O bispo do Algarve, D. Vitorino Soares, presidiu hoje, 02 de novembro, à Eucaristia da comemoração dos Fiéis Defuntos, celebrada na igreja nova de São Luís, em Faro, seguindo-se uma procissão até ao cemitério da Esperança, onde decorreu um momento de oração pelos falecidos.


Na homilia, o bispo diocesano propôs três palavras para ajudar a viver o sentido cristão desta celebração: “comemoração”, “pertença” e “acreditar”. Partindo da memória daqueles que já partiram, D. Vitorino Soares convidou os fiéis a renovarem a consciência de que os defuntos continuam a pertencer ao amor de Deus e a aprofundarem a sua própria fé, numa atitude de esperança e confiança.


A celebração reuniu a comunidade cristã de São Luís e contou com a concelebração dos cónegos Rui Barros Guerreiro, pároco daquela comunidade, Carlos César Chantre, dos padres António da Rocha e Cireneu Alexandre e com o serviço do diácono Rogério Egídio.


Na introdução à Eucaristia, o bispo do Algarve enquadrou a comemoração dos Fiéis Defuntos no contexto da família maior a que todos pertencem, recordando as três dimensões da comunhão dos santos: aqueles que já alcançaram a vitória e são recordados na solenidade de Todos os Santos, os que partiram e ainda aguardam a plenitude do amor de Deus e os que continuam a caminhar na terra, na expetativa de um dia contemplarem Deus, “que é luz e que é eternidade para todos”.
Uma memória que mantém viva a relação com quem partiu
Desenvolvendo a primeira das três palavras – “comemoração” – D. Vitorino Soares explicou que recordar os defuntos não significa simplesmente olhar para o passado ou alimentar a nostalgia, mas manter viva a relação com aqueles que fizeram parte da vida de cada pessoa.


“A memória é o lembrar percursos”, afirmou, evocando aqueles que foram conhecidos pelo nome, pelo olhar e pela forma de agir, bem como aqueles que deram carinho, amaram e perdoaram. Reconheceu que esta memória traz frequentemente saudade, sublinhando que os cristãos não devem ter receio de a sentir, porque recordar aqueles que amaram faz parte da sua humanidade.


O bispo do Algarve salientou, contudo, que esta comemoração não se esgota na recordação afetiva. “Este fazer memória não é propriamente no sentido da nostalgia. Este fazer memória é trazer a vida deles também para nós e levarmos a nossa vida para eles”, explicou, defendendo uma memória “fresca” e “viva”, que não fique adormecida, mas continue presente na oração pessoal e comunitária.
A segunda palavra proposta foi “pertença”, relacionada com a certeza de que aqueles que morreram continuam a fazer parte do amor de Deus. Partindo da misericórdia divina, evocada no salmo responsorial, D. Vitorino Soares recordou que Deus é “clemente e cheio de compaixão” e que não esquece nenhum dos seus filhos.


“Esse sentido de pertença é a consciência de que não estamos perdidos e que eles também não estão perdidos”, afirmou, acrescentando que os defuntos continuam a pertencer a Deus, mesmo aqueles que ainda não alcançaram a plenitude da comunhão com Ele.
Esta convicção, explicou, deve alimentar a esperança dos cristãos, uma vez que “não estão perdidos” e continuam a ser envolvidos pelo amor de Deus. A oração pelos defuntos assume, assim, um significado particular, enquanto expressão da confiança na misericórdia divina e da certeza de que ninguém é esquecido por Deus.
A morte como oportunidade para renovar a fé
A terceira palavra apresentada na homilia foi “acreditar”, a partir da passagem do Evangelho de hoje que apresenta Marta, Maria e Lázaro. D. Vitorino Soares destacou a atitude de Marta perante a morte do irmão, recordando a sua interpelação a Jesus: “Se tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido”.
Para o bispo diocesano, esta reação mostra uma fé que, embora existente, também se interroga e necessita de ser renovada. “A nossa fé não é propriamente um tesouro adquirido”, afirmou, explicando que se trata de uma relação pessoal com Deus, que exige um caminho contínuo de purificação e aprofundamento.


A propósito, considerou que a morte de Lázaro constituiu também uma oportunidade para Marta recuperar e fazer crescer a sua fé, estabelecendo uma ligação com a celebração dos Fiéis Defuntos. “Este momento dos fiéis defuntos pode ser uma oportunidade também para nós pedirmos o dom da fé e podermos também crescer na fé”, afirmou.
D. Vitorino Soares apresentou a fé como uma entrega nas mãos de Deus, mesmo quando não se conhecem as respostas para as circunstâncias da vida. “É uma entrega n’Aquele que não nos deixa mal”, disse, acrescentando que confiar em Deus significa reconhecer que Ele está para além dos desejos e projetos humanos e conhece aquilo que é melhor para cada pessoa.


No final da reflexão, o bispo do Algarve retomou as três palavras — “comemoração, pertença e fé, acreditar” —, pedindo que a Eucaristia fosse vivida como uma oração por todos os fiéis defuntos, sem esquecer a saudade e os laços humanos que permanecem.
“Sabemos que estão em Deus, estão na pertença a Deus. Podem não estar na totalidade, mas não estão perdidos”, afirmou, considerando que esta certeza deve conduzir à esperança e à renovação da confiança em Jesus. “Quem confia n’Ele está sempre seguro”, concluiu.
Procissão e oração no cemitério da Esperança
No final da Eucaristia, teve lugar a procissão até ao cemitério da Esperança, conforme o programa anunciado pela Diocese do Algarve. O percurso, que ligou a igreja nova de São Luís ao cemitério, foi acompanhado pela recitação do rosário e por cânticos, finalizada com a recitação do Credo.


Já no cemitério, D. Vitorino Soares realizou a bênção, seguindo-se a visita dos participantes às campas dos seus familiares falecidos. O bispo diocesano visitou o talhão do clero diocesano, onde fez uma oração pelos sacerdotes ali sepultados.
A iniciativa constituiu um momento comunitário de oração e de homenagem aos que partiram, reunindo a memória dos familiares e amigos falecidos com a oração por todos os defuntos, num gesto de fé e de esperança na misericórdia de Deus.
Uma celebração com origem no primeiro milénio
A comemoração dos Fiéis Defuntos, celebrada anualmente a 02 de novembro, é um momento de oração e memória por todos os que morreram, confiando-os à misericórdia de Deus.


A origem desta celebração remonta ao ano 998, quando Santo Odilão, abade de Cluny, determinou que todos os mosteiros da sua Ordem evocassem, naquela data, todos os defuntos, “desde o princípio até ao fim do mundo”.


O costume difundiu-se progressivamente, tendo sido oficializado em Roma no século XIV. No século XV, foi concedido aos dominicanos de Valência, em Espanha, o privilégio de celebrar três Missas neste dia, prática que se estendeu aos territórios espanhóis e portugueses e à Polónia.
Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, o Papa Bento XV generalizou a toda a Igreja a possibilidade de celebrar três Missas no Dia dos Fiéis Defuntos.






