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Aquele investigador, que abordou o tema “As catedrais medievais portuguesas: fontes e desafios de investigação”, defendeu a necessidade urgente de se reunirem arquivistas mas também historiadores, de forma que se possa fazer um trabalho “claro, sólido e útil” nesta área. “Das nove sés medievais, apenas Lamego e Viseu têm uma parte de trabalhos publicados, tendo sido Viseu a única a conhecer um catálogo digital de uma parte substantiva (e até agora ignorada) documentação medieval interna, proveniente do seu cartório capitular e que hoje constitui a essência do acervo documental do Museu de Grão Vasco”, observou.

Anisio Saraiva deixou o apelo a que o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, em associação com a Direção Geral de Arquivos, promovam junto do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e da rede de arquivos distritais, um trabalho análogo ao que se iniciou para os arquivos das bibliotecas diocesanas e de que é exemplo o novo portal Cesareia, destinado à divulgação dos fundos das bibliotecas eclesiais portuguesas.

O conferencista referiu-se ao “crescendo interesse” da comunidade académica portuguesa em estudar as catedrais medievais e exemplificou com a referência a vários trabalhos académicos. “Muitas são ainda as perguntas que continuam sem resposta no tocante ao clero secular medievo em Portugal”, lamentou.

O orador iniciou a sua intervenção lembrando que “a catedral emergiu como símbolo maior do um renascimento após a passagem do ano 1000 e como expressão de uma nova ordem e de uma nova mentalidade que rapidamente se estendeu por toda a Europa”. “A catedral era primazia da exaltação glória divina e do exercício poder da Igreja mas também da monarquia e da então alteração do tecido urbano”, explicou, acrescentando que a catedral “afirmou-se como emblema maior do desenvolvimento das cidades e da reorganização do território e passou a constituir, não apenas o símbolo de todas as transformações decorrentes do otimismo e do florescimento económico, político e da renovação da vida social e religiosa, mas também veio de transmissão das novas correntes científicas, místicas e religiosas que ainda hoje constituem os alicerces da nossa civilização”.

Anisio Saraiva aludiu ao papel que as instituições catedralícias tiveram como “centros criadores, produtores e difusores, não só da arte e da arquitetura, como da cultura escrita”. “A catedral constitui uma pedra basilar na construção e compreensão histórica. Vejamos o seu papel no nosso processo de coordenação e organização política, administrativa e eclesiástica”, salientou.

Apontando a criação das nove dioceses medievais – Braga, Porto, Coimbra, Lisboa, Évora, Lamego, Viseu, Guarda e Silves – referiu-se à cumplicidade entre a Igreja e a monarquia, lembrando que a maior parte dos complexos catedralícios foram erigidos a partir dos templos pré-românicos da época visigótica e outros vieram substituir as mesquitas que então existiam. A exceção são as sés de Viseu e Guarda que “constituem dois casos singulares no contexto nacional” por terem sido feitas de raiz.

Samuel Mendonça

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