“É porque se criou riqueza que temos a obrigação e o gosto de distribuí-la por quem a produziu”. A frase foi dita pelo casal Maribel e Miguel Sequeira, proprietários do grupo Júpiter Hotéis, na tertúlia sobre a temática “Deus no Trabalho”, promovida pelo grupo de jovens das paróquias de Lagos, que teve lugar na passada quinta-feira no salão paroquial da Luz de Lagos.

“Está sempre presente esta preocupação de criarmos riqueza e de a distribuirmos com justiça. Queremos ser um grupo sustentável e não queremos pôr essa sustentabilidade em causa, mas queremos muito compensar o mérito e o desempenho. Quanto mais elevados forem os prémios de produtividade e desempenho, maior é a nossa alegria porque só temos motivos por estar felizes por isso acontecer”, complementou Miguel Sequeira, acrescentando que “todos os anos” têm “conseguido mais” esse propósito. “Isso enche-nos de alegria, mas com muitas dúvidas e a pensar: «Mas esta distribuição é justa?»”, confessou.
O casal de empresários contou que em 2014, depois de uma cisão, o grupo empresarial com décadas ficou reduzido a uma unidade hoteleira, tendo vindo a encetar uma dinâmica de crescimento desde então. “Vamos inaugurar o quinto hotel e temos o sexto em construção e o sétimo em preparação. Na altura tínhamos perto de 100 colaboradores no grupo e hoje são 500 e com os sazonais chegam a 700”, concretizou Miguel Sequeira.
O casal disse haver “uma ligação muito direta” entre o “renascer” do seu projeto empresarial, a aproximação à fé cristã, por via do Movimento dos Cursos de Cristandade, e a integração em Faro num grupo ‘Cristo na Empresa’, da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores. “Foi-nos dada oportunidade de podermos começar de raiz um trabalho profissional e foi a partir daí, com base também nos valores que estávamos a começar a incutir em nós próprios, que fizemos os valores da nossa própria empresa, à luz sempre da fé cristã”, explicou Maribel Sequeira.
“Sabemos bem que os alicerces estão postos em Cristo e no pensamento social da Igreja”, completou o marido, acrescentando: “pela fé acreditamos que, por detrás de muito trabalho, muitas equipas, muitas pessoas, muitos parceiros, o Senhor está presente porque acreditamos também que fazemos algo que vai ao encontro do gosto d’Ele. E fazemo-lo por muitos motivos, mas o principal são as pessoas”.

Maribel Sequeira constatou que as “decisões difíceis fazem parte da vida”, mas considerou que “ter Deus” incluindo na equação determina a diferença. “Queremos seguir aquilo que Ele nos diz e, sobretudo, ter esta noção que qualquer decisão que tenha de ser tomada tem de ser muito bem planeada e pensada. Não é só em termos do que é que a empresa vai ganhar, do que é mais importante para a empresa, é também pensar dos dois lados e ter esta noção de que também estamos lá para as pessoas”, explicou.
“Quando tenho essas decisões a tomar peço sempre a ajuda de Deus e pergunto-lhe: «Senhor, o que é que farias se estivesses no meu lugar ou o que esperas que eu faça perante esta situação?”, prosseguiu.
Neste âmbito, quando desafiada a responder à pergunta “que conselho daria a alguém que quer começar a viver a sua fé no trabalho?”, Maribel Sequeira, que se considerou “uma aprendiza de cristã”, aconselhou a “começar primeiro com coerência nas pequenas coisas”. “Ser justo e verdadeiro, ter coerência em todas as decisões que se tomam, desde a mais pequena até à maior. E também procurar caminhar com alguém que tem as mesmas intenções que nós porque caminhar sozinho é sempre muito mais difícil e podemos sempre esmorecer”, propôs, acrescentando a importância de “momentos de oração” e de formação. “Alicerçarmo-nos sempre no Senhor. Devemos estar atentos e escutá-lo para podermos seguir o plano que Ele tem para nós”, resumiu.
Aquela empresária garantiu ainda que o seu grupo hoteleiro tem “vários valores e o maior de todos é o respeito de uns pelos outros”. “É fundamental na nossa empresa e para nós o respeito é tratar o outro como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no seu lugar”, sustentou. Confrontada com o facto de o grupo hoteleiro incluir entre os seus trabalhadores “pessoas com necessidades especiais”, Maribel Sequeira garantiu que qualquer pessoa com essas caraterísticas “dá muito mais do que à partida se pensaria que ela pudesse”.

Sobre as opções difíceis a tomar em relação aos trabalhadores, embora considere que “tolerar e pactuar com o erro é mau para todos e para quem o comete”, Miguel Sequeira lembrou que “só não erra quem não tenta”, que “uma cultura que proíbe o erro, proíbe a criatividade” e que o erro “faz parte do crescimento”. Neste sentido, disse ser fundamental “distinguir o erro do errante”. “Em relação ao erro, sentimos a obrigação de o identificar e de o corrigir para bem do errante e da organização a que pertence. Em relação ao errante, tentar lidar com ele como gostaríamos que lidassem connosco se fossemos nós que estivéssemos no lugar dele”, desenvolveu.
Como exemplo acrescido de que a “generosidade no trabalho é também uma cultura” na cadeia de hotéis, Maribel Sequeira contou existirem “vários apoios para os trabalhadores” e como exemplo apontou o “Fundo Social de Emergência” ativado “quando um trabalhador necessita para algo que lhe aconteceu de extraordinário com o qual não estava a contar”. “O hotel adianta o dinheiro a custo zero, faz-se um plano de pagamentos, sem juros, e vai-se retirando uma pequena parcela, aquilo que ele poderá dar por mês até ressarcir a dívida”, explicou. A este exemplo acrescentou o do “apoio à formação para quem quer estudar” com pagamentos por parte da empresa.
Os empresários contaram que o seu caminho tem sido “muito feito com o apoio da ACEGE”. “A ACEGE está sempre a desafiar-nos e nós precisamos desse desafio”, referiu Miguel Sequeira, explicando que um desses reptos foi a certificação de “Empresa Familiarmente Responsável”, tendo sido aquele grupo hoteleiro o primeiro a adquirir essa certificação em Portugal.
Integraram ainda a tertúlia João Pedro Tavares, o presidente da Associação Mundial de Empresários Cristãos (UNIAPAC) Europa, e Paulo Dehnhardt, fundador da PnP Hire Talent Solutions, que trabalha com empresas de inovação e tecnologia no recrutamento de talento estratégico.








