O bispo do Algarve foi ao Estabelecimento Prisional de Faro na passada quinta-feira, 18 de dezembro, para uma celebração de preparação para o Natal com os reclusos.

A iniciativa foi promovida pela equipa da Pastoral Prisional da Diocese do Algarve que visita semanalmente os Estabelecimentos Prisionais de Faro e Olhão, que integra duas consagradas, Missionárias da Caridade, e uma Missionária Reparadora do Sagrado Coração de Jesus.

D. Manuel Quintas disse aos reclusos que o Natal exorta também à mudança de vida. “Em cada Natal é como se fossemos nós a renascer homens novos, pessoas novas, que acreditam que é possível ser diferente, viver de maneira diferente e que o sofrimento e a situação por que passamos pode ser diferente. É este amor de Deus que Jesus nos mostrou que nos transforma, faz de nós pessoas novas, com sentimentos novos, pessoas renovadas”, afirmou o bispo diocesano na celebração que contou também com o assistente do Setor Diocesano da Pastoral Prisional, o cónego Carlos César Chantre, e com a responsável do mesmo organismo, Corinna Cappozzo.

D. Manuel Quintas exortou os detidos a “cultivar sempre a esperança no coração e na vida”. “Podemos ser sempre diferentes daquilo que fomos. É mais importante o futuro do que o passado. É mais importante o que está para vir e isso deve ser o motor, algo que não nos deixa desanimar, nem esmorecer, nem perder a esperança”, afirmou, lembrando que esta quadra é também a “festa de alegria e esperança”.
O bispo do Algarve disse que gostaria que a sua presença “não fosse vista como alguém distante, longínquo”. “Pelas circunstâncias é difícil encontrarmo-nos mais vezes, mas que este bocadinho que vamos passar juntos aqui possa significar para cada um de nós que o Natal é importante nas nossas vidas porque nos traz essa presença de Alguém que nos aceita como somos e não faz acepção, distinção, das línguas, da cultura, da nossa proveniência, da nossa vida passada. Para Ele contamos nós no momento presente e conta o futuro marcado pela esperança”, sustentou, garantindo que Deus tem para todos “um olhar de amor, de misericórdia, de bondade”.
O responsável católico disse seguir o trabalho feito naquele estabelecimento pela equipa da Pastoral Prisional. “Acompanho e estou presente, ainda que não fisicamente, espiritualmente com a equipa diocesana da pastoral penitenciária que leva para a frente este trabalho como muito gosto, muita alegria, dando o melhor de si mesmos para ser presença deste Jesus que vamos agora celebrar o seu nascimento”, afirmou aos detidos, acrescentando que os tem “sempre presentes” na sua oração, “bem como os de Silves e de Olhão”, referindo-se aos restantes dois estabelecimentos prisionais no Algarve.

O diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Faro e Olhão começou por agradecer a presença do bispo do Algarve. “Sempre tivemos muito boa relação com a Igreja e com a pessoa do senhor bispo”, afirmou José Joaquim Pedreira.

Aquele responsável dirigiu-se depois aos 15 reclusos presentes. “Aproveitem este momento para refletir que nunca é tarde para mudar. Todos nós cometemos erros. É sempre com tristeza que vimos que algum recluso regressa depois de sair em liberdade. É sinal de que alguma coisa está a falhar, de que nós estamos a falhar e de que a sociedade está a falhar, mas tem de começar pela própria pessoa fazer por isso”, afirmou.
O Estabelecimento Prisional de Faro acolhe atualmente 112 reclusos, embora só tenha capacidade para 103. Segundo explicou o adjunto da direção ao Folha do Domingo, a maioria dos detidos está a cumprir pena por comportamentos associados ao consumo e tráfico de droga. António Rosado acrescentou que percentagem regista-se entre os 60 a 65%. Aquele responsável explicou ainda que os reclusos permanecem no máximo naquele estabelecimento até cumprirem 6/7 anos de pena e se tiverem penas superiores são então transferidos para outras cadeias no país.

Questionado sobre a relevância do serviço da assistência espiritual e da pastoral penitenciária, António Rosado garantiu ser de “extrema importância”. “Connosco, direção e técnicos, os recursos nem sempre desabafam. É mais fácil desabafarem com outras pessoas”, testemunhou, explicando que os elementos da pastoral prisional ouvem “sem qualquer tipo de julgamento”. “Isso para o ser humano é de extrema importância”, declarou, assegurando que aquele acompanhamento se reflete depois no comportamento dos detidos. “Acabam por ficar mais tranquilos e evitam mais os conflitos”, sustentou.

A celebração na cadeia de Faro ficou ainda marcada pelo testemunho de Alexandre Piedade, que integrou há dois anos a equipa da Pastoral Prisional de Faro e Olhão. Aquele voluntário integrou o contingente português em Roma que participou no Jubileu dos Reclusos com o Papa Leão XIV, de 12 a 14 deste mês, com a participação de 6000 peregrinos de 90 países. O grupo nacional foi encabeçado pelo padre José Luís Costa, coordenador da Pastoral Penitenciária da Igreja Católica em Portugal.

“Foi muito enriquecedor”, garantiu, explicando que os 33 portugueses tiveram oportunidade de atravessar as quatro Portas Santas, visitar as respetivas igrejas e participar na Eucaristia com o Papa que teve o particular simbolismo de as hóstias para a celebração terem sido foram produzidas por reclusos das prisões italianas.
O programa incluiu ainda na sexta-feira, 12 de dezembro, uma conferência na Universidade LUMSA, de Roma, sob o tema ‘O Direito à Esperança no Cinquentenário do Sistema Penitenciário’, prosseguindo com dias de estudo e oração organizados pelos capelães prisionais italianos. O Jubileu dos Reclusos foi o último grande encontro mundial do Ano Santo dedicado ao tema da esperança, antes do seu encerramento (6 de janeiro de 2026).

Mas Alexandre Piedade contou que a principal motivação que o levou a participar naquele Jubileu foi poder «trazê-lo» aos reclusos que acompanha. “É muito difícil levar um grupo de reclusos a Roma. Então fiz ao contrário e «trouxe» a Porta Santa a vocês”, explicou o engenheiro informático que captou imagens de realidade virtual e as mostrou depois da celebração, através de equipamento próprio, aos reclusos e a alguns membros da direção e guardas prisionais.










