Assembleia Geral das Conferências de São Vicente de Paulo na Diocese do Algarve reuniu representantes de cinco localidades, em Tavira, e assinalou os 167 anos da presença da Sociedade em Portugal.

As Conferências de São Vicente de Paulo na Diocese do Algarve foram desafiadas a reforçar o compromisso com os mais vulneráveis, indo além da assistência imediata e procurando contribuir para a transformação das situações que geram pobreza e exclusão social. O desafio foi lançado no último domingo, 25 de outubro, durante a Assembleia Geral das Conferências Vicentinas da Diocese, realizada no Centro Pastoral de Santa Luzia, em Tavira.

O encontro contou com representantes das conferências de Tavira, Olhão, Almancil, Ferreiras e Albufeira, bem como com a presença da presidente da direção nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, Fernanda Capitão, e de outros membros daquele órgão.
A iniciativa decorreu no contexto da celebração dos 167 anos da presença da Sociedade de São Vicente de Paulo em Portugal, uma história de serviço aos mais pobres através da visita domiciliária, da partilha de bens e do acompanhamento de pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade.


Antes da assembleia, os participantes reuniram-se na igreja de Santiago, em Tavira, para a celebração da Eucaristia, presidida pelo bispo do Algarve, D. Vitorino Soares, e concelebrada pelo padre José Alves, assistente espiritual do Conselho Nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, da Congregação da Missão.

Na homilia, o bispo do Algarve recordou a ligação inseparável entre o amor a Deus e o amor ao próximo, evocando o ensinamento de São Vicente de Paulo. No final da celebração, Lisete de Oliveira, da direção nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, assinalou os 167 anos de missão vicentina em Portugal, sublinhando a importância de manter os mais vulneráveis no centro da ação.
Três atitudes para a missão vicentina
Na sua intervenção, D. Vitorino Soares apresentou três imagens para caracterizar a identidade das conferências vicentinas: «corações discretos, olhos fechados e braços abertos».

Os “corações discretos” representam o trabalho silencioso e organizado de quem serve sem procurar protagonismo ou reconhecimento público. O bispo considerou que a caridade da Igreja necessita de organização, orientação e sentido de pertença eclesial, salientando que o serviço vicentino deve preservar a discrição e a confidencialidade de quem é acompanhado.

Os “olhos fechados” simbolizam a ausência de preferências ou discriminações na ajuda prestada. Segundo o bispo do Algarve, as conferências devem servir todas as pessoas, independentemente da sua origem, cor, religião ou ligação à Igreja, sem estabelecer categorias entre aqueles que precisam de apoio.

Por fim, os “braços abertos” representam a disponibilidade para agir e ir ao encontro de quem sofre. D. Vitorino Soares chamou a atenção para a solidão, que pode existir mesmo no seio das famílias, e para a necessidade de ultrapassar o receio de entrar na privacidade das pessoas quando a visita e a proximidade são necessárias.

Perante as dúvidas e dificuldades que possam surgir na ação quotidiana, o bispo propôs que os vicentinos se interroguem sobre a forma como Jesus agiria em cada situação.
Redescobrir, aprofundar, encontrar e transformar
Também Fernanda Capitão destacou a necessidade de renovar a missão vicentina perante os desafios sociais contemporâneos. A presidente da direção nacional identificou quatro atitudes essenciais: redescobrir, aprofundar, encontrar e transformar.
Redescobrir significa regressar à raiz da missão e reconhecer a igual dignidade de todos os seres humanos. A responsável alertou para as dificuldades económicas que atingem famílias, jovens e idosos, relacionando os pedidos de ajuda que chegam às conferências com o agravamento do custo da habitação e a insuficiência dos rendimentos familiares.

Segundo os dados que apresentou, referindo-se a uma década, os preços da habitação aumentaram 160%, enquanto o rendimento disponível das famílias cresceu 35%. Estes números, afirmou, traduzem-se em situações concretas de vulnerabilidade, desde famílias que têm dificuldade em pagar a renda até idosos obrigados a escolher entre comprar alimentos e pagar a eletricidade.
Aprofundar implica fortalecer a fé e a vida espiritual para servir melhor. Fernanda Capitão salientou que a caridade cristã não pode limitar-se a aliviar as consequências da pobreza, devendo também procurar compreender as suas causas e colaborar com as paróquias, os párocos, as instituições e todos os que trabalham pelo bem comum.

Encontrar significa reconhecer Cristo no rosto dos pobres, através da proximidade, da escuta e da empatia. A responsável chamou a atenção para a solidão dos idosos, o isolamento das pessoas com deficiência, as dificuldades dos jovens e a chamada pobreza envergonhada, recordando que nem todas as necessidades se resolvem com a entrega de bens materiais.
Neste contexto, defendeu uma atitude de acolhimento perante todas as pessoas e alertou para os discursos que responsabilizam os mais pobres, os migrantes e os diferentes pelos problemas da sociedade. “O ódio contraria-se pelo amor”, afirmou, apelando à proximidade como resposta ao desprezo e à exclusão.
Por último, transformar significa trabalhar por um futuro mais humano e solidário, reconhecendo a ligação entre problemas como a falta de habitação, a precariedade, as dificuldades de acesso à educação e à saúde, a solidão e a exclusão social.
Para Fernanda Capitão, os 167 anos de presença da Sociedade de São Vicente de Paulo em Portugal constituem não apenas uma memória a celebrar, mas um apelo a renovar o compromisso com a dignidade humana e a fraternidade.
As conferências vicentinas no Algarve
A assembleia incluiu momentos de oração e a apresentação das conferências vicentinas presentes. Na Diocese do Algarve existem conferências em Tavira, Olhão, Almancil, Ferreiras, Albufeira e Ferragudo.
A iniciativa procurou reforçar a reflexão sobre a identidade e a missão vicentina, num tempo em que o acompanhamento das pessoas em situação de fragilidade exige proximidade, organização e respostas capazes de promover a dignidade humana.
Livro que propõe redescobrir S. Vicente de Paulo como interventor social apresentado em Tavira







