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“Não tenho carta nem carro, a minha casa é já ali, passo pela rede e venho cá todos os dias”, explica o agricultor, 49 anos, enquanto, como faz todos os dias nesta sua “tasquinha” quase privada, beberica o seu café a preço de luxo, acompanhado por uma água que comprou quase ao custo do gasóleo que se vende ali.

Durante as duas horas de um dia útil que a Lusa passou na área de serviço da Cepsa em Olhão, à beira da A22 (Via do Infante), apenas um carro parou para abastecer combustível e os clientes do restaurante contavam-se pelos dedos de uma mão.

O posto é apenas uma das muitas áreas de serviço praticamente às moscas desde que foram colocados pórticos de portagem nas autoestradas A22, A23, A24 e A25, a 08 de dezembro, com quedas de vendas que chegam, segundo a Cepsa, aos 60%.

“Venho de Ciudad Real, a 500 quilómetros de Portugal, e não sabia que os preços dos combustíveis eram tão diferentes dos de Espanha”, explica o único cliente que para na bomba, Gonzalo Fernandez. O jovem de 23 anos põe algum gasóleo, mas desiste de encher o depósito assim que olha para o mostrador ao lado do carro. Ali, o combustível custa 1,50 euros, mais 11 cêntimos do que na cidade onde vive.

O espanhol, que vem a Portugal pela primeira vez, em passeio, confessa que também não sabia da necessidade de comprar um identificador para passar na antiga SCUT (estrada sem custos para o utilizador).

Mesmo depois de informado da possibilidade de ali mesmo fazer a compra que não fez na fronteira, o rapaz decide seguir viagem como até aí: confia que a multa não avançará 500 quilómetros pelo interior de Espanha, entrando-lhe pela casa adentro.

Por razões diferentes, também Rosário Alcañiz, 62 anos, decide não comprar o identificador e assevera que vai sair da A22 na primeira oportunidade, para apanhar a EN125 (estrada nacional) e rumar, a ‘passo’ de caracol, a Portimão, para passear e fazer compras com o marido.

“Estão loucos?!”, espantara-se na altura em que o funcionário a informou de que uma ida e volta entre a Ponte do Guadiana e a saída para a cidade algarvia (110 quilómetros em cