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Pelo testemunho do pároco de Albufeira chega-nos o relato da dureza dos funerais realizados pelos padres algarvios durante a atual pandemia de Covid-19.

“Quantas vezes me apeteceu, sair do altar e ir abraçar a pessoa que estava a chorar”, confessa em declarações ao Folha do Domingo o padre Flávio Martins a propósito das celebrações das exéquias feitas em ambiente de distanciamento físico, mas, sobretudo, afetivo.

O sacerdote diz que nunca mais esquecerá um dos primeiros funerais que realizou de uma pessoa que até nem faleceu vítima de Covid-19, quando, no início da pandemia, nem o padre podia fazer o acompanhamento até à sepultura. “Era relativamente novo, tinha a esposa e a filha e a capela estava vazia. Só estavam as duas comigo. E durante toda a celebração, o que me chamou a atenção foram os olhos da filha. Olhava constantemente para trás e para o lado e não via ninguém”, recorda, acrescentando que as duas “foram sozinhas até à sepultura”. “Para mim, foi muito duro. Vim dali impotente, sem poder fazer alguma coisa por aquela rapariga e pela sua mãe”, refere.

“E quando eram doentes com Covid que faleciam, ainda era pior. Os primeiros aqui em Albufeira eram feitos à porta do cemitério, com toda a gente afastada, incluindo eu. Uma coisa impessoal”, lembra o sacerdote que já realizou meia dúzia de funerais de falecidos de Covid-19, lamentando “não poder ter proximidade”. “Ver alguém chorar, ver-se sozinho e eu não me poder aproximar…”, conta, afirmando “não ter palavras” para explicar o que sentiu. Ainda assim encontra algumas. “Abismo”, “separação” e “dor” são as que lhe vêm à cabeça para explicar um período que diz ter sido “doloroso”. “Até dava ideia de que os mortos não eram já humanos com a sua própria dignidade”, refere.

O pároco explica o sentimento triplo de tristeza dos familiares mais próximos. “Choravam porque perderam o ente querido, porque não o podiam ver e porque não o podiam acompanhar dignamente”, conta, acrescentando que esta realidade fê-lo adquirir uma nova perceção da importância do momento da morte na vida das pessoas.

O padre Flávio Martins conta ainda ter-lhe sido “muito difícil adaptar” a celebração das exéquias a este inusitado contexto pandémico. “Fiz o que achava que tinha de fazer naquele momento. Acima de tudo, tentava deixar alguma palavra de conforto, esperança e ânimo às pessoas, mas para mim era difícil dizer alguma coisa porque naquele momento, estar a realizar aquele funeral assim era uma coisa que para mim era impensável. Nunca pensei estar a viver isto e não poder ajudar de outra forma”, refere.

O sacerdote conta que, no caso dos funerais com cremação, conseguiu que a celebração ganhasse mais “dignidade”. “Faço a proposta de primeiro cremarem e depois faço a celebração com as cinzas – porque o ritual o permite – e já acompanho à sepultura”, explica, garantindo que os familiares ficam mais confortados. “Aquilo que me disseram as famílias, foi que se sentiram muito melhor assim”, assegura.

O pároco de Albufeira testemunha que agora, com maior abertura relativamente às medidas sanitárias, já existe “mais humanidade”. “Agora já participam um pouco mais de pessoas na celebração e já acompanho à sepultura”, conta.

O sacerdote testemunha ainda o acompanhamento por telefone que tem feito a alguns dos paroquianos que vivem mais sozinhos e sem acesso à tecnologia. “Com outros, não tenho grande contacto. Como há possibilidade de ter as igrejas abertas para as pessoas rezarem sempre há um contacto mais próximo com aqueles que vou encontrando junto da igreja, aos quais pergunto pelos que não vejo”, conta.

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