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D. Manuel Madureira Dias, nasceu em Tarouquela, Cinfães, na diocese de Lamego, a 7 de janeiro de 1936. Depois de concluir os seus estudos e o respetivo percurso vocacional, foi ordenado presbítero pela mão de D. Manuel Trindade Salgueiro, na basílica metropolitana de Évora.

Entre 1961 e 1988, D. Manuel Madureira Dias desempenhou diversas funções naquela diocese, como as de pároco de Elvas e vigário episcopal para a pastoral. Foi depois escolhido pelo Papa João Paulo II para o cargo de bispo do Algarve, responsabilidade que assumiu durante 16 anos.

Em entrevista à Agência Ecclesia, o prelado lembra o seu percurso vocacional, que inclui crises, paixões utópicas e uma longa viagem de Cinfães para Évora, aos 13 anos de idade.

Agência Ecclesia (AE) – Foi ordenado padre a 25 de junho de 1961, passados 50 anos ainda se recorda como estava nesse dia? Estava nervoso ou ansioso?

D. Manuel Madureira Dias (MMD) – Ansioso não direi, mas um pouco excitado e nervoso sim. Foi um passo que é sempre difícil de dar, não obstante ter sido dado de forma decidida, firme e preparada. Foram doze anos de seminário com um objetivo a alcançar. Não foi nada de inesperado, mas algo – uma realidade marcante na minha vida – que dá sempre um pouco de medo, receio e apreensão do que virá a ser a correspondência no futuro e isso traz alguma inquietude.

AE – Alguma vez hesitou?

MMD – Durante o tempo de seminário sim. Várias vezes. Uma ainda bastante cedo, por volta do primeiro ou segundo ano de filosofia – na altura tínhamos um currículo de filosofia (3 anos) e teologia (4 anos) separados – e lembro-me que – suponho que foi nas primeiras férias grandes – tive grandes lutas, comigo próprio, de indecisão, incerteza e interrogação. Quando vim de férias para o seminário tive de apresentá-las a alguém que me orientasse porque estava um bocado desorientado.

Tive outra muito perto do fim do curso – um ano antes da ordenação – onde entrei num nervosismo e hesitação muito grande, relativamente às dúvidas que se me apresentavam. Questionava-me se seria ou não capaz de levar por diante os compromissos que ia assumir. Esta situação deu-me um certo desgaste físico que me alterou um pouco a harmonia da saúde.

A hesitação levou-me, inclusivamente, a não pedir o grau de subdiaconado na hora que os meus colegas pediram. Depois aconselhei-me – falei com quem devia falar – tranquilizei-me e na hora própria acabei por decidir.

AE – Alguma rapariga se atravessou nesse caminho vocacional?

MMD – Ninguém se atravessou no caminho. Eu é que senti o toque-toque do coração, em determinadas épocas da vida. Quando referi o caso que aconteceu no fim do primeiro ano de filosofia, precisamente, aí houve uma crise afetiva. Somente minha, sem testemunhá-la à rapariga pela qual – diríamos assim – me apaixonei utopicamente.

AE – Uma paixão platónica?

MMD – Mas de qualquer modo suficiente para me tirar as energias de uma decisão firme.

AE – Sendo natural de Cinfães (diocese de Lamego), qual a razão que o levou para Évora?

MMD – A razão tem uma história. A vinda de candidatos ao sacerdócio da minha terra (Tarouquela, concelho de Cinfães) para Évora deu-se devido a um seminarista de Lamego que saiu do seminário de Lamego em determinada altura. Ele queria ser padre e foi ter com D. Manuel Mendes da Conceição Santos a Entre-os-Rios – onde o bispo fazia férias e tratamento termal – e pediu-lhe se o aceitava no seminário de Évora. Foi aceite e foi a primeira pessoa daquela zona que veio para Évora estudar. Concluiu o curso, foi prefeito e professor do seminário de Évora durante três anos, ao fim dos quais morreu com uma tuberculose. Foi ele o chamariz para uma série de candidatos que acabámos por vir. Ordenámo-nos na diocese de Évora sete padres do concelho de Cinfães.

AE – Um autêntico viveiro vocacional?

