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Completam-se no dia 31 de maio deste ano 15 anos sobre o falecimento do irmão Manuel da Cruz. Esta reportagem foi realizada para ser publicada nesse dia. No entanto, foi decidido antecipar-se essa publicação para hoje por se tratar de uma história de conversão e de renascimento para uma nova vida, ainda mais significativa quando o mundo vive um momento de sofrimento provocado por uma pandemia. À memória do irmão Manuel da Cruz.

De ‘Manu’ da Silva a Manuel da Cruz. De técnico dos Iron Maiden a irmão carmelita.

Um de junho de 2005. Na urna aberta no centro da capela do Mosteiro de Nossa Senhora Rainha do Mundo no Carmelo do Patacão, o corpo do irmão Manuel da Cruz enverga o hábito castanho de carmelita secular que recebera seis dias antes. A expressão de paz e grande serenidade do rosto esboça um sorriso que procurou sempre manter, mesmo durante o sofrimento que se agudizou nos últimos tempos da vida terrena.

A morte ocorreu na unidade de cuidados intensivos do hospital de Faro na véspera, 31 de maio, dia em que a Igreja celebra a festa litúrgica da visitação de Nossa Senhora, com quem sempre manteve uma relação iniciada no dia do seu nascimento: 13 de maio de 1955. Naquele dia, particularmente significativo para a devoção católica mariana, Manuel António Mendes da Silva nascia na freguesia da Senhora da Hora, concelho de Matosinhos, que tem precisamente como padroeira Nossa da Senhora da Boa Hora. Foi batizado na igreja da paróquia local com o mesmo orago.

Aos quatro anos, Manuel da Silva muda-se com a família para Sendim, no mesmo concelho. Filho de pais pobres mas muito crentes, ali participou na Eucaristia, frequentou a catequese juntamente com a irmã, recebeu a primeira comunhão e completou a instrução primária. A lembrança da “bonita” festa da comunhão permanecia-lhe na memória com o sentimento de alguma tristeza pela ausência do pai, já emigrado em França.

Concluída a “quarta classe”, abandona os estudos para começar a trabalhar na construção civil como servente de pedreiro. Aos 12 anos já contribuía para a frágil economia familiar, quando a irmã o informa da decisão do pai que decidira levá-los a todos para França. Naquele país, a família fixou residência em Colombes, nos subúrbios de Paris, e Manuel ainda chegou a prosseguir o trabalho nas obras, mas “pedia sempre a Deus” para o deixar, como chegou a testemunhar à publicação ‘Água Viva’, da Fundação Maria Mãe da Esperança. “Falava muitas vezes com Nossa Senhora, numa capelinha onde me sentia muito bem na cidade onde vivia. É engraçado, Ela dava-me tudo o que eu lhe pedia. E consegui deixar as obras”, referiu.

Um dia pediu dinheiro à mãe que, não convencida com a justificação, o seguiu à distância para descobrir a verdadeira razão do pedido. Ao constatar que usou o dinheiro para comprar um ramo de flores, pensou que seria para alguma rapariga, mas percebeu a verdadeira motivação quando o viu entrar na igreja, para oferecer o bouquet a Nossa Senhora.

Ingresso no mundo da música e do espetáculo

‘Manu’ ao centro

Depois das obras, teve vários empregos e jogou futebol no clube local, tendo mais tarde trocado o futebol pelo boxe. Aos 18 anos começou a trabalhar no mundo da música e foi convidado em 1974 para o Olympia, em Paris, altura em que ali complementou estudos, tendo obtido o diploma de engenharia de espetáculos como técnico de luzes, cenários e som. Trabalhou com grandes nomes da música mundial como Frank Sinatra, Charles Aznavour, Mireille Mathieu ou Peter Gabriel.

É nessa altura que o ‘Manu’ da Silva conhece Bernie Bonvoisin. Os dois tornam-se rapidamente inseparáveis e quando o amigo forma os Trust, em 1977, ‘Manu’ torna-se o ‘roadie’ (técnico que apoia os músicos na montagem e desmontagem dos espetáculos) daquela banda francesa, deixando de trabalhar no Olympia.

Simultaneamente prosseguiu a carreira no boxe, tendo chegado a vencer competições importantes com destaque na imprensa francesa.

Steve Harris (E) e ‘Manu’ (D)

Em 1981, os Trust participam na primeira parte dos concertos da ‘Killer Tour’ dos Iron Maiden e ‘Manu’ conhece Steve Harris, baixista e fundador da banda de metal, aceitando pouco tempo depois uma proposta para trabalhar com os músicos britânicos como técnico de som e luzes. Ao Folha do Domingo, os Iron Maiden explicaram ainda, através da sua empresa de management, que ‘Manu’ da Silva acompanhou a banda, realizando “diversos trabalhos” nas restantes tournées da década de 1980, percorrendo imensos países.

Abandono da fé

‘Manu’ ganhou muito dinheiro. “Nessa altura, esqueci-me de Deus e de Nossa Senhora”, confidenciou no testemunho a ‘Água Viva’, referindo-se à vida de boémia que levava na procura de “gozar o mais possível”. Por volta de 1984 deixou também o boxe.

Em 1986, Steve Harris convida-o para vir passar férias ao Algarve, na sua casa em Santa Bárbara de Nexe. ‘Manu’, que não conhecia o Algarve, decide fixar-se naquela freguesia do concelho de Faro, mas nos primeiros dois anos esbanjou tudo quanto tinha ganho numa vida completamente desregrada.

Nos primeiros tempos, a população da aldeia de Santa Bárbara de Nexe reagiu com alguma estranheza e desconfiança ao forasteiro de imagem excêntrica, nada habitual para a época. Francisca Contreiras garantiu ao Folha do Domingo que, nessa altura, o ‘Manu’ entrava na igreja paroquial para rezar junto à imagem de Nossa Senhora e um sentimento de insegurança assaltava as devotas que ali estavam em oração. Aquela residente na freguesia realça assim que, embora ténue, a ligação do ‘Manu’ à fé manteve-se sempre por via da sua devoção a Nossa Senhora, que nunca se extinguiu.

‘Manu’ com Steve Harris no ‘Eddie´s Bar’, em Santa Bárbara de Nexe
Paul Di’Anno (E), ex-vocalista dos Iron Maiden, e ‘Manu’ (D)

No final da ‘Seventh Tour Of A Seventh Tour’, Steve Harris propõe-lhe sociedade na abertura de um bar da banda em Santa Bárbara de Nexe em que assumisse o cargo de sócio-gerente. ‘Manu’ passa então a gerir o ‘Eddie´s Bar’ que abriu portas em 14 de setembro de 1989, passando a ser uma atração mundial, sobretudo entre os fãs da banda.

Os Iron Maiden no ‘Eddie’s Bar’
Os Iron Maiden no ‘Eddie’s Bar’

‘Manu’ conhece e torna-se sócio do Moto Clube de Faro e também Steve Harris se torna um “grande amigo” do clube. Ao Folha do Domingo, o presidente José Amaro confirmou essas ligações. “Era muito importante para o Moto Clube, além de grande amigo”, atestou, garantindo que ‘Manu’ da Silva “estava sempre pronto a ajudar os outros”.

‘Manu’ na final da Taça de Portugal em 1990 no Estádio do Jamor entre o Farense e o Estrela da Amadora

Através do Moto Clube de Faro, ‘Manu’ começa a apoiar o Farense e, mais do que sócio, torna-se um exemplo do amor ao clube. “Criou afeição, paixão e amor ao clube”, disse ao Folha do Domingo Carlos Encarnação, assessor do presidente do Farense, que confirmou que o Farense viu sempre no ‘Manu’ um exemplo do que é ser adepto. Prova disso mesmo é que, durante muitos anos, o clube teve a sua icónica imagem de apoiante no túnel de acesso dos jogadores ao relvado. A imagem do ‘Manu’, no seu caraterístico estilo ‘motard’, mas sobretudo pela intensidade e emoção com que vivia o jogo e «incendiava» o Estádio de São Luís, permanece na memória de muitos.

Imagem de ‘Manu’ no túnel de acesso ao relvado no Estádio de S. Luís – Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Nos imensos contactos que tem no ‘Eddie’s Bar’, ‘Manu’ conhece uma jovem de uma família da alta sociedade portuguesa de quem teve duas filhas com três anos de diferença entre si. No entanto, continuava a viver para as noitadas em discotecas e farras e a gestão do bar corria mal. Gastava diariamente muito dinheiro no jogo. Após alguns anos de vida em comum, a mãe das filhas não aguentou e decide afastar-se, levando consigo as crianças.

Paul Di’Anno (E), ex-vocalista dos Iron Maiden, e ‘Manu’ (D)
Paul Di’Anno (E), ex-vocalista dos Iron Maiden, e ‘Manu’ (D) no ‘Eddie´s Bar’, em Santa Bárbara de Nexe

Regresso à fé por intermediação mariana

O Convento de Nossa Senhora Rainha do Mundo, no Patacão (concelho de Faro) – Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Numa madrugada em que regressava ao ‘Eddie´s Bar’ onde morava, ‘Manu’ foi forçado a parar em frente ao Mosteiro de Nossa Senhora Rainha do Mundo no Carmelo do Patacão. A moto em que seguia deixou inesperadamente de trabalhar naquela noite. Parecia falta de gasolina e as inúmeras tentativas para que retomasse o funcionamento não surtiram efeito. Sentiu então um impulso a dirigir-se até à imagem de Nossa Senhora, no exterior do convento, que saudava sempre que por ali passava. Saltando a vedação, deteve-se aos pés da imagem em oração, sem dar conta das horas passadas.

Imagem de Nossa Senhora no Convento de Nossa Senhora Rainha do Mundo, no Patacão (concelho de Faro) – Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

As irmãs Carmelitas Descalças, que costumavam ir abrir a portada às 6h, foram surpreendidas naquela manhã. A irmã Teresa Maria, que naquele dia tinha ficado incumbida da tarefa, estranhou o aspeto daquele homem e assustou-se. “Ele estava lá em pé a olhar para Nossa Senhora, a rezar, e eu até fugi logo para dentro”, recordou a religiosa ao Folha do Domingo. Amedrontada foi chamar a irmã Ressurreição. “Está ali um homem tão estranho. Eu tenho medo. Venha lá ver”, pediu-lhe. “Eu fui. Cheguei lá e disse «bom dia!» e perguntei se precisava de alguma coisa. Não me assustei, porque ele tinha um olhar lindo, de uma pessoa de uma bondade e de um coração puro e bom. E ele respondeu: «não, irmã, não preciso de nada. Só preciso de rezar. Posso ficar aqui?». Respondi: «sim, esteja à vontade». Viemos para a oração e ele ficou lá”, contou a irmã Ressurreição. ‘Manu’ resolveu depois tentar retomar a viagem de regresso a casa e, inexplicavelmente, a moto voltou a trabalhar.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Naquele dia, voltou a dormir até meio da tarde, mas, quando acordou, sentiu-se diferente. “Tinha uma enorme vontade de rezar”, contou a ‘Água Viva’. Por não querer regressar àquela hora ao convento, foi para um monte ali perto em oração. Rezou, num desabafo de grande emoção. Regressou ao bar, abrindo-o para mais uma noite como as outras. Depois de fechar as portas, por volta da uma da madrugada, meteu a receita do dia ao bolso com a intenção de voltar ao casino, repetindo um ritual que cumpriu durante anos. Porém, ao passar no Carmelo, parou e tornou a ir rezar junto à imagem da Virgem. “Ela parecia que me sorria. Falei e reconheci, mais uma vez, os meus erros”, testemunhou. Quando reparou nas horas, constatou que já não conseguiria ir ao casino e regressou a casa. O ritual de oração emocionada no monte manteve-se durante sete dias seguidos. “Ao oitavo dia senti uma alegria plena”, contou.

Descoberta das Oficinas de Oração e Vida

‘Manu’ começa então a frequentar o Carmelo e a ler a Bíblia. Afastou-se completamente do jogo e deixou as noitadas. Cortou o cabelo, mudou o estilo de roupa, deixou de usar brincos, anéis e outros adereços. Por essa altura, nos inícios do ano 2000, decide começar a frequentar uns encontros na paróquia de Santa Bárbara de Nexe, que mais tarde percebeu serem as Oficinas de Oração e Vida. “Eu conheci o Manuel irreverente. À mais pequenina coisa, explodia. Mas depois, foi-se modificando muito, muito”, contou ao Folha do Domingo Maria Vitória Arenga, uma das responsáveis do núcleo do Algarve das Oficinas de Oração e Vida.

Quando terminou esses encontros, decide dar um novo passo no seu caminho de conversão: a confissão. “Não me confessava há 30 anos”, revelou. Procurou o cónego Manuel Oliveira Rodrigues, na altura pároco de São Pedro de Faro (paróquia a que pertence o Carmelo do Patacão), pedindo-lhe que fosse ter com ele ao bar onde vivia. “Ele foi aprofundando e descobrindo que precisava de se reconciliar”, explicou ao Folha do Domingo o sacerdote, acrescentando que o continuou a acompanhar e que o próprio ambiente que o rodeava foi mudando. “Ele tinha já nos seus aposentos uma imagem de Nossa Senhora”, conta.

Para além da Bíblia, ‘Manu’ começou a ler as biografias de vários santos, continuava a subir ao monte para rezar e passou a frequentar o Carmelo do Patacão, a ajudar as irmãs de clausura e a participar ali diariamente na Eucaristia.

Opção preferencial pelos mais pobres

Começou a sentir a necessidade de falar de Deus aos outros, particularmente aos mais pobres, muitos dos quais frequentavam o refeitório social da paróquia de São Pedro de Faro. “Oferecia-se para nos dar boleia ou para fazer recados em Faro. A irmã Maria do Carmo foi com ele algumas vezes. Uma vez chegou ao carro e ele não tinha sapatos. Disse que tinha encontrado um pobre que estava com frio e lhos tinha dado. Outra vez, tinha ido comprar frango assado para ir almoçar e, no semáforo, estavam uns pobres a pedir e ele deu-lhes o seu almoço. Todos os dias dávamos-lhe o jantar com mais abundância e viemos a saber que ele não o comia, porque ia levá-lo a uns pobres. Quando percebemos, a irmã Eucaristia que fazia a comida, preparava de propósito um tacho maior e ele ficou todo contente, por poder dar mais às pessoas que precisavam”, contou a irmã Ressurreição, acrescentando que, inclusivamente, chegou a oferecer na sua residência uma ceia de Natal para as pessoas pobres.

“Cheguei a ir algumas vezes comprar comida ao Fórum [Algarve] e a comer com eles. E conversávamos muito. Alguns, como andava com uma cruz ao peito, julgavam que eu era padre e lá tinha de lhes explicar que não era. Também ia à prisão e falava sempre de Jesus e de Maria”, testemunhou ‘Manu’ ao ‘Água Viva’, lembrando que visitava também um lar de idosos em Olhão.

Configuração com Jesus

A irmã Ressurreição lembra ainda, que “ele gostava muito de rezar junto da imagem de Nossa Senhora do Carmo e também junto do crucifixo grande”. “Ficava ali muito tempo. E uma vez disse-me: «sabe o que estou a dizer a Nosso Senhor? Que quero configurar-me com Ele, que me dê as suas chagas, que eu quero sofrer como Ele”, recordou a religiosa, explicando que o ‘Manu’ começou a manifestar gosto em que o passassem a chamar Manuel da Cruz.

As Oficinas de Oração e Vida foram um marco na sua caminhada de conversão. A irmã Lúcia Maria, atual madre do Carmelo de Faro, testemunha que quando as irmãs falam do Manuel, sempre recordam que, muitas vezes, enquanto ele ajudava nos trabalhos do quintal ouvia gravações de ensinamentos daquele método de oração e vida. Às vezes dizia: «ó irmã, oiça isto!».Ele andava todo apaixonado por Cristo e por Nossa Senhora”, conta a carmelita. Manuel frequentou depois, durante ano e meio, a Escola de Formação de Guias e tornou-se ele próprio guia daquele método, começando a orientar encontros em vários pontos do Algarve, nomeadamente pela serra do nordeste algarvio. Maria Vitória Arenga testemunhou o entusiasmo contagiante com que realizava aquele serviço.

Manuel desejava que todos pudessem viver a mesma experiência de Deus que ele vivera. Foi então em 2002 o impulsionador de uma Eucaristia anual na igreja de São Pedro de Faro, presidida pelo cónego Manuel Rodrigues, com participação dos sócios do Moto Clube de Faro e de outros ‘motards’, que incluía a bênção das motos. No primeiro ano teve poucos participantes, no segundo ano já eram muitos mais e no terceiro quase não cabiam na igreja. Ao Folha do Domingo, o sacerdote explicou que a ideia do Manuel era promover uma celebração “por todos os que morreram na estrada”.

Descoberta da doença e sentido para o sofrimento

Foto © Água Viva

Em 2003 ficou doente, tendo-lhe sido diagnosticado, no último trimestre, um cancro no cólon em fase muito avançada. “Quando o médico me disse que a minha doença não era grave mas muito grave, fiquei, por uns momentos, assustado. Depois, o Senhor libertou-me. Fez-me compreender que devemos aceitar a dor com amor. Partilho-a com Jesus e com Nossa Senhora e entrego as dores pelos que não acreditam. Estou muito grato a Deus, porque Ele deu-me tempo para eu me purificar”, testemunhou.

“O Manuel deu uma volta incrível. Deu graças a Deus por O ter encontrado antes da doença, porque senão ele faria qualquer coisa que não seria nada bom”, considerou o cónego Manuel Rodrigues ao Folha do Domingo, explicando que o próprio achava ter sido providencial, ter-se convertido antes de se saber doente.

‘Manu’ com Maria Vitória Arenga (E) e outros elementos das Oficinas de Oração e Vida

“Devemos aceitar a dor com carinho. Eu aceito-a como purificação. É uma oportunidade que Deus me dá e estou-lhe muito grato. Eu sei que, se o Senhor quisesse, podia curar-me, apesar de o médico dizer que eu não tenho cura. Mas se não quiser, eu mantenho n’Ele toda a minha confiança e desejo que me leve o mais depressa possível. Quero ir ver o Pai e sentir o seu amor e o seu perdão. Qual é o pai que não perdoa? Quanto mais Deus! Gostaria muito que todos abrissem o coração a Deus, que se entregassem a Ele e compreendessem a sua vontade. E que acreditassem, verdadeiramente, que só Deus basta. Ele dá-nos tudo o que precisamos. Só é indispensável ser sincero com Ele e falar-lhe com o coração, não apenas com a cabeça. Gostaria muito que os cristãos compreendessem que, para além da missa ao domingo, é indispensável ter, diariamente, uns momentos a sós com Ele”, referiu Manuel a ‘Água Viva’, sublinhando a importância de “30 minutos sagrados” todos os dias com Deus, uma metodologia que aprendeu das Oficinas de Oração e Vida. “Essa meia hora dá para sermos santos!”, sustentou.

Durante o ano de 2004, em que esteve vários meses internado no Instituto Português de Oncologia, pedia autorização à assistente social e reunia com vários doentes e acompanhantes, para lhes falar da importância da oração. “Quando aceitavam o meu convite, ficava muito feliz, mas verificava que elas também ficavam. No entanto, sempre havia uma ou outra que não aceitava, quase sempre mães de crianças doentes. Às vezes, tentava dizer-lhes que, mesmo assim, confiassem em Deus, que valia a pena, mas quando via que estavam muito revoltadas não ficava preocupado, deixava-as e limitava-me a entregá-las a Deus”, recordou, lembrando que durante aquele tempo também a mãe das suas filhas ali o visitou “várias vezes”, tornando-se “muito” sua “amiga”.

Depois de operado, e após ter alta hospitalar, ficou durante alguns dias em recuperação no Carmelo até regressar, já acompanhado pela sua mãe, ao antigo bar, local da sua residência. “Enquanto cá que ficou, todos os dias rezava o terço à noite, antes de dormir”, lembra a irmã Maria das Neves. “Gostava muito de rezar o Ofício Divino connosco. Quando não podia, telefonava à hora da Oração de Vésperas e pedia para deixarmos o telefone ligado para ele ouvir e ir acompanhando”, acrescenta a irmã Lúcia Maria, lembrando que, mesmo antes de ficar doente, o Manuel “gostava imenso de vir rezar vésperas” no Carmelo.

“Sinto-me sempre em oração. Estou sempre em diálogo com Deus. E entrego-Lhe constantemente a minha doença, as dores, enfim, todo o sofrimento que a doença me causa. Vou rezando durante o dia a Liturgia das Horas. Às 18h30 rezo, todos os dias, o terço com a Rádio Renascença. É bem diferente de rezá-lo sozinho. Escrevo no meu diário. Tenho muita coisa escrita. Mas o momento mais importante do dia é quando recebo a Sagrada Comunhão. Graças a Deus, vêm sempre trazer-ma. Ela é realmente a minha força”, testemunhou.

Manuel da Cruz encontrou sempre na Eucaristia a força para suportar a doença.
Tendo ficado também muito amigo de um grupo de seminaristas e dos seus formadores da Diocese de Leiria-Fátima que conheceu no Carmelo algarvio, através dos laços de amizade que os unem às irmãs carmelitas, ali conviveu com eles e juntos participavam diariamente na celebração da Eucaristia. Chegou a preparar-lhes umas sardinhadas e ainda hoje, quando visitam as religiosas, o Manuel está presente nas conversas.

Quando a doença ia já avançada, aqueles seminaristas – alguns, hoje, já padres – vieram visitá-lo. “Foi uma das últimas vezes em que veio ao Carmelo pelo pé dele. Insistiu com eles que queria vir à missa, mas estava com tantas dores que quase não se podia mexer. Então passou a missa de joelhos porque não se conseguia sentar. Depois, no final, foi ao pé do crucifixo, onde ainda estava a Nossa Senhora do Carmo, como que para se despedir”, conta a irmã Lúcia Maria, acrescentando que depois dessa ocasião ainda regressou uma vez, já de maca, pela Páscoa de 2005.

Foi também já de maca que participou, no dia 16 de janeiro daquele ano, na última Eucaristia com os ‘motards’ na igreja de São Pedro de Faro. O cónego Manuel Rodrigues lembra que o largo de São Pedro estava “completamente cheio de motos” e, dentro da igreja, também esteve uma delas à frente do altar.

Desejo de se tornar carmelita

No início da sua conversão, ao mudar de vestuário, o Manuel passou a vestir de castanho e branco, mas esse pormenor, mais do que indício da mudança interior, era sinal de um desejo íntimo maior, que foi ganhando forma ao longo dos últimos tempos de vida terrena: tornar-se carmelita. “Ele ansiava muito por vestir o hábito”, confirmou ao Folha do Domingo a irmã Maria das Neves, explicando ter contado esse desejo ao falecido padre Jeremias Vechina, assistente da Ordem Secular dos Carmelitas, que lhe respondeu que o Manuel se poderia preparar para ser admitido na Ordem dos Carmelitas Descalços como Carmelita Secular. “Ele ficou fora de si”, contou a consagrada, referindo-se à reação do Manuel. Também a irmã Ressurreição corroborou essa vontade, garantindo que “ele não queria morrer sem pertencer à Ordem”.

Manuel da Cruz com o padre Pedro Ferreira, Provincial da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços em Portugal, no dia da sua admissão na Ordem dos Carmelitas Descalços como Carmelita Secular

Ao Folha do Domingo, o padre Pedro Ferreira, Provincial da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços em Portugal, explicou tratar-se de “uma excepção, prevista na lei, para responder ao pedido final do Manuel e por a morte estar iminente”. “Por isso é que o padre Jeremias me pediu para ser o Provincial a receber as promessas”, acrescentou o sacerdote que já conhecia o Manuel nas suas passagens pelo Carmelo do Patacão, por algumas vezes o ter acompanhado à sua residência e por aquele o ter visitado também em diversas ocasiões, quando esteve com as filhas de passagem por Fátima.

Manuel da Cruz com a sua mãe, a irmã Ressurreição, o padre Jeremias Vechina e a irmã Branca das Neves, no dia da sua admissão na Ordem dos Carmelitas Descalços como Carmelita Secular

“Ultimamente preocupava-se muito com as filhas porque ia morrer”, contou a irmã Maria da Neves, testemunhando que nos últimos dias manifestou também tranquilidade a esse nível. “Eu já falei com o Pai. Não me preocupo com as minhas filhas, porque sei que Nossa Senhora vai tomar conta delas”, acrescentou, cintando palavras do Manuel.

Quando começou a frequentar o Carmelo, Manuel conquistou a confiança da então madre superiora. “A irmã Maria do Carmo recebeu-o como filho”, realça a irmã Lúcia Maria, que sucedeu no serviço àquela religiosa falecida em setembro do ano passado. “Logo quando ele apareceu, a madre Maria do Carmo teve a sensação de que o seu olhar era tão cândido, tão transparente, que ela dizia que não sentiu medo. Acolheu-o, cumprimentou-o e nasceu uma amizade entre os dois”, complementou. Antes de falecer, Manuel da Cruz escreveu um postal à madre Maria do Carmo – a quem considerava como a sua “mãe em Cristo” – no qual manifestava o seu agradecimento a Deus pelo acolhimento que ela lhe proporcionara no Carmelo.

Postal de Manuel da Cruz à madre Maria do Carmo

No dia 13 de maio de 2005, dia do aniversário do Manuel, a irmã Maria do Carmo visitou-o, acompanhada pela irmã Maria das Neves. “Ele estava num desespero de dores”, recorda esta última, lembrando ainda que o Manuel manifestou à sua mãe que “queria ficar sepultado no Carmelo”. “Nos últimos dias pediu-me: «diga às irmãs que eu estou muito, muito agradecido, porque aprendi muito. As irmãs abriram-me a porta e eu aprendi muito»”, acrescentou.

Manuel da Cruz com o padre Jeremias Vechina no dia da sua admissão na Ordem dos Carmelitas Descalços como Carmelita Secular

Chegou então o tão esperado dia da realização do desejo do Manuel. Foi no dia 26 de maio que os padres Pedro Ferreira e Jeremias Vechina conseguiram vir ao Algarve para o concretizar. Era um dia significativo na Igreja: celebrava-se a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, popularmente conhecida como Corpo de Deus. O Manuel estava mergulhado numa dor lancinante, mas que só lhe atingia o corpo. “Acabava de tomar morfina, tinha de tomar outra vez porque estava mesmo nas últimas”, lembra a irmã Maria das Neves, que, além dos sacerdotes carmelitas e da mãe do Manuel, esteve também presente com a irmã Ressurreição.

Não obstante ter sido o padre Pedro Ferreira a receber as promessas, foi o falecido padre Jeremias Vechina que presidiu à celebração de admissão na Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares. Embora contorcido pelas dores, o irmão Manuel da Cruz exultava de felicidade. “Pediu-me: «quando chegar a casa, diga às minhas irmãs que eu estou a saltar de alegria. Tudo o que pedi a Nossa Senhora, ela concedeu-me»”, conta a irmã Maria das Neves, lembrando ter sido a irmã Maria de Fátima que lhe confecionou a capa e o hábito.

Alguns dias antes da morte, a sua situação clínica agravou-se consideravelmente. No dia 31 de maio, pressentindo que o momento da sua passagem estaria a chegar, pediu a um amigo, a quem permitiram que dele se despedisse, que dissesse à sua mãe que tinha chegado a hora. “Diz-lhe que a amo muito”, solicitou. Faleceu meia hora depois.

A irmã Ressurreição, que a pedido da família o amortalhou na morgue no hospital, revestindo-o com o hábito carmelita, testemunha que ficou muito impressionada com a posição do corpo. “Ele estava de braços abertos com a cabeça inclinada para o lado, parecendo mesmo uma imagem de Jesus crucificado”, recorda, acrescentando que a sua vontade era vestir o hábito carmelita depois da morte, uma vez que não tinha conseguido vesti-lo em vida.

O corpo do irmão carmelita Manuel da Cruz regressou depois à capela do Mosteiro de Nossa Senhora Rainha do Mundo no Carmelo do Patacão, tão significativa na sua caminhada de conversão. “Foi tão comovente o velório aqui com os ‘motards’ todos. E, desde que ele chegou até que saiu para o cemitério, estiveram sempre dois a fazerem guarda de honra ao corpo. Lembro-me de ter cruzado olhares com alguns. Havia pessoas distantes, que não percebiam muito bem e estavam assim um bocadinho como que deslocadas, mas com uma ternura, uma devoção ao Manuel que nos tocou a todas”, lembra a irmã Lúcia Maria.

O padre Jeremias Vechina presidiu à missa exequial na capela completamente repleta com a multidão que ali acorreu. Por não poder ficar sepultado no cemitério do Carmelo, que apenas pode receber os corpos das irmãs, o irmão Manuel da Cruz foi sepultado no cemitério de Santa Bárbara de Nexe, e atualmente os seus restos mortais já estão num ossário.

Os Iron Maiden também assinalaram a morte de Manuel no seu site com uma nota de pesar que ainda lá consta.

A 16 de junho de 2005, a banda regressou a Portugal para um concerto no então Pavilhão Atlântico, em Lisboa. A emotiva interpretação do tema “Remember Tomorrow” foi dedicado à sua memória. Em 2011, de volta a Portugal, encabeçaram o cartaz da 30ª Concentração Internacional de Motos organizada pelo Moto Clube de Faro, com um concerto em sua homenagem integrado na digressão mundial ‘Final Frontier’.

Traços de santidade

O padre Pedro Ferreira confirmou ao Folha do Domingo que para o Manuel da Cruz “era importante ser sepultado com o hábito carmelita, expressão da sua conversão de vida”. “Para nós era uma graça poder acolher um convertido a Cristo”, acrescentou o Provincial da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços, explicando que o Manuel viveu “uma espiritualidade muito especial”, construída sobre os alicerces do seu passado.

Questionado sobre se o caso de Manuel da Cruz pode ser interpretado como um exemplo de uma verdadeira conversão interior, o sacerdote responde que “a sua conversão chegou no momento oportuno – a hora de Deus – e a partir daí fez progressos de santo”.

Esta perceção é comum a todas as pessoas, contactadas por Folha do Domingo, que privaram de perto com o Manuel, sendo unânimes também em realçar que a conversão ocorreu anos antes de se sentir doente. Para a atual madre do Carmelo do Patacão “foi realmente uma conversão a sério”. “Todo ele estava minado pelo amor de Deus”, sustenta a irmã Lúcia Maria. O seu confessor e assistente espiritual, o cónego Manuel Rodrigues, acrescenta que a maior prova de que a conversão foi verdadeira foi o facto de Manuel ter mantido a fé durante a doença.

“Ele disse que queria morrer como Nosso Senhor e morreu. Configurou-se com Cristo”, evidencia também a irmã Ressurreição, uma opinião corroborada pela irmã Teresa, ao lembrar que a sua morte “foi muito dolorosa, numa cama, «crucificado»”. “O Manuel da Cruz é um exemplo vivo e real de como Deus intervém na nossa vida como Alguém que se coloca à frente do nosso caminho, bate à porta do coração e, num desejo, infinito de amor por cada um de nós, quer-nos totalmente só para Ele. O Manuel teve a graça de ter Nossa Senhora como intermediária entre o céu e ele; pouco a pouco foi mergulhando neste amor divino”, considerou a irmã Lúcia Maria ao ‘Água Viva’.

Depois do falecimento do irmão Manuel da Cruz, a madre Maria do Carmo rezava-lhe “todos os dias”, pedindo a sua intercessão, como lembra a irmã Lúcia Maria. “A madre tinha uma imagenzinha de Nossa Senhora do Carmo na cela dela que foi ele que lha ofereceu. Dizia sempre «Manuel, não te esqueças do que me deixaste escrito!», referindo-se ao que está no postalinho que ele lhe escreveu”, contou.

Agradecimentos:
Comunidade algarvia das Carmelitas Descalças, padre Pedro Ferreira, Ordem dos Carmelitas Descalços, Filomena Calão, Fundação Maria Mãe da Esperança, Henrique Lobo, cónego Manuel Oliveira Rodrigues, Alexander Milas, Iron Maiden, Mary (Phantom Music Management), Núcleo do Algarve das Oficinas de Oração e Vida, Maria Vitória Arenga, José Amaro, Arnaldo Tavares (‘Braza’), Moto Clube de Faro, Carlos Encarnação, Sporting Clube Farense, Mariana Silva e Francisca Contreiras.

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