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Várias foram as personalidades, do Bispo do Algarve ao Presidente da República, que apontaram a figura e os feitos do Infante como exemplo de determinação numa altura em se quer afastar o risco de apatia.

O Bispo do Algarve, também membro da Comissão de Honra daquelas comemorações promovidas pela Associação de Municípios Terras do Infante (Aljezur, Lagos e Vila do Bispo) e pelo Município da Batalha, foi mesmo o primeiro a destacar a coragem dos navegadores portugueses, liderados pelo Infante de Sagres, como exemplo a seguir nos dias de hoje e “apelo a enfrentar, com a coragem e ousadia do passado, as tormentas do presente”.

“Um país que não se revê naqueles que, de modo tão admirável e insigne o edificaram, pode transformar-se num país sem identidade e sem credibilidade. E um país sem credibilidade é um país sem crédito”, advertiu D. Manuel Quintas pela manhã, em plena Fortaleza de Sagres, na celebração da bênção de duas corvetas da Marinha Portuguesa no promontório, a pedido da Fundação Infante de Sagres, exortando ao despertar de uma “sadia inquietação” pela “simbologia” daquele lugar. “Que o exemplo daqueles que nos precederam e as virtudes humanas e os valores cristãos com que souberam iluminar a sua vida e realizar os seus projectos, nos abram à fé n’Aquele que não está longe de cada um de nós”, acrescentou, evocando a bênção e protecção de Deus “para que todos percorram com vento favorável as rotas marítimas, tenham bom êxito nas suas viagens, particularmente na viagem da vida, e cheguem com felizes ao porto desejado”.

D. Manuel Quintas explicou a adesão da Igreja algarvia à iniciativa. “A Diocese do Algarve une-se a esta efeméride, sabendo que deste modo interpreta não só o sentir do povo dos municípios da Associação Terras do Infante, e de todo o povo algarvio, bem como enaltece os princípios cristãos que qualificaram a vida a inspiraram a obra deste português insigne que hoje evocamos”, referiu o prelado.

O mesmo apelo seria corroborado momentos mais tarde, na cerimónia protocolar junto à estátua do homenageado, em pleno centro da vila de Sagres, pela governadora civil do distrito de Faro, Isilda Gomes, que lembrou que o mundo deve muito a Portugal ou por José Amarelinho, presidente da Câmara de Aljezur, que, numa referência às palavras do Bispo do Algarve, considerou que hoje “o Infante, como bom cristão, apelaria não à inquietação, mas à inquietude e ao inconformismo”.

À tarde, na cerimónia protocolar, que decorreu em Lagos junto à estátua do Infante D. Henrique, no local onde terá começado o movimento marítimo português, no antigo cais das Descobertas, a praia de onde saíram as caravelas de Gil Eanes a mando do Infante, o Presidente da República, que presidiu às comemorações, abordaria o tema ainda com maior incidência após depositar uma coroa de flores junto à escultura do príncipe português.

Cavaco Silva questionava na sua intervenção: “poderá um só indivíduo mudar o curso da história? Terá um único ser humano a possibilidade de instaurar algo de novo na vida de todos os outros seres humanos? E de assim afectar o destino de todo um povo?”. “Um indivíduo pode ser a força vital por trás de certos acontecimentos que mudam a história. Aquele cujo sonho amadurece no tempo certo”, concluía o Chefe de Estado que mais tarde afirmaria aos jornalistas ser preciso “acreditar que, no nosso país, tal como aconteceu no passado, existem homens capazes de nos conduzir no rumo certo”, no rumo “de futuro, que permite resolver as dificuldades que Portugal enfrenta neste momento”.

O Presidente da República disse acreditar que, “contra ventos e marés”, “seremos capazes de arribar a porto seguro”. “Assim saibamos navegar e, como venho insistindo, tirar partido do mar. Mas falta largar do cais. Falta, para ir mais além, ter de novo a visão e a capacidade para decidir dar os primeiros passos de um empreendimento secular. Temos, de novo, de colocar o mar no nosso futuro, como do fundo do passado D. Henrique sonhou para todos nós, que habitámos estes 550 anos”, afirmou Cavaco Silva que recordou a homenagem por si prestada, enquanto Primeiro-ministro, a um homem que “não se limitou a sonhar e passou à acção”, quando decidiu “dar o nome de Infante de Sagres à auto-estrada que liga o Algarve ao resto da Europa”. “Quis, com este gesto, continuar a rota do Infante D. Henrique, que daqui abriu Portugal ao mundo”, observou.

O Presidente considerou ainda que só “uma cultura viva e fiel às suas origens, uma cultura que fomente a criatividade na ciência, na economia, na arte, na espiritualidade”, faz do encontro de culturas iniciado pelo Infante, “um impulso criador que dá forças para vencer”.

As cerimónias tiveram continuidade com a visita ao Núcleo Museológico do Mercado de Escravos, recentemente recuperado, e à exposição “Retratos do Infante D. Henrique”. Os convidados assistiram também à antestreia da peça sinfónica “Suite das Descobertas”, realizada pelo maestro e compositor António Mota e interpretada pela Orquestra do Algarve sob a direcção da batuta do maestro Osvaldo Ferreira, no auditório do Centro Cultural de Lagos.

Ontem, dia 14 de Novembro, as comemorações continuaram na Batalha, tendo sido celebrada no mosteiro uma missa de sufrágio pela memória do Infante D. Henrique, realizada uma cerimónia protocolar junto ao seu túmulo e inaugurado um busto seu.

Samuel Mendonça

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