A partida da Irmã Beatriz deixou um silêncio profundo no coração de muitos, mas esse silêncio é também cheio de memória, gratidão e vida, porque a sua presença foi um verdadeiro marco na Diocese do Algarve e, de forma muito particular, na vida da juventude algarvia!
Conheci a Irmã Beatriz quando tinha apenas 18 anos. Era outubro de 1987, no momento em que fiz o meu Convívio Fraterno. Naquele tempo eu não podia imaginar que aquele encontro iria mudar para sempre a minha vida, não apenas no caminho cristão, mas também na forma como olharia para o mundo, para os outros e para a minha própria vocação. Mas mudou. E mudou profundamente. Porque nesse caminho apareceu a Irmã Beatriz.
Entre nós nasceu uma amizade sincera e uma grande cumplicidade. A Irmã Beatriz era uma verdadeira semeadora na nossa Diocese. Trabalhava incansavelmente, quase como uma formiga, sempre discreta, sempre persistente, sempre em movimento. O seu coração ardia pela evangelização dos jovens e pela construção de uma Igreja viva, feita de rostos, histórias e encontros.
Depois do meu Convívio Fraterno, convidou-me para fazer parte da equipa.
Mais tarde, convidou-me também para integrar a Equipa da Pastoral Juvenil. Esse convite não foi apenas uma responsabilidade, foi também uma escola de vida. Ao lado da Irmã Beatriz percorri todo o Algarve, numa época em que os grupos de jovens eram ainda raros e, muitas vezes, careciam de formação e acompanhamento. Havia muito por fazer e ela sabia-o bem. Era preciso formar, era urgente formar agentes de Pastoral Juvenil.
Foi então que, com a sua visão e determinação, convidou o Padre Adérito Barbosa, da Pastoral Juvenil Nacional, para ajudar na formação de líderes juvenis. Começaram então os encontros de formação em São Lourenço do Palmeiral e no Seminário. Foram inúmeros. E foram decisivos. Os dados estavam lançados. Aquilo que começou quase como uma semente transformou-se rapidamente num movimento vivo. A adesão superou todas as expectativas. Finalmente, a Diocese começava a contar com líderes juvenis preparados para consolidar os grupos existentes e para fazer nascer muitos outros.
Foi um trabalho árduo, exigente, mas profundamente fecundo. Percorremos o Algarve de uma ponta à outra, do litoral ao interior, levando formação, entusiasmo e esperança.
A Pastoral Juvenil começava a ganhar corpo.
Neste caminho, a história da Pastoral Juvenil entrelaçava-se naturalmente com o Movimento dos Convívios Fraternos. O objetivo dos Convívios é claro, que passa por ajudar os jovens a fazer uma experiência profunda de fé e integrá-los na vida das suas paróquias. E esse objetivo foi amplamente alcançado. A adesão aos Convívios Fraternos era enorme. Com a ajuda do Padre César, os encontros estavam sempre cheios de jovens. Em algumas ocasiões, chegava mesmo a ser necessário recusar inscrições, tal era o número de participantes que desejavam viver essa experiência transformadora.
E no meio de tudo isto estava a Irmã Beatriz.
Ela era uma peça fundamental na dinâmica do Movimento. A sua voz tinha autoridade, mas era uma autoridade nascida do amor, da dedicação e da coerência.
Quando a Irmã Beatriz chamava, os jovens respondiam. Com ela enchíamos autocarros para os Encontros Nacionais em Fátima e para encontros de encerramento de Convívios noutras dioceses. A sua capacidade de mobilizar, motivar e entusiasmar era impressionante.
Na verdade, a Irmã Beatriz era, ela própria, a alma dos Convívios Fraternos. Deus confiou-lhe essa missão e ela abraçou-a com todo o coração.
Mas o seu trabalho não se limitava a um único campo. Apostou em várias frentes: na Pastoral Juvenil, no Movimento dos Convívios Fraternos, na pastoral vocacional e em muitas outras responsabilidades dentro da Diocese. Sempre com o mesmo espírito: servir a Igreja e ajudar os jovens a descobrir Jesus Cristo.
Foi também por causa dela que comecei a frequentar a Casa das Carmelitas, em Faro. Ali participei em retiros vocacionais. Foram momentos intensos de silêncio, discernimento e oração. Momentos que acabariam por conduzir à minha experiência no pré-seminário.
Os anos foram passando, mas o ritmo das atividades não diminuía, pelo contrário, crescia.
