
Advento: portas que se abrem, luz pequena que insiste na noite, espera ativa por um Deus que vem e bate à nossa porta. Quem chega, hoje, aos nossos umbrais? Rostos vindos de longe, histórias interrompidas, famílias à procura de futuro. A integração dos migrantes não é um anexo à fé: é lugar onde o Evangelho se faz carne, casa e mesa.
Em Fátima, no I Fórum Migrações da Conferência Episcopal Portuguesa, recordou-se, com clareza, o tempo que vivemos. A realidade migratória, em Portugal, atingiu dimensões inéditas e exige medidas que garantam chegadas seguras, sem redes de manipulação e um acolhimento justo e digno. Não é só prudência: é a melhor forma de permitir uma integração bem‑sucedida e de reconhecer o contributo absolutamente necessário destas pessoas para a sustentabilidade da nossa sociedade e do nosso futuro.
Mas há sombras que nos pedem vigilância. A opinião pública sobre os migrantes degrada-se; a discriminação normaliza-se na esfera política e mediática, com particular impacto entre os mais jovens, alvo fácil de mensagens extremistas. Dentro da própria Igreja, a falta de evangelização gera medos: desconhecimento que fecha portas, reservas que travam a inclusão. No quotidiano, as dificuldades repetem-se — habitação digna, saúde, educação — somadas a barreiras linguísticas e culturais. E a dor do reagrupamento familiar adiado corrói a coesão e fere a dignidade.
Que fazer, então, neste Advento? O Fórum apontou um primeiro verbo, simples e decisivo: acolher. Acolher, servir e agradecer a Deus pelos migrantes com quem temos a oportunidade de contactar. Superar a lógica do “eles” e “nós”, aprender a ver em cada pessoa um irmão, uma irmã. A integração começa quando mudamos o olhar.
Depois, falar com verdade. A Igreja é chamada a uma estratégia de comunicação integrada, presente no espaço público, sem medo de se posicionar, recolocando o Evangelho no centro da conversa e combatendo o preconceito e a desinformação. Dar voz a todos, começando por quem mais raramente a tem: os migrantes precisam de ser ouvidos e participar nas decisões que afetam as suas vidas. Mapear o que já existe nas paróquias e dioceses, partilhar aprendizagens e boas práticas, para não recomeçar do zero em cada lugar.
Trabalhar em rede é caminho de futuro. Igreja, organismos da sociedade civil, municípios, saúde, ação social: juntos, com equipas interdisciplinares, para respostas mais rápidas e humanas. Nas comunidades, começar pequeno e perto: constituir equipas paroquiais de acolhimento, formar para a diversidade cultural, ecuménica e inter‑religiosa, criar núcleos de apoio que ajudem a superar barreiras de língua, cultura e religião. E, articuladamente, negociar com o Estado e com o tecido empresarial soluções concretas para a escassez de habitação e outras necessidades urgentes.
Este Advento pede mais do que discursos: pede gestos. Uma casa que abre espaço para o reagrupamento familiar. Uma paróquia que organiza momentos de escuta e partilha com as novas famílias do bairro. Um grupo que se dispõe a acompanhar consultas, matrículas, regularizações. Uma catequese que educa para a hospitalidade e desfaz mitos. Uma vigília de oração, onde a pluralidade é reconhecida como dom.
Rui Marques e Pedro Góis lembraram-no aos participantes: num clima de polarização, os agentes pastorais são chamados a ser sinais de esperança e a construir espaços de verdade, com base na relação, na confiança e no pensamento crítico. Coragem serena, firme e persistente: é assim que a luz pequena do Advento resiste à noite e abre caminho a um consenso mais alargado e justo.
No fundo, a pergunta é simples e exigente: que Natal queremos preparar? Um Natal fechado, de portas trancadas, ou um Natal de Belém, onde há lugar para quem chega? Se escolhermos a hospitalidade, a integração deixará de ser problema para se tornar promessa: de paz, de futuro, de casa comum. É essa a conversão que o Advento nos pede. E é por aí que Deus vem.







