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Padre Miguel Neto

Esta semana li uma notícia daquelas de “fait-divers” que na verdade me incomodou. Dizia que a empresa McDonald’s (que tem várias cadeias de restaurantes e em todas aplicará esta medida) substituirá por completo o seu staff por quiosques self-service e até ao ano de 2020, todos os seus estabelecimentos vão ter apenas ecrãs LED. Mais: criaram mesmo um robot (chamado “Flippy”) para virar hamburgers sem presença humana.

E esta não é uma notícia isolada: quantas fábricas de automóveis, por exemplo, recorrem a robots para diminuir o seu número de trabalhadores? Olhem para as fábricas de viaturas de marcas americanas (Ford, Cadillac) que operam na China, por exemplo e que em dez anos diminuíram drasticamente o número de trabalhadores, substituindo-os por máquinas.

Até em profissões que aparentemente obrigam ao raciocínio e presença humana, as máquinas ganham terreno, como na medicina, em que cada vez mais se recorre a diagnósticos feitos através de computadores e outras tecnologias.

Incomodou-me voltar a ler sobre este tema, porque vejo este passo como mais um para pôr fim à necessidade das empresas terem funcionários ativos e produtivos, atuantes e presentes nos seus espaços. Dizem-me: «Vai ser sempre preciso que sejam pessoas a controlar as máquinas». Pois, mas a ideia destes empresários é DIMINUIREM o número de pessoas que empregam.

Porquê? A resposta está, naturalmente, no dinheiro e na vontade de ter maiores lucros. Mas volto a perguntar-me: e não haverá melhor sociedade com mais pessoas a trabalharem e a serem produtivas dentro da economia legal e aceite por todos? Não será esta uma forma de empurrar mais ainda as pessoas para as franjas das comunidades, onde para arranjar dinheiro e poder sobreviver são obrigados a fazer tudo o que não é legal, como roubar, traficar narcóticos, traficar pessoas e explorá-las???………….

Cada vez mais, desde os anos 80/90 do século XX, as empresas recorrem abundantemente a máquinas para a substituição de humanos, Já o fazem, na verdade, desde a Revolução Industrial, mas com maior significado e com verdadeiramente maior visibilidade, desde essa altura. Há investigadores, como o jornalista e professor sénior da The School of Life, David Baker, que apontam nas suas reflexões para esta realidade. Falam de visões otimistas, nas quais a maior produtividade gerada pelo uso de máquinas beneficiará a Humanidade, libertando-nos para melhor ocuparmos o nosso tempo e permitindo que a riqueza seja distribuída por todos e há, também, visões mais pessimistas, que efetivamente apontam para o descontrolo do desemprego e suas nefastas consequências. Há, igualmente, quem saliente que o aumento da introdução das máquinas vai melhorar os rendimentos de produtores e consumidores, porque baixará preços e permitirá um aumento dos níveis de consumo e haverá sempre necessidade de engenheiros, inventores, construtores de máquinas, que é o desiderato dos espíritos verdadeiramente capitalistas.

Onde estará a verdade? Não podemos somente ficar-nos pelos cenários mais ou menos futuristas da ficção científica, onde em histórias como Blade Runner (filme do realizador Ridley Scott) ou outras, como a de “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, nos dão visões mais ou menos apocalípticas do que pode ser o futuro. Nem tão pouco a minha reflexão pretende ser um lamento pessimista ao melhor estilo de qualquer “velho do Restelo”, até porque trabalho e investigo na área das novas tecnologias, que considero muito úteis e necessárias.

A minha reflexão vai, como acredito que todas as que aqui vou produzindo, no sentido de encontrar o que mais importa: valorizar os humanos enquanto seres pensantes, capazes de sentir e de criar, os seres mais complexos da Criação e aqueles nos quais o Criados depositou a confiança e a capacidade para definir o que acontece neste terceiro planeta do sistema solar.

Pergunto-me, porque creio que a pergunta nos deve incomodar a todos: e os Humanos, onde ficam?… Qual é o nosso papel e o nosso lugar neste futuro que estamos – sim, todos estamos envolvidos! – a construir? Cabe-nos pensar e agir e não somente acreditar que outros decidirão e farão o que está correto. Como, aliás, em tudo: na escolha da roupa que compramos (que pode ser feita em modos produtivos que resultem numa economia mais justa), nos produtos alimentares que consumimos (que podem ser, por exemplo, nacionais e beneficiar os nossos produtores), nas escolhas politicas que fazemos (e que determinam o rumo da sociedade em que vivemos), em tudo podemos escolher melhor e contribuir, com cada ação nossa, para que o mundo do futuro seja mais parecido com a “Utopia” de Thomas More. Ou simplesmente, para que exista um mundo onde todos seremos, como pedia o Senhor Jesus, verdadeiramente irmãos.

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