóstolos que deram a vida por causa de Cristo e desde que o Senhor lhes tocou nunca mais quiseram saber de outra coisa para além de Deus. Sinto que, pelo facto de eu ser ordenado na solenidade desses dois apóstolos, a minha vida identifica-se com os dois em todos os sentidos. Por isso, é uma graça e sinto-me grato e especial porque isto não acontece com qualquer um. E, por isso, estou feliz. Entrei para o Seminário com 15 anos, hoje tenho 33 e vejo que não foi nada fácil. A vida dos dois apóstolos também não foi. A minha caminhada vocacional não foi nada fácil. Por todos os lugares por onde passei houve momentos em que queria mesmo desistir. Houve momentos de provações e de tentações muito fortes. Quando fui para Monchique não foi nada fácil e quando fui para Messines também não, mas no meio disto tudo tive sempre a esperança de que Deus tinha algo preparado para mim. Aquela expressão de São Pedro que lembra que foi Deus que o livrou da mão de Herodes, comigo aconteceu o mesmo. Na minha vida tudo foi graça. E, graças a Deus, no sábado, serei ordenado.

Fazes então uma análise e avaliação positiva do teu percurso vocacional?

Sim, é positivo. Foi bom ter passado por isto porque aprendi muito e ajudou-me a nível moral, espiritual e humano na maturação que agora atingi. Quando as pessoas me perguntam «então, está com nervos?», respondo «não, sinto-me normal» porque me sinto padre normalmente. Se calhar já «sou» padre desde há muito e por isso é que estou tão normal e nada nervoso.

Pediste agora para seres ordenado sacerdote. Entendes, por isso, que este é o momento certo para que isso aconteça?

Acho que sim. No início deste ano, depois de todas as adversidades por que passei no primeiro ano em Monchique, pensei: «ou é este ano, ou não é. Se acabar este ano, com 33 anos, e não for ordenado padre, se calhar é porque não é este o caminho que Deus quer para mim»…

…quer então dizer que o facto de, no final deste ano pastoral, ter chegado a tua hora é mais um sinal de que estás no caminho certo?

Sim, foi mais um sinal. Quando saí da capital da Guiné, a primeira porta a que bati não se abriu. Restava-me apenas uma última possibilidade e, na altura, o meu orientador espiritual disse-me para estar tranquilo porque se fosse vontade de Deus que eu continuasse a minha caminhada, ela abrir-se-ia. E assim aconteceu.

Houve então uma «estalagem» que se abriu com um «estábulo» para que a tua vocação pudesse nascer.

Exatamente. Ou como Santa Teresa [do Menino Jesus]: bateu a tantas portas, não se abriu nenhuma até que se abriu uma e uma «luz» apareceu ao fundo do «túnel».

Sentiste sempre o apoio da família ao longo deste percurso?

Sim, sempre. É uma pena que o meu pai [falecido em 2011] não possa estar presente no dia 28. Ele deu a vida por isto e queria tanto… Parecia que era ele que queria ser padre. Vários dos meus irmãos chegaram mesmo a perguntaram-me se eu queria mesmo ser padre ou se era por causa de o meu pai querer. Respondi-lhes sempre que era a minha vontade e que sentia que Deus me chamava, caso contrário teria desistido.

Então o teu pai não ficou triste por não teres seguido a carreira militar.

Não. Ficou muito contente por saber que tinha um filho que queria ser padre. E ele lutou tanto, tanto, tanto para que esta vocação pudesse germinar e dar bons frutos…

Como assim? Dava-te conselhos?

Não só conselhos. Sempre me apoiou também a nível material. O meu pai nunca quis que eu trabalhasse e pagou sempre a minha formação. Nunca trabalhei para ganhar um ordenado. Tive sempre o apoio de toda a família.

Pensas continuar no Algarve?

Sim, por isso é que já me incardinei… Na minha cabeça não tenho planos de voltar para a Guiné, nem para outro lugar. Só estou a pensar no Algarve, por enquanto. O futuro… a Deus pertence.

Como é que pensas exercer o ministério? Sentes-te vocacionado para alguma área especial? Qual será a tua prioridade pastoral?

Vou responder-te a essas perguntas com uma passagem [da Bíblia] – Mt. 11, 28-30 – que será o lema da minha ordenação presbiteral e que diz: «Vinde a mim todos vós que andais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei». Quer isto dizer que estou a aberto para todos: jovens, velhos… Cá estou, Senhor, faça-se em mim segundo a tua vontade. Disponibilizei-me e, para o que quiserem, cá estou.

Quero viver o meu ministério como oferecimento. Quero viver o meu ministério com o povo, para o povo e por causa do povo

E como pensas ser imagem real, viva e transparente de Cristo?

A partir da humildade de Cristo. Dando-me e oferecendo-me por inteiro. Quero viver o meu ministério como oferecimento. Quero viver o meu ministério com o povo, para o povo e por causa do povo e até se tivesse que morrer, como os dois apóstolos Pedro e Paulo, agradeceria a Deus. Sinceramente, quero sacrificar-me e dar-me por inteiro e o meu ministério não terá sentido se não fizer isso. Quero ser um padre do povo, com o povo. Não quero ter horários para eles. Quero estar sempre disponível como fazia Jesus. É assim que quero viver o meu ministério, dentro das minhas fraquezas, claro, mas deixando que a graça de Deus se faça em mim segundo a sua vontade. Sinto-me preparado, contando com a graça de Deus em primeiro lugar. O resto vem por acréscimo.

Que mensagem gostarias de deixar àqueles que, por ventura, possam estar a interrogar-se se esta poderá ser também a sua vocação?

Que arrisquem. Como se diz em Portugal: quem não arrisca, não petisca. Não podemos saber se conseguimos fazer uma coisa, se não tentarmos. Nunca temos a certeza se somos chamados a ser padres. Até à ordenação não temos certeza a 100%, por isso temos de arriscar, temos de tentar ver o que o que é que Deus tem preparado para nós. É preciso arriscar porque Deus, depois, fará o resto. Que não tenham medo de arriscar porque Deus precisa deles, confia neles e acredita neles. É, simplesmente, colocar-se nas mãos de Deus que Ele faz o resto.

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