“É preciso reaprender a visitar, a estar e a acompanhar o doente”. Esta foi a principal conclusão saída da intervenção do padre Flávio Martins sobre a Santa Unção, um dos “sacramentos da cura”, na Jornada de Pastoral Litúrgica deste ano da Diocese do Algarve.

O sacerdote da Diocese do Algarve, que abordou o tema “O Sacramento da Santa Unção – A sua valorização pastoral”, disse que o “primeiro motivo e critério pastoral” daquele sacramento é “estar presente e escutar”. “Essa é a missão que nós temos”, sustentou naquele encontro de formação que este ano se realizou por regiões pastorais, subordinado ao tema “A Liturgia dos Sacramentos da Cura”.

Lembrando que a administração do sacramento cabe apenas ao sacerdote, o padre Flávio Martins realçou que os visitadores dos doentes têm “um ministério muito simples porque significa simplesmente estar e ajudar”. “Quando visitamos o doente não precisamos de dizer muitas coisas. Às vezes, é preciso perguntar o que é que ele gostaria que eu fizesse naquela hora que estou ali”, sugeriu.

Considerando que “aquele que no sofrimento da sua enfermidade se fecha, provoca no seu coração um endurecimento, uma revolta contra Deus e um afastamento do seu amor e do amor dos outros”, advertiu que “a doença pode provocar uma crise de fé” no paciente. O formador alertou que “aqueles que visitam os doentes, em particular os ministros [extraordinários] da comunhão, devem ter isto presente”. “Não posso falar de Deus com ligeireza quando estou à cabeceira de uma mãe com cancro. Tenho de aceitar a minha incapacidade de falar, mas devo aplicar a minha capacidade de escutar e estar presente”, reforçou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Nesse sentido, disse que “para visitar os doentes é necessária uma sensibilidade específica para estabelecer o diálogo com eles” e deixou um pedido. “Quando visitarem os doentes, não falam de Deus. Esperem que seja o doente a falar porque é preciso que ele abra esse espaço. Porque nós não sabemos a sua história nem o que está por trás, e ao falarmos, podemos provocar um maior momento de crise naquela pessoa”, apelou, lembrando que “sem os olhos da fé, não é fácil compreender por que razão existe a doença e por que razão esta é, por vezes, incurável”. “Mais difícil ainda é aceitá-la”, acrescentou.

Considerando, no entanto, que “sem a luz da fé, corre-se o risco de se viver afastado de Deus e de se deixar esmagar pelo sofrimento” e que “a doença, particularmente a grave, provoca um choque na pessoa”, o sacerdote disse ser possível que ela possa “abrir-se ao mistério de Cristo e nele reconhecer a própria fragilidade”, destacando que “a enfermidade pode e deve ser um caminho de regresso a Deus”. “Por detrás do sofrimento poderá haver uma missão para o doente e é preciso ajudá-lo, com a nossa presença, a descobrir essa missão na vida da Igreja e na vida da sua própria família”, exortou, explicando que a doença “pode tornar-se um meio de evangelização e missão e pode ser um bem para a Igreja também”.

“O sofrimento é um meio de santificação, uma graça que permite associar-se livremente à paixão e morte de Cristo, contribuindo para o bem do povo de Deus. Pela sua paixão e morte na cruz, Cristo deu um novo sentido ao sofrimento; desde então, este pode configurar-nos com Ele e unir-nos à sua paixão redentora. É preciso recuperar esta dimensão: unir-nos à paixão de Cristo no nosso sofrimento”, desenvolveu.

O sacerdote evidenciou assim que “o sacramento da Unção dos enfermos é um encontro com Jesus”. “É o Senhor que vem ao meu encontro, na minha enfermidade e fraqueza. Manifesta a proximidade do Pai e o seu imenso amor, ternura e carinho pela sua «ovelha ferida»”, sustentou, lembrando que os visitadores dos doentes não vão “prepará-los para a morte”. “Devemos prepará-los para se encontrarem com Cristo porque a morte é meramente uma passagem”, apelou, lamentando que hoje se viva “como se a morte não existisse” e criticando que uma “sociedade materialista e hedonista que só se preocupa em cuidar do corpo”.

