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No Algarve há uma ermida implantada no alto de uma falésia, detida diante do imponente oceano que se abre à sua frente, que passou a propor, a quem a visita ou nela celebra a fé, um mergulho. Um mergulho no mistério de Deus, através da arte contemporânea.

Tal como aconteceu ao longo de séculos, a fé uniu-se à beleza da expressão artística para se dizer no domínio do transcendente e da espiritualidade. Ao contemplar a beleza da Criação e estimulado por aquilo que vê ao seu redor, quem chega à porta da pequena igreja é convidado a percorrer um itinerário espiritual do exterior para o interior. Do templo, mas também do seu próprio íntimo.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Tudo deve falar e levar ao mistério”, confirma ao Folha do Domingo a artista plástica escolhida para a levar a cabo a obra da ermida de Nossa Senhora da Encarnação, no Carvoeiro, especificando que o objetivo é que cada pessoa possa “fazer este percurso com a alma”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Lígia Rodrigues, natural do Porto mas radicada no Algarve desde 1999, acrescenta que a dimensão conceptual do projeto, que levou a cabo por fases ao longo dos últimos 11 anos, “é muito profunda”. “Ainda estou a fazer a memória descritiva que é quase uma tese”, compara.

Aspeto antes da intervenção
Aspeto antes da intervenção

Para retornar à origem da obra é preciso recuar ao ano de 2009, em que a artista foi convidada pelo então pároco de Lagoa para conceber um retábulo que requalificasse o presbitério e permitisse simultaneamente travar o avanço do salitre na ermida fustigada pelos rigores marítimos da localização estratégica que lhe ofereceram.

O padre José Nunes, que foi pároco de Lagoa entre 1991 e 2019, confirma a corrosão provocada pela humidade vinda do mar, explicando que “as telhas desfazem-se todas” e que durante o período em que esteve à frente da paróquia viu-se forçado a mudar o telhado daquela igreja por duas vezes.

Aspeto antes da intervenção

Ao Folha do Domingo, o sacerdote comprova assim a intenção que o levou a pensar conciliar a necessidade de conferir maior resistência às paredes da ermida com a de contribuir, através da arte, para tornar ainda mais aquele um lugar de contemplação do sagrado. “Se não dermos beleza a um lugar de oração, não conseguimos rezar”, refere o padre José Nunes, acrescentando que a intervenção resultou numa “catequese” onde está “toda a história da Salvação”. “Os estrangeiros, mais sensíveis a isto, entravam lá e não havia domingo nenhum que não aparecessem 4, 5 ou 6 a perguntar se podiam fotografar. E no ano seguinte apareciam outros, informados daquela capela, que vinham aconselhados para a visitar”, testemunha, concluindo que “foi o que foi possível fazer num sítio que não parecia nada um lugar de culto”.

A necessidade de uma solução técnica que se aliasse à arte foi a chave que pôs em andamento o processo de transformação de um espaço de culto artisticamente descaraterizado pelas obras realizadas desde o final da primeira metade do século XX até 1965 que ampliaram a pequena e antiga capela ali existente.

O historiador João Vasco Reis lembra que a capela terá sido erguida depois da destruição pelo terramoto de 1755 da ermida primitiva que se situava no centro da praça de armas da fortaleza, cuja lápide de edificação tem a data de 1670. “Salvou-se a imagem de Nossa Senhora da Encarnação que ficou instalada no quartel do almoxarifado, que passou a funcionar como capela, até hoje”, explica o investigador ao Folha do Domingo.

