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Depois da concentração, às 15 horas, junto da igreja de São Francisco, os imigrantes, na sua maioria caboverdianos e angolanos residentes dos concelhos Loulé e Faro, partiram a pé em direção ao santuário mariano num percurso de cerca de um quilómetro e meio.

Chegados à igreja do santuário, os peregrinos, acolhidos pelo padre António de Freitas, pároco de Loulé, iniciaram a recitação de um terço missionário com orações e cânticos nas línguas nativas, acompanhados por imigrantes de outros países que a eles se juntaram.

Depois da recitação do rosário realizou-se a celebração da Eucaristia, animada com cânticos de Angola e Cabo Verde de ritmos contagiantes.

O padre António de Freitas, na homilia da celebração, pediu aos imigrantes africanos que não se deixem contagiar pelo ateísmo e pessimismo generalizado na Europa. “Importa perguntar qual a razão de, quando chegados ao mundo ocidental, muitos dos homens e mulheres oriundos de África perderem alegria, ânimo e fé. Será que se deixam contagiar pelo ateísmo e pessimismo tão generalizado no mundo europeu? Vós não deveis proceder assim”, apelou, citando São Paulo: “alegrai-vos sempre no Senhor”.

O sacerdote reconheceu mesmo que a “fé e alegria” são “duas grandes características” dos africanos. “Nunca as deveis trocar por nada”, alertou, considerando que o mundo precisa de “perceber na fé um lugar de alegria”. “Perante este momento histórico que vivemos, devemos ser esses homens e mulheres da esperança e da alegria”, referiu.

O padre António de Freitas desafiou ainda os participantes da Peregrinação dos Povos de África a “lançar um olhar novo numa nova perspetiva” sobre a questão missionária. “Outrora, a fé profundamente viva entre o povo português fez com que o seu anúncio chegasse até vós. Mas hoje, o mundo da missão já não se confina ao mundo africano e toda a terra é terra de missão. Por isso, convido-vos a olhar para a vossa emigração não como uma fatalidade, mas como um acontecimento necessário, por meio do qual Deus vos quer tornar missionários no mundo português e europeu”, pediu.

O sacerdote lembrou que os missionados de ontem devem ser os missionários de hoje. “Não sois mais só recetores no Evangelho levado pelo ardor missionário. Agora sois missionários enviados por Deus aos lugares onde se esmoreceu esse mesmo ardor evangélico. Senti-vos missionários, porque a isto o Senhor vos chama”, disse, apelando à confiança em Deus e à proteção de Nossa Senhora, que também “experimentou a emigração” quando se viu obrigada a fugir para o Egito com Jesus e José.

A Eucaristia, que contou com ofertório dançado de géneros alimentícios, terminou com a oração de consagração dos africanos a Nossa Senhora.

A Peregrinação dos Povos de África ao Santuário da Mãe Soberana nasceu do desejo comum do padre António de Freitas e da responsável da Pastoral das Missões das paróquias de Loulé de fazer daquele espaço “lugar de peregrinação e de encontro da fé”. “Dado que outubro é mês das missões e porque os povos de África não faziam habitualmente nenhuma peregrinação anual, surgiu a ideia de, a partir da devoção a Nossa Senhora da Piedade, fazer do santuário lugar de peregrinação anual dos povos de África”, explica o padre António de Freitas à FOLHA DO DOMINGO.

Samuel Mendonça
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