Foi também a Irmã Beatriz que iniciou as Férias Missionárias na Serra Algarvia. E lá fomos nós, cheios de entusiasmo, para lugares como Alte e Cachopo, entre outros… Foram experiências profundamente enriquecedoras. Não se tratava apenas de fazer atividades, mas sim tratava-se de viver o Evangelho no meio das pessoas, de escutar, de partilhar, de aprender com as comunidades mais simples.
Em agosto de 1989, confiou-me ainda outra missão que jamais esquecerei, pois enviou-me para Santiago de Compostela como Voluntário de Animação e Serviço na Jornada Mundial da Juventude com o Papa João Paulo II. Passei praticamente todo o mês de agosto em Compostela. Foi uma experiência inesquecível. E, mais uma vez, lá estava a aposta e a confiança da Irmã Beatriz.
Ela acreditava nos jovens. Apostava neles. Empurrava-os para mais longe, para horizontes maiores.
Era também incansável a mobilizar a juventude algarvia para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude. Sabia que esses encontros podiam marcar profundamente a vida de muitos jovens, como de facto marcaram.
Através dela tive também uma das experiências sociais mais fortes da minha vida, que foi uma semana na Casa de Saúde do Telhal, junto de doentes mentais. Aquela experiência abriu-me os olhos e o coração para uma realidade de sofrimento humano que nunca mais esqueci. E, mais uma vez, a Irmã Beatriz estava ali.
Na minha caminhada cristã e pessoal, a presença dela foi constante. Sempre a incentivar. Sempre a apontar para mais além.
Houve ainda um momento especial em que fomos conhecer outra realidade eclesial, em Huelva, na comunidade conhecida como Povo de Deus. Ali encontrámos uma comunidade que acolhia jovens e uma família que tinha feito da música uma verdadeira missão. Desse encontro nasceu também uma bonita ligação ao grupo Brotes de Olivo, que começou depois a visitar o Algarve em diversos encontros.
Quantos grupos nasceram graças ao dinamismo da Irmã Beatriz. Quantos jovens encontraram o seu lugar na Igreja graças à sua perseverança.
A Irmã Beatriz era, acima de tudo, uma mulher profundamente apaixonada por Jesus Cristo (como ela tantas vezes o afirmava). Era essa paixão que alimentava tudo o que fazia. Não trabalhava por estratégia, nem por obrigação. Trabalhava por amor. Amor a Cristo, amor à Igreja, amor aos jovens.
A sua fé não era teórica. Era vivida, encarnada, testemunhada. Quem se cruzava com ela percebia rapidamente que estava diante de alguém que tinha encontrado o sentido profundo da vida ao seguir Jesus.
Em 1998 vivi um momento muito forte de discernimento pessoal. Senti que precisava de dar mais de mim à Diocese do Algarve. E foi graças a tudo aquilo que tinha vivido ao lado da Irmã Beatriz que encontrei coragem para dar esse passo. Procurei o senhor Bispo, D. Manuel Madureira Dias, e partilhei com ele esse desejo. No ano seguinte, em 1999, parti em missão para Aljezur.
Se tive a coragem de dar esse passo, devo-o em grande parte àquilo que aprendi com a Irmã Beatriz.
Ela tocou a vida de tantos jovens. Tocou-os com o seu testemunho simples, mas profundamente evangélico. Tocou-os com a sua alegria, com a sua entrega, com a sua fé inabalável. Muitos descobriram a sua vocação, muitos reencontraram a fé, muitos aprenderam a amar a Igreja graças à sua presença.
A Irmã Beatriz nunca desistia da sua juventude. Mesmo quando os tempos mudavam, mesmo quando surgiam dificuldades, ela continuava a acreditar que os jovens eram uma esperança viva para a Igreja.
Hoje choramos a sua partida, mas ao mesmo tempo damos graças a Deus pela sua vida.
O seu nome ficará para sempre gravado na memória da Diocese do Algarve.
Não apenas como alguém que trabalhou muito, mas como alguém que amou profundamente.
Ficará como a boa serva da juventude.
Como aquela que semeou sem medo.
Como aquela que acreditou quando muitos duvidavam.
Como aquela que ajudou uma geração inteira de jovens a encontrar Cristo.
E as sementes que lançou continuam vivas. Continuam a dar fruto. Continuam a transformar vidas.
Obrigado, Irmã Beatriz.
A tua missão não terminou. Continua em cada jovem que ajudou a levantar, em cada vocação que ajudou a despertar, em cada coração que aprendeu, através de si, a seguir Jesus Cristo.