Desse património, restou apenas o arco talhado em pedra no presbitério e a tal escultura em madeira de Nossa Senhora da Encarnação, com provável origem no século XVII. Aquela imagem de Maria é metaforicamente recolocada no papel de mediadora que leva ao seu Filho Jesus quem ali chega. “Manter a ligação histórica era uma coisa importante também para mim. Então quis dar-lhe um lugar de protagonismo, um lugar central, também pela posição de Maria na Igreja, que está connosco e que nos leva a Cristo. Não está à frente para que nós a adoremos a ela, mas está connosco para levar-nos a Cristo”, esclarece Lígia Rodrigues, justificando o destaque dado à imagem.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Mas a materialização da metáfora em que ganha forma o papel mediador da Mãe de Jesus começa a cumprir-se ainda no exterior da ermida, na sua porta de entrada, onde foram concebidos painéis repletos de movimento cromático e figurativo com os 20 mistérios do Rosário onde está representada “toda a vida de Cristo e toda a vida de Maria”. “Encontramo-nos com Maria e somos convidados a rezar, a pôr a alma em situação de oração. É ela que nos faz então entrar na Igreja, faz-nos entrar no mistério, leva-nos a Cristo”, reforça a autora.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Transposta a entrada, ergue-se à direita um conjunto de sete outros painéis, também em coloridos relevos, que representam o relato da Criação. Os quadros verticais, que elevam o olhar e o pensamento do observador, são interrompidos apenas pelo rasgo retangular das janelas ligeiramente ampliadas para que a luz possa invadir o espaço sagrado. Os vitrais concebidos para complementar a narração bíblica permitem que o objetivo se concretize.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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“O painel do dia do descanso de Deus é feito com linhas horizontais e as cores do sagrado: o ouro e o branco”, explica a artista, acrescentando que estas tonalidades “remetem ao manto” da imagem da Senhora da Encarnação. “Ao sétimo dia Deus descansou, mas ao descansar pensou na nova criação que é Maria”, prossegue Lígia Rodrigues, referindo-se à imagem exposta no culminar de um arco com a inscrição que resume o magnificat. A oração «O Senhor fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome», proferida pela própria Virgem, explica a autora, aparece “de uma forma extremamente delicada que quase não se vê mas se intui para que não seja um grito mas tenha o perfil de Maria”, “alma silenciosa mas presente”, que “guardava todas as coisas no seu coração”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Conduzido por Maria, o visitante é orientado à “revelação”, representada na zona do presbitério, a primeira a ter sido trabalhada pela artista. No retábulo de mármore branco sulcado, composto por retângulos de relevo desencontrado com “uma conexão com a porta de entrada”, a autora quis aludir a “um coração que bate”, representando “a presença de Deus ao longo de toda a história”, desde o Antigo ao Novo Testamento, e que, lembra, “continua hoje”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O primeiro período bíblico é talhado à direita na alusão a Moisés que sobe ao monte com as tábuas da lei, seguido pelo povo, e à simbólica da «árvore da vida» que representa também a sarça ardente. O segundo conjunto da Sagrada Escritura revela-se após a passagem pelo secular arco de pedra “como uma chama que descai” sobre o sacrário dourado, concretizado como sol sob a simbologia do fogo, que procura significar “a presença da Trindade”. “O sol como o Pai, o Filho na presença viva dentro do sacrário e o Espírito Santo que está entre os dois”, descodifica Lígia Rodrigues. Debaixo do sacrário, a pedra é rasgada com sulcos de espigas e uvas que aludem à transformação das espécies eucarísticas.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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O espaço central do retábulo projeta o acontecimento maior da fé cristã. Do secular arco de pedra sepulcral irrompe, repleto de luz, o Ressuscitado. “Há um momento em que tudo me veio como um flash. Percebi que Cristo tinha de estar mesmo ao centro. À frente, não o morto, mas o Ressuscitado, Ele que é a luz do mundo. Tinha de ser uma peça que emitisse luz. Para concretizar isto «vi-me grega» porque não sabia mesmo como fazer”, conta, explicando que, “para que nasça um projeto, leva muito tempo”. “Tenho de ter aquela união com Deus em que seja Ele a inspirar-me. Para isso, é preciso muita oração e meditação, muito esvaziamento e muito entrar no mistério para que seja Ele a falar”, sustenta a artista que em 2017 foi também escolhida pelos responsáveis do Santuário de Fátima para conceber a peça oferecida ao Papa Francisco na sua peregrinação por ocasião do centenário das aparições.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Cristo – que na simbólica litúrgica é representando igualmente pelo altar – assume essa presença também no bloco de pedra igualmente branca que lhe dá corpo e que a artista quis que servisse de ponte entre passado e futuro. “É quando a Eucaristia se faz vida no momento presente”, realça Lígia Rodrigues, descrevendo aquela mesa de linhas retas e forma geométrica. “Do lado esquerdo, as figuras estão à volta de um pedaço de mesa em perspetiva cavaleira, estática, que representa a Ceia do passado, do tempo de Jesus. Do lado direito, temos uma perspetiva isométrica, portanto, mais dinâmica, que tem as linhas diagonais que dão continuidade. Significa o futuro, a ceia que se celebrará sempre. E o presente é o altar em si mesmo, com um rasgo central para acentuar aquilo que no momento presente em cada celebração acontece e que é a Ceia agora connosco”, decifra.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Nessa simbólica linguagem da presença de Jesus há outro elemento litúrgico que tem papel de destaque. “O ambão é Cristo que é a Palavra”, lembra a artista, explicando a peça de onde são feitas as leituras da celebração, esculpida na mesma pedra com a figura de Jesus que avança com os evangelistas por detrás. Na mesma linguagem retilínea e geométrica, interrompida apenas pela curvatura do assento, surge a cadeira da presidência.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Ainda no espaço central junto ao altar, o itinerário narrativo da fé prossegue pela esquerda com a escultura em madeira e ferro do Crucificado, que a autora lembra aludir ao “mistério mais alto do amor”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Voltando a passar o arco mariano, mas em sentido inverso, surge um conjunto de sete outros painéis que se contrapõe no espaço ao do relato da Criação, encerrando o ciclo bíblico. É a narrativa joanina do livro do Apocalipse materializada também em coloridos relevos figurativos. Lígia Rodrigues diz ter-se inspirado no trecho que refere “uma grande multidão” com “túnicas brancas porque as lavaram no sangue do Cordeiro”. Cada um dos quadros “teria muita explicação”, mas um traço comum a todos é a representação da multidão sempre na parte superior. “Nas figuras centrais, quis representar alguns momentos da vida da sociedade de hoje. Como é que continuamos a transformar a dor em amor, como é que «lavamos no sangue do Cordeiro e ficamos com as túnicas brancas», por exemplo, na relação de casal, na educação entre gerações, na solidão? Como é que, assumindo os vários momentos da nossa vida, os transformamos com amor para que eles possam continuar a ser luz e a fazer renascer este «branco das túnicas» que é a ressurreição da sociedade?”, interpela a artista.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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A transversalidade da intervenção artística de Lígia Rodrigues tocou também, ao nível do mobiliário, os bancos da igreja. A simplicidade das linhas retas confere-lhes a elegância aliada à comodidade necessária para cumprirem a tarefa a que se destinam. “Escolhemos não fazer genuflexórios, a não ser nos primeiros da frente que agora até se tiraram por causa da covid-19, exatamente porque há muita gente fora da igreja”, explica a autora.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Nesta transformação integral do espaço de culto, a única alteração arquitetónica exterior foi o rasgo que ampliou ligeiramente cada uma das janelas laterais. Já no interior, a modificação da estrutura é mais visível. O espaço da assembleia, composto por dois planos, foi agora nivelado. Só o presbitério fica dois degraus acima “porque o terreno pedia um outro nível”. Para além da iluminação que também foi alterada, as paredes e o teto foram reformulados.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Concluída em outubro passado, a obra ainda não foi formalmente inaugurada por causa da pandemia da covid-19. Lígia Rodrigues gostaria que o projeto pudesse contribuir ainda mais para a abertura da comunidade católica do Carvoeiro à sociedade, concretamente, às novas gerações. Nesse sentido, chegou a pensar no envolvimento das escolas de Faro e de Lagoa, mas o surgimento da pandemia não permitiu concretizar a ideia. Alunos das escolas secundárias João de Deus e Tomás Cabreira foram mesmo convidados a visitar o seu ateliê quando estava a produzir os painéis. Dessa aula fora dos muros da escola resultou o projeto letivo do ano das turmas de artes, incluindo as de dança e teatro, sob o tema “Passos de Luz entre Terra e Céu”. Os estudantes conceberam a conceção de um espetáculo de abertura para assinalar o dia da inauguração que não chegou a ocorrer e que faria alusão a uma passagem “das trevas à luz”.

Não obstante lamentar que a pandemia tenha vindo “alterar tudo” o que estava previsto fazer, o atual pároco de Lagoa admite ser possível poder vir ainda a assinalar a intervenção com a celebração de uma eucaristia e algo mais. “Acho que é importante fazer algo diferente que não seja só a eucaristia, também para chamar todas as pessoas que queiram ver e perceber a igreja”, precisa em declarações ao Folha do Domingo o padre Nuno Coelho, garantindo que “as pessoas de mais idade agora já se vão adaptando ao novo espaço e interiorizando, mas o que ainda as choca é quando entram e olham para o Cristo [Ressuscitado]”.

O sacerdote testemunha que as celebrações naquela igreja, partilhada há muitos anos, por cortesia da Diocese do Algarve, com a Igreja Luterana alemã, “têm sempre mais pessoas do que lugares”, mesmo no inverno.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A ermida, que desde tempos remotos sempre cumpriu o seu papel de referência para a navegação, continuará com renovado empenho a cumprir essa missão e a convidar quem por ali passe, por terra ou por mar, a um caminho de encontro com Deus.

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