(‘in memoriam’ de Pe. José Pedro Martins, meu professor de história e cultura algarvia)

Há uma história que se repete em almoços de família e em manuais antigos: os mouros chegaram, o cristianismo desapareceu e, cinco séculos depois, D. Afonso III trouxe-o de volta ao Algarve, como quem reabre uma casa fechada. É uma história arrumada. Só que não foi bem assim.

Em 711 mudou o poder. Não mudou de um dia para o outro a fé de quem lavrava a terra em Beja ou pescava no Arade. Nenhum exército converte uma população só por passar. A islamização e a arabização foram lentas e desiguais e levaram gerações. Fizeram-se de casamentos, de conveniência fiscal, de ambição, de uma língua aprendida no mercado.

É aqui que entra uma figura que o nosso imaginário não sabe onde arrumar: o moçárabe. Era cristão, sim, mas muitas vezes falava árabe, vestia-se como o vizinho e usava nome árabe. Não era um resistente escondido na serra à espera da cavalaria. Era alguém que rezava de outra maneira na mesma rua.

Vivia sob a dhimma1

Podia manter igrejas, clero, às vezes bispos, alguma organização própria. Pagava a jizya, um imposto pessoal, e, conforme os casos, o kharaj, que incidia sobre a terra. Não podia pregar a muçulmanos; era desigual perante a lei e reparar uma igreja podia tornar-se um assunto político. Havia proteção, mas não igualdade. Não foi um paraíso tolerante, nem uma perseguição contínua: foi uma subordinação que variou com as épocas, as cidades e os governantes. Endureceu com almorávidas e almóadas, quando muitas comunidades encolheram ou partiram.

Quanto disto está documentado? Pouco. As fontes sobre o Gharb al-Andalus são escassas e dispersas. Em Beja, antiga sé visigótica, a historiografia tem identificados indícios de permanência cristã e a arqueologia do Sul aponta para continuidades em espaços e necrópoles. Mas um vestígio não é um documento, e uma hipótese não é uma prova. Não haver papéis não quer dizer que não houvesse gente.

Al-Idrisi, no século XII, descreve uma Silves muralhada, com mercados fartos, jardins, pomares e gente de árabe eloquente. Não fala de moçárabes, nem tinha de falar. Mostra-nos o mundo em que eles viviam, mas não prova que lá estavam.

A prova mais crua vem de fora do Algarve. Lisboa, 1147: o relato De expugnatione Lyxbonensi conta que, no saque, os cruzados mataram o velho bispo da cidade, um bispo cristão provavelmente moçárabe. Um cristão morto por cristãos que não o reconheceram como um dos seus. Falava a língua errada.

Por isso, 1249 não foi o regresso de Cristo a uma terra onde nunca estivera. Foi a entrada do Algarve na monarquia portuguesa e a reorganização da Igreja latina, com novos bispos, dízimos e o rito romano.

Nunca houve um longo esquecimento. Houve uma longa conversa em voz baixa. A “Reconquista”, palavra que convém usar entre aspas, fez muito barulho. O pior é que abafou quem ali já rezava.

1 A dhimma é um contrato ou pacto de proteção do direito islâmico que regula o estatuto jurídico dos não‑muçulmanos (os dhimmis) que vivem sob autoridade muçulmana, garantindo-lhes proteção da vida, dos bens e liberdade religiosa em troca de lealdade política e do pagamento de um imposto específico, a jizya.