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Noutros locais europeus foram encontradas as mais belas esculturas deste tempo pré-histórico, com particular destaque para um raro “Homem-leão” em marfim, e muitas mulheres estão paralelamente representadas na figuração designada geralmente por “Vénus”. Uma original estatueta também de marfim, e doutro magnífico “Cavalo”, no sudoeste da Alemanha (Vogelherd), faz jus à particular preferência desse marcante ícone, e “Objecto” animal “fruto de uma longa tradição artística” (H. W. Janson). O painel dos “5 cavalos” de Chauvet junta-se-lhes, como capital ícone de pintura rupestre, e através da principal “galeria” de Arte rupestre europeia em França.

Naturalmente, as grutas de Chauvet, situadas num período cronológico sub-tropical e de calor intercalar à última fase glaciar da Europa, geograficamente, estão outrossim situadas numa relativa proximidade ao Mediterrânico. E numa relação espacial geológica paralela mas, também directa com África. Recorda-nos o tempo em que os dois continentes seriam fisicamente inseparáveis, e o Mar mediterrâneo constituído por “um” pequeno “lago” umbilical, e com o nível geral dos oceanos reduzido a várias centenas de metros abaixo do actual. Os “rinocerontes” mas, também o registo de muitos “leões”, “panteras” e “hienas”, são bem paradigmáticos dessa condição espacial-geográfica-climatológica. E, curiosamente, por razões estilísticas também, porque detêm os melhores efeitos artísticos, com uma técnica apuradíssima e de detalhe artístico, quase inacreditáveis para aquela época. Constituem a tal “Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo” mas, também futuro “Refúgio das saudades de todos os deuses antigos” (Álvaro de Campos).

A Arte rupestre tal como a “recentíssima” Arte etrusca (Itália, c. séc. VIII a. C.) são em alguns detalhes temáticos semelhantes, apesar de distarem temporalmente os mesmos 30.000 anos, e essa analogia expressionista faz supor que os etruscos já poderiam ter penetrado em algumas grutas do paleolítico e, desse modo, admirado os primeiros desenhos e pinturas. Da Idade do bronze e do ferro, a sua influência na arte etrusca confirma-se. A representação de muitos animais em conjunto, numa disposição cultual e venatória, é bem exemplo dessa mesma contaminação temática estilística. A religião etrusca, por sua vez, utiliza o tema da “Caça” muito particularmente nos seus túmulos, em pinturas de carácter fúnebre com muitos animais representados, no entanto, o seu politeísmo tem já um desenvolvimento sepulcral exclusivo, e com particular destaque para uma tríade de deuses.

Da imagética idolátrica grega e, nesta época muito mais recente, “Pan” e “Orpheu” são já presentes. O “Centauro” (híbrido “Homem-Cavalo”) também foi achado numa primária forma escultórica e do tempo da Etrúria. A passagem do Homem “caçador-recolector” para o de “pastor” mas, só “agora” verdadeiramente pagão, já se produzira há muito, e ao longo das variadas “Idades” milenares atravessando o período neolítico.

O tal “Mestre” (A. de Campos) e o ícone do “Bom Pastor” (Novo Testamento) renasceriam, na “nova” Era de Cristo e quase inaugurando o actual 3º milénio. Literariamente, Fernando Pessoa soube integrá-lo no seu Paganismo cristão através do poema naturalista “O Guardador de Rebanhos” (Alberto Caeiro). «Literariamente o Futuro … está no Passado» diria Fernando Pessoa ele-próprio.

Regressando à pré-história, a herança e testemunho pictórico, naturalmente exterior à referida “Escola” do sul de França e título deste ensaio, passando de vista em vista numa reprodução multiplicada de desenhos que se perderam, é feito entre muitos outros mestres de pintura e de escultura, ao longo de cerca de 30 milénios. E como se verifica pela sequência temática animalista e relativa à caça, testemunhada no extenso interior das grutas de Chauvet que, constituem o expoente máximo artístico europeu, através da mesma “Escola” de pintura primitiva. É herança de uma marcante tradição que abrange muitos milénios de “distância” temporal. E o “Cavalo”, e o “Leão” ou a “Leoa”, são especial e coincidentemente repetidos (ver imagem inferior). (continua)

Vítor Cantinho
Arquitecto e Ensaísta

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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