MMD – Um viveiro graças a um rapaz que frequentou o seminário de Lamego e aquém não deram continuidade no curso. Como enveredou para Évora, abriu-se um caminho e vim nessa sequência.

AE – Qual foi a reação dos pais quando lhes transmitiu que vinha estudar para Évora?

MMD – A história da minha vocação é curiosa nesse aspeto porque decidi entrar no seminário sem dizer nada aos meus pais. Tinha 13 anos de idade. Com esta idade, combinei vir para o seminário com um seminarista que andava em Évora e que se ordenou nesse ano em que eu entrei.

Uma vez combinado com ele que viria para o seminário, cheguei a casa e disse à minha mãe a notícia. Ela que era uma pessoa muito praticante e religiosa – com uma fé muito simples mas muito profunda – disse-me: «Oh filho, o que é que tu fizeste? E agora como vamos manter-te – referia-se ao aspeto económico – no seminário? Ai, o teu pai quando souber o que é que ele vai dizer?» (Risos…)

AE – O que é ele lhe disse?

MMD – Quando o meu pai chegou a casa, ela deu-lhe a notícia. Ele responde: «Oh mulher, por causa disso não vai haver problemas. Se nós ainda temos dívidas de algumas compras que fizemos, temos mais uma». Foi assim que se resolveu o problema.

AE – Os seus pais trabalhavam em que área?

MMD – A mãe trabalhava na costura e o pai tinha uma oficina de serralheiro.

AE – Imaginavam outro futuro para o filho?

MMD – O normal era que cada filho seguisse as peugadas do seu pai. Era aquilo que estaria taxado para mim, na medida em que – durante os anos de pré-adolescência (11, 12, 13 anos) – ajudei o meu pai.

AE – O serralheiro júnior dominava a arte?

MMD – Nem por isso… (Risos)

AE – Tinha mais sensibilidade para que áreas?

MMD – É difícil explicar porque vivia num meio muito fechado e muito primitivo. Nunca tinha ido a uma cidade. Vivia numa aldeia sem comunicações nenhumas. O meu horizonte era muito limitado à aldeia. Limitado ao serviço do campo e da serralharia.

AE – E brincadeiras?

MMD – Isso foi só no tempo da escola. Depois desta comecei a trabalhar. Trabalho infantil… (risos)

AE – Quando apareceram os primeiros sinais para a vocação sacerdotal?

MMD – Despontou aos nove anos. Um dia, um professor primário mandou fazer uma redação – como então se dizia – sobre o nosso futuro. Nessa altura, recordo-me que já falei disto. Andava ainda na 3ª classe.

No mesmo ano, o dito seminarista que referi atrás encontrou-me numa catequese e fez-me este desafio: «Não querias ir para o seminário?». Disse-lhe: «Não, ainda não fiz a 4ª classe». Passou esta época e quatro anos depois disto, fui à procura dele para lhe dizer que queria vir para o seminário.

AE – Andou a amadurecer o desafio durante quatro anos?

MMD – Sim. Nessa pré-adolescência é que decidi ir para o seminário.

AE – Vivendo num meio tão fechado, foi difícil deixar a família e partir para o seminário de Vila Viçosa? Chorou?

MMD – Chorei quando recebi a primeira carta do meu pai. Chorei por duas razões: primeiro porque foi a primeira carta que recebi em resposta a uma minha que tinha mandado a relatar a viagem e depois porque havia um prefeito – um padre do seminário – que quando me viu receber a primeira carta «meteu-se» comigo e me provocou. Fiquei em choque.

AE – Na altura a relação paternal era diferente. O pai era uma autoridade.

MMD – Era uma autoridade e eu tinha muito respeito e consideração pelos meus pais. O meu pai é que escrevia sempre. Vim para 400 quilómetros de distância e nunca tinha saído da aldeia.

AE – Recorda-se dessa viagem…

MMD – Oh se lembro… Sai às 6 da manhã de um dia e cheguei às duas da madrugada do dia seguinte a Vila Viçosa (risos…)

AE – Foi de carroça?

MMD – Não. Foi de camioneta, comboio e automotora. Todos esses transportes foram utilizados numa única viagem, com paragens de três horas nalguns sítios. Levava uma mala, tipo baú, com as coisas necessárias.

