Diácono Albino Martins alerta que as consequências das guerras ameaçam, cada vez mais, aquelas instituições
Responsável pelos Centros Paroquiais de Cachopo, Martim Longo e Vaqueiros, que assistem 177 utentes da desertificada serra do nordeste algarvio nas suas diversas valências, o diácono Albino Martins lança a pergunta “Quem socorre as IPSS?”, garantindo que aquelas instituições “resistem, já não apenas com dedicação, mas com uma urgência quase desesperada”.
Num testemunho publicado nas redes sociais, aquele responsável garante que “os sucessivos aumentos do preço dos combustíveis, do gás e dos géneros alimentares — impulsionados por conflitos internacionais como a guerra no Irão e outras crises globais — não são meras estatísticas”, mas “golpes concretos no funcionamento diário destas instituições”.
“Cada quilómetro percorrido por uma carrinha de apoio domiciliário pesa mais na conta final. Cada refeição servida custa mais do que ontem. Cada sala aquecida no inverno torna-se um dilema entre o conforto dos utentes e a sobrevivência financeira da instituição”, garante, acrescentando ser “no interior que esta realidade assume contornos ainda mais dramáticos”. “Aqui, onde a densidade populacional é menor e os recursos económicos são mais limitados, as IPSS são muitas vezes a única resposta social existente. Não há alternativas. Não há rede paralela. Quando uma IPSS vacila, toda uma comunidade fica em risco”, alerta.
Os Centros Paroquiais de Cachopo, Martim Longo e Vaqueiros percorrem por semana um total de cerca de 7.600 quilómetros para assistir a população envelhecida do nordeste algarvio.
Aquele dirigente reconhece também que as famílias não conseguem suportar mais encargos porque “enfrentam uma pressão crescente”. “Salários baixos, envelhecimento populacional, isolamento geográfico e custos de vida em alta criam um cenário de desigualdade evidente face ao litoral. A tão proclamada igualdade de oportunidades esbate-se perante a realidade: nascer e viver no interior continua a significar ter menos acesso, menos apoio, menos margem para resistir”, lamenta.
O diácono Albino Martins garante que “a resposta estrutural continua aquém do necessário”. “Os apoios públicos não acompanham a escalada dos custos, os acordos de cooperação mantêm-se desajustados e as medidas extraordinárias revelam-se insuficientes perante uma crise que deixou de ser conjuntural para se tornar permanente”, afirma.
Aquele responsável considera assim que, “se o Estado tarda em agir com a dimensão exigida, é tempo da sociedade, no seu todo, assumir responsabilidades”. “E aqui, o papel das empresas torna-se incontornável. A responsabilidade social empresarial não pode ser apenas um conceito presente em relatórios ou campanhas pontuais. Tem de se traduzir em compromisso real, em investimento direto nas comunidades, em parcerias duradouras com as IPSS que estão no terreno”, defende.
“Empresas que operam em territórios do interior têm aqui uma oportunidade — e uma obrigação moral — de retribuir, de fortalecer o tecido social que também sustenta a sua atividade”, acrescenta, admitindo, em declarações ao Folha do Domingo, que esse compromisso por parte do tecido empresarial possa ser feito através de apoio financeiro direto ou mesmo da cedência de serviços e de voluntariado qualificado.
O diácono Albino Martins reconhece, contudo, que essa “obrigação moral” não recai tanto sobre as empresas locais. “É que nas nossas áreas de intervenção as empresas são muito poucas e também elas frágeis”, assegura, acrescentando que “o mundo empresarial do litoral também deve olhar para o interior”. “Apoiar estas instituições é mais do que um gesto solidário — é um investimento na coesão social, na dignidade humana e na sustentabilidade do próprio país”, reforça.
“Sem este envolvimento, o risco é profundo e inquietante: o colapso silencioso de respostas sociais essenciais, o agravamento das desigualdades territoriais e o abandono de populações já fragilizadas”, alerta, considerando que “o interior não pode continuar a ser um eco distante nas decisões nacionais”. “As IPSS não podem continuar a resistir sozinhas. E a solidariedade não pode ser apenas uma palavra — tem de ser ação, compromisso e responsabilidade partilhada. Porque quando quem cuida deixa de conseguir cuidar, é toda a sociedade que falha”, conclui.










