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O padre João Alberto Correia, sacerdote da Arquidiocese de Braga, deixou claro na sua reflexão na XI Jornada Bíblica da Diocese do Algarve que “a pedagogia narrativa de Lucas que tem em vista a identidade cristã dos destinatários”.

Aquele professor de Sagrada Escritura no pólo da Universidade Católica Portuguesa, em Braga, foi o orador da iniciativa promovida no passado dia 25 de novembro novamente em formato ‘online’ com a presença de 125 participantes, incluindo alguns de fora da diocese e até do país, e que teve como tema “S. Lucas. Para compreender o evangelista do novo ano litúrgico”.

O especialista em Teologia Bíblica referiu que “Lucas conta, narra e assim toca o leitor”. “Procura contar a vida de Jesus, introduzindo-nos a nós, leitores, no mundo da literatura para nos apresentar a identidade de Jesus e assim construir em registo narrativo a identidade cristã dos seus destinatários”, sustentou, considerando que “do ponto de vista da arte narrativa, Lucas supera todos os outros evangelistas”. “É mestre da arte narrativa. Comprometido com a verdade histórica registou nos seus escritos o que colheu dos apóstolos e discípulos que testemunharam a vida de Jesus”, acrescentou.

O padre João Alberto Correia afirmou que Lucas escreve o seu evangelho “certamente em meados de 80”, numa cidade sul do Egito ou do sul da Grécia, para “uma comunidade a precisar de conversão, de mudança, de ânimo”, cuja “fé que estava enfraquecida”. “Lucas faz despertar interesse e inquietação no leitor em ordem à conversão e faz sobressair a psicologia dos personagens que muitas vezes parecem raciocinar em voz alta”, acrescentou, considerando que “Lucas está num patamar superior de profundidade teológica e de pedagogia crente ou de pedagogia da fé”. “É por isso que o seu evangelho apaixona os leitores e produz neles uma vontade forte de identificação com os personagens em cena”, completou.

O orador destacou ainda que o evangelista procura “enquadrar a revelação no tempo e no espaço, mostrando que ela e a mensagem de Jesus Cristo não são abstratas, e depois garantir também a continuidade e a fidelidade a toda uma tradição de que Lucas se sente devedor”.

O sacerdote realço o “texto denso e rico onde a perspetiva salvífica impera” e disse haver “muitos indicadores no Evangelho de Lucas desta universalidade da salvação”. “Lucas é o teólogo da salvação e a salvação vista como uma libertação de toda a espécie de mal”, explicou, acrescentando que “Lucas faz compreender que a salvação é mais obra de Deus do que do ser humano, mas que cabe ao ser humano fazer o que está ao seu alcance para acolher esta obra de Deus”.

Por fim, frisou que a “escuta da palavra em ordem ao seu anúncio” “é um dos temas maiores do Evangelho de Lucas”. “O Evangelho insiste muito na escuta e o livro dos Atos dos Apóstolos insiste mais no anúncio. Mas para Lucas o anúncio deve estar radicado na escuta e a escuta deve conduzir necessariamente ao anúncio”, sustentou, lembrando que o livro dos Atos dos Apóstolos também “é obra sua em articulação com o Evangelho”.

Referindo-se a Lucas como “um personagem de relevo da Igreja primitiva e a sua obra é de grande importância”, disse ser “o evangelista da infância de Jesus, dos pobres e dos últimos, dos excluídos, das mulheres, da comensalidade da oração, da misericórdia de Deus”. “Estou em crer que uma escuta atenta do terceiro Evangelho, ao longo deste ano litúrgico, será de grande proveito para todos nós, tornando-nos pessoas mais sensíveis e mais crentes”, afirmou, desafiando os participantes à “coragem e ousadia de ler o evangelho de Lucas de seguida” para perceberem “a sua riqueza literária e a sua profundidade teológica”.

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