AE – A educação no seminário era muito diferente da atual, visto que o II Concílio do Vaticano surgiu alguns anos depois?

MMD – O II Concílio do Vaticano surgiu quando já era padre… Ao nível da educação, não havia muita proximidade com o reitor. Era uma figura um pouco distante e uma figura de recurso, para última instância. Mas com os prefeitos havia proximidade porque eram padres novos e tenho boas recordações.

AE – Como é que um coração duriense se adapta e molda à vida alentejana?

MMD – A pouco e pouco… Hoje, sinto o coração muito alentejano. Aliás, tenho mais vida de Alentejo do que de outra parte qualquer do país.

AE – Consegui adaptar-se facilmente aos horizontes da planície? Ao lado bucólico do Alentejo?

MMD – Adaptar-me à pacatez depois dos 75 anos é fácil porque não dá para muito dinamismo. Mas por feitio e temperamento não sou assim muito para isso. Tinha a minha efervescência quando as coisas não andavam ao ritmo que eu pretendia. Compreendo perfeitamente a situação e gosto do povo alentejano.

AE – Em 1961 foi ordenado presbítero e passados alguns meses foi anunciado o II Concílio do Vaticano. Foi difícil a adaptação à «nova primavera» da Igreja?

MMD – Tive a sorte de sair do seminário e ir, imediatamente, para a Universidade, em Roma. O bispo da diocese mandou-me estudar teologia para Roma. De maneira que, quando o concílio começou já estava lá. Acompanhei um pouco a evolução do pensamento teológico durante o decorrer os trabalhos conciliares. Fui vivendo e absorvendo – lá dentro – o que ia acontecendo e não conheci outra atuação minha de padre – a não ser celebrar a missa em latim – em tempo antes do concílio.

Estive três anos em Roma (regressou em 1964) e o concílio encerrou em 1965. Além disso, fui para o seminário – onde estive mais seis anos – e quando fui para a paróquia de Elvas (em 1970) já tinha uma rodagem da doutrina conciliar.

AE – Gostou mais do tempo da paróquia ou do seminário?

MMD – Sempre sonhei com a paróquia. Aliás, quis ser padre para ser pároco. Foi o lugar onde me senti melhor e mais realizado, apesar de não ser o meio que queria. As minhas utopias e sonhos de rapaz e seminarista era ser pároco numa aldeia. Nunca tive essa sorte. Era aí que eu queria realizar-me como pároco…

AE – Ao estilo do Cura d´Ars…

MMD – Não direi tanto. Não quero ser pretensioso, nem penso que seja santo como ele. Mas gostava de uma aldeia pequena, onde as pessoas se conhecessem todas e pudesse haver um trabalho de emulação mútua. Onde se registasse um caminhar de uma pequena comunidade que fizesse algum progresso, do ponto de vista do aprofundamento da fé. Foi sempre o meu sonho…

AE – Alguns dos seus livros refletem essas questões: sacramentos da iniciação cristã, catequeses…

MMD – Tive isso como preocupação, sobretudo durante o meu tempo de bispo.

AE – E agora não tem?

MMD – Agora não tenho destinatários.

AE – Mas tem mais tempo disponível.

MMD – Sim, mas não estou parado…

AE – Atualmente, como ocupa o seu tempo?

MMD – Não trabalho 24 horas por dia porque não dá… Tenho de dormir e gosto muito de dormir.

AE – Influências do Alentejo?

MMD – Não. Nunca fui muito dorminhoco no sentido de ter dificuldade em levantar-me, mas gosto do meu repouso de 7 a 8 horas por dia.

AE – Já escreveu vários livros. Não pensa escrever um livro de memórias, visto que tem muitos episódios guardados no computador.

MMD – Na minha vida não sai. Não há um objetivo suficientemente válido que justifique a publicação.

AE – Mas tem muitos episódios para contar. Recentemente, estive em Elvas e muitas pessoas ainda se recordavam de si como pároco, apesar de terem passado 40 anos…

MMD – Costuma-se dizer que «não há amor como o primeiro» e o meu amor único paroquial (esteve 8 anos em Elvas) foi aquele. Parecendo que não – sem ofensa para ninguém – direi que as amizades mais sólidas da minha vida estão em Elvas. A vida paroquial permite um entrosamento e uma proximidade que nenhuma outra vida permite. Tenho, ainda hoje, grandes amigos do meu tempo de pároco que fazem o favor de se manterem amigos e terem manifestações de amizade em qualquer circunstância da vida. Significa que foram amizades sólidas…

AE – Costuma ir a Elvas com frequência?

MMD – Vou lá uma vez de dois em dois meses ou três em três meses. Normalmente, fazer algum serviço que me pedem: palestra, celebrar uma missa numa data memorável, um batismo de um neto dos meus amigos.

AE – Mas, recentemente, fizeram-lhe uma festa em Elvas…

MMD – Foi promovido pelas pessoas que então eram crianças da catequese quando fui para a paróquia.

AE – Esteve também ligado ao movimento «Oásis»

MMD – Estive enquanto pároco. Era um movimento relacionado um pouco com um outro movimento que surgiu na mesma altura, chamado movimento «Para um Mundo Melhor». Estive bastante «enfronhado» no movimento «Para um Mundo Melhor», na medida que participei num curso longo – três meses – na fonte com o padre Lombardi onde estava também o padre Rotondi, fundador do «Oásis».

O movimento «Oásis» era uma espécie de um «filhote» do movimento «Para um Mundo Melhor», dedicado ou focado mais nos jovens. Quando era pároco, um grupo de jovens quis participar num curso de formação e pedi ajuda a uma equipa do Porto que estava muito virada para o movimento «Oásis». Foi nessa altura que veio a Elvas um padre e dois seminaristas da diocese do Porto, um dos quais é o atual D. Carlos Azevedo.

AE – A pastoral juvenil esteve sempre nas suas prioridades pastorais?

MMD – Não direi que sou muito vocacionado para jovens, mas tive sempre a preocupação de dar alguma coisa aos jovens que tivesse consistência. No Algarve, durante os 16 anos que estive como bispo, insisti bastante e fiz incidências de alguma profundidade à volta do Crisma da juventude por volta dos 17/18 anos. Eram as idades que preferia para crismar. Criei um certo ambiente à volta da juventude sem filiação nenhuma em movimento algum.

Certo dia, no aeroporto de Lisboa encontrei um rapaz que me disse: «O senhor bispo não se lembra de mim? O senhor crismou-me». Marquei um bocado, os jovens crismandos porque estava com eles antes do Crisma e acompanhava-os depois do Crisma. Isso criou uma dinâmica…

AE – Sei que tirou um curso de filosofia. Qual a razão?

MMD – Por birra… (Risos). Fui convidado para lecionar filosofia na secção liceal de Elvas porque era professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). Disse ao reitor da secção liceal: «Não vou, a não ser que o meu bispo me dê autorização porque ele nomeou-me para professor de EMRC e não para professor de filosofia». O reitor falou com D. David de Sousa e este disse para eu ir dar a filosofia.

Comecei a lecionar a filosofia no ano letivo de 1972/73. Deu-se o 25 de Abril de 1974 e eu, que tinha habilitação para dar filosofia, deixei de ter. Disse para comigo: «Por razões de falta de habilitações não há de ser e fui fazer o curso para Coimbra».

AE – Com uma vida tão preenchida, sentiu dificuldades?

MMD – O desenvolvimento do raciocínio estava feito, tal como bastantes conhecimentos da história da filosofia. Só que fui para Coimbra numa época em que a mentalidade era outra. Entre 1976 e 1980, reinava o marxismo que era a ideologia das universidades. Tive de estudar coisas que nunca tinha estudado.

AE – O marxismo influenciou-o?

MMD – Influenciou… (Riso). Não no sentido revolucionário do marxismo, mas enquanto ilustração de um modo de pensar as coisas.

AE – Sem esquecer que estava no Alentejo.

MMD – Em Elvas, nunca senti problemas nem com o Partido Comunista nem com essas «coisas». Houve lá uma lista de 30 pessoas abater que correu pela cidade e eu não fazia parte dela. Não abateram nenhuma, mas era o terrorismo… Nunca fui grande revolucionário.

AE – Sempre foi pacato?

MMD – Já sou. Outrora era um bocado vigoroso e, porventura, até desabrido e violento nas primeiras reações. No sentido psicológico era primário e muito primário. Agora não.

AE – Como conseguiu moldar a sua personalidade?

MMD – Não sei se consegui, se foi a providência que se encarregou disso.

AE – Em abril de 1988 é nomeado bispo do Algarve. Já esperava? Foi surpresa? Já tinha ouvido zunzuns?

MMD – Já tinha ouvido um zunzum. Fiz uma operação cirúrgica – um ano antes da ordenação episcopal – e estava no pós-operatório, no hospital ainda, e tive uma visita do cardeal patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, que me surpreendeu sumamente. Por duas razões: primeiro, porque não tinha nenhuma relação com ele e, segundo, porque me parece que o D. António Ribeiro não era dessas visitas. Mas não percebi nada… Quando cheguei a casa, recebi um telefonema de um jornalista que me diz: «Então é o senhor que vem para bispo auxiliar de Lisboa?». Respondi-lhe: «Eu?». Foi o primeiro zunzum que ouvi – isto foi em dezembro -, acontece que depois ouvi mais uns zunzuns.

Em março do ano seguinte sou chamado à Nunciatura e, aí, é-me comunicado. É-me comunicado, não me perguntam… Respondi aquilo que entendia e procurei pôr as objeções que pensei que davam efeito. O núncio conclui desta forma: «O senhor tem as suas razões e eu tenho as minhas». Quando pensava que era para auxiliar de qualquer coisa era para residencial do Algarve.

AE – Tremeu?

MMD – Tremi e pedi para que não viesse nessa qualidade de residencial. Que viesse como auxiliar ou coadjutor para me exercitar algum tempo. Conclui que a visita do cardeal patriarca foi para saber da gravidade da minha saúde porque ele perguntou ao cirurgião se a doença era cancerosa ou não? Caso fosse não me imporiam as mãos…

AE – Inicialmente vacilou, mas adaptou-se com facilidade ao Algarve?

MMD – Não foi tão fácil. Achei uma grande diferença entre o Algarve e o Alentejo. Depois fui entrando na engrenagem…

AE – No território algarvio, a pastoral do turismo foi uma das apostas?

MMD – Não muito.

AE – Mas escreveu várias notas pastorais sobre o assunto.

MMD – Tinha uma visão do turismo talvez um bocado desfocada em relação a outras visões. Para mim, o turismo – pastoralmente falando – tinha interesse pela parte do dinamismo que se imprimisse aos residentes. Aqueles que passam 15 dias no Algarve pouca influência poderão receber da Igreja, a não ser ocasionalmente. Agora se encontrarem gente do Algarve com formação, exigência e dá testemunho de vida, nessa altura vale mais isso tudo do que um encontro esporádico.

É preciso é que nos hotéis, pensões, restaurantes – lugares dos turistas – se encontrem pessoas com formação e exigência de valores cristãos. Essa é que era a minha preocupação turística. Não era tão diretamente lançada ou virada para os vêm, mas para os que estão em relação aos que vêm.

AE – Pediu a resignação muito cedo?

MMD – Não. Foi na altura própria. O meu antecessor saiu com a idade com que eu sai e ninguém falou nisso. Ele também saiu com 66 anos de idade.

AE – A idade para se pedir a resignação é aos 75 anos…

MMD – Quando se tem saúde. Não foi o meu caso. Na altura tive problemas cardíacos e circulatórios que me provocaram muita perda de energias. Pedi um auxiliar, precisamente por isso.

Ao cabo de quatro anos (período de tempo que teve um bispo auxiliar, D. Manuel Quintas) entendi que era chegada a hora: primeiro, de passar a pasta e, segundo, ir descansar.

AE – Para o Alentejo. Nunca pensou voltar para a terra natal?

MMD – Desde que nos faltam os pais, a questão da terra já não é a mesma coisa.

AE – Apanhou vários pontificados, qual o Papa que o marcou mais?

MMD – É uma pergunta de difícil resolução. O pontificado de João Paulo II foi o mais longo. Foi ele que me nomeou e aceitou a minha resignação. Diríamos que é o Papa do meu episcopado.

Admiro muito o Papa Paulo VI, pela solidez da sua doutrina e pela coragem que ele teve no concílio e no pós-concílio.

Agência Ecclesia
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