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Ninguém gosta de ver o bom nome e a credibilidade da sua família esmagados pelo peso de escândalos, independentemente da sua índole. A reacção natural será sempre de defesa e esclarecimento, mostrando união e camaradagem.

Este pequeno intróito vem a propósito de mais um escândalo – sim, têm sido demasiados – que rebentou no seio da Igreja Católica francesa, mas que afecta a Igreja no seu todo. Em causa, um relatório que responsabiliza de forma directa, padres, religiosos e leigos, pelo crime hediondo de abuso sexual de menores. São 330 mil vítimas nos últimos 70 anos, algo chocante, absurdo e bizarro. E a gravidade não se mede exclusivamente pelos números, mas, sobretudo, pelos actos. Mesmo que se tratasse de um só caso, já seria algo totalmente reprovável, existindo assim, um cenário demasiado grave e penoso.

Demasiado grave, porque a Igreja, que tem a missão de proteger, cuidar e amar, usurpou a confiança e estragou a vida destas vítimas, algo que fica patente nesse relatório ao mencionar que, ainda hoje, a grande maioria das vítimas tem graves problemas de carácter sentimental e sexual. Também por isto, torna-se penoso, porque, sofrem aqueles que foram abusados, e sofre a Igreja que é o conjunto dos cristãos. Ninguém fica indiferente a estes procedimentos macabros, a argumentos que os possam querer desculpar e, ao imperdoável silêncio que muitas vezes os envolve, infelizmente, com sucesso.

Qualquer cristão esclarecido fica envergonhado, mas, sente certamente uma vontade enorme em mostrar que esses actos, absolutamente condenáveis, não representam a totalidade da Igreja, nem definem a sua missão que ganha forma no trabalho e na generosidade de tantos padres, religiosos e leigos, que se entregam fiel e generosamente à causa do Evangelho. Se não podemos esconder a cara nas adversidades, também não devemos apontar o dedo em todas as direcções, porque, felizmente, os casos que fazem mais ruído não são maioritários, isto é, o bem ainda supera o mal. Porém, isto só se torna evidente, quando tudo se faz para que exista um esclarecimento cabal de todas as situações.

Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco tem dado total prioridade a este assunto que vai corroendo a Igreja, e, a solução, passa por pensar e agir em cada diocese, de acordo com as suas directrizes – limpar estas pessoas da Igreja!

Se ninguém gosta de ver a sua família esmagada e vilipendiada pelo peso de escândalos, os cristãos não podem compactuar com o silêncio. É preciso escutar, agir e denunciar. É e será sempre um acto de amor, para com os que sofreram às mãos dos predadores. Porém, é precisamente aqui que me inclino sobre a Igreja presente no nosso país, e tento observar as acções e declarações da sua cúpula, acusada na comunicação social de tentar camuflar e esconder estes casos, na tentativa de suavizar os danos. São membros ligados à própria PJ que o dizem, como relatou o semanário Expresso na edição do passado dia 9. É grave, e, mais uma vez, deve fazer-nos corar de vergonha, se for verdade, porque, significa que, a Igreja portuguesa ainda não compreendeu que, nestes casos, denunciar é amar. É amar aqueles que foram abusados, enganados, traídos e humilhados, e, é amar os abusadores, porque, quanto mais cedo forem denunciados, mais rapidamente são afastados e, consequentemente, quebrado o ciclo de terror, impedindo a destruição total da pessoa que abusa.

A Igreja, que costuma estar na linha da frente em inúmeras situações que a elevam, não se pode esconder neste momento, tendo que assumir a dianteira no combate a este flagelo que também a ataca. Deve fazê-lo sem desculpas, sem tentativas de fuga e sem dissimulações, usando de mão pesada, tal como Francisco tem pedido. Só assim poderá continuar a ser credível ad intra e ad extra, não tendo nunca como bitola aquilo que outras instituições ou ordens profissionais fazem ou deixam de fazer. A Igreja não tem de agir consoante as movimentações alheias. Isso contradiz aquilo que é a sua génese. Se ela assume a dianteira em questões tão prementes como o combate à fome, à pobreza, ou à mão de obra infantil, esta é a oportunidade para continuar a estar do lado certo da história. Francisco já mostrou estar do lado certo, com palavras e, sobretudo, com acções.

E a Igreja portuguesa, de que lado quer estar? O que é que tem sido feito de concreto neste âmbito, além das comissões diocesanas sobre os abusos, requeridas pelo Papa, e, qual a sua acção real?

Não sei o que está efectivamente a Igreja portuguesa a fazer neste âmbito, mas, oxalá anuncie em breve dados e medidas concretas. E como seria bom que, uma dessas medidas fosse a criação de uma comissão séria e independente que possa investigar este flagelo, por forma a que, a Igreja, fiel à sua missão, possa continuar a ser respeitada e amada.

Não gosto de ver a Igreja, minha mãe, ser enxovalhada, mas, não consigo tolerar que, sob o seu manto maternal, se escondam crimes horripilantes. Por tudo isto, denunciar é amar!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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