“É necessário recuperar o que se perdeu, nomeadamente exortar os fiéis a meditarem com alguma frequência sobre a morte. Quem não medita sobre a morte, não medita sobre a vida. É sinal de uma vida vazia, supérflua, instantânea e sem profundidade. A morte é uma realidade para todos, e dela ninguém escapará”, constatou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O padre Flávio Martins lembrou aqueles agentes da pastoral que eles são enviados “para levar uma boa-nova, para ajudar, para consolar, confortar, levantar, animar, fortalecer o doente para a esperança do Senhor”. “A nossa primeira preocupação não é o milagre físico, mas é a salvação daquela alma. Deus enviou-nos para salvar almas, não para salvar corpos”, advertiu, explicando que devem “ajudar a pessoa a converter-se, a voltar para o Senhor” e que “o resto depois virá por acréscimo, se Deus assim o entender”.

O formador alertou ainda que os ministros extraordinários da comunhão “não foram criados para dar a comunhão na igreja”, mas “para levar a comunhão aos irmãos que estão doentes”. “Essa é a sua primeira missão”, referiu, explicando que aqueles visitadores, “testemunhas de Jesus” que levam “a fé, a esperança e a caridade”, “fazem a ponte entre o sacerdote e o doente”.

O padre Flávio Martins desafiou os formandos a estarem atentos aos paroquianos que ficam doentes e deixam de participar na Eucaristia. “Importunai os vossos párocos para irem visitar os doentes. A nossa missão é visitar os doentes. É a missão mais importante que temos. E é preciso incomodar os padres para administrar a Santa Unção, seja à hora que for, porque a morte não tem hora e eu não posso deixar um doente sem a Santa Unção”, pediu, recordando que “há muitas coisas, mas a mais importante é a salvação das almas”.

O sacerdote explicou que quem pode receber o sacramento, que “pode ser repetido se a situação se vai agravando”, são “os doentes em caso de grave enfermidade, por velhice, em perigo de morte ou pela fragilidade dos anos”, referindo ser “pecado grave da família se não chama ou atrasa a vinda do sacerdote”. Por outro lado, acrescentou que “quem não tem fé” não pode recebê-lo. “Quem nunca manifestou qualquer atitude de fé não vai receber o sacramento só porque o pai e a mãe são católicos”, acrescentou.

Lembrando que sacramento da Santa Unção “é uma celebração comunitária e litúrgica”, disse ser “aconselhável” celebrá-lo no decurso da celebração eucarística. “Mais aconselhável ainda seria celebrar assim: Penitência (Confissão), Eucaristia e Unção”, complementou.

O sacerdote, que explicou a estrutura da celebração e quais os efeitos do sacramento da Santa Unção, realçou que este, juntamente com a Penitência e a Eucaristia como Viático (alimento para a viagem), “constituem, quando a vida do cristão chega ao seu termo, os sacramentos que preparam a entrada na pátria celeste”. “A vida do cristão começa com Batismo, Eucaristia e Confirmação e termina com Penitência, Santa Unção e Viático. São os seis sacramentos, três que nos introduzem nesta vida e três que nos ajudam a partir para a casa do Pai”, observou.

A Jornada de Pastoral Litúrgica para a Região Pastoral do Centro realizou-se no dia 10 de janeiro no Centro Paroquial de Loulé; para a Região Pastoral do Barlavento no dia 07 de fevereiro no Centro Pastoral de Ferragudo; e para a Região Pastoral do Sotavento no dia 14 de fevereiro no salão paroquial de São Luís, em Faro.

Diocese do Algarve realizou Jornada de Pastoral Litúrgica sobre os “sacramentos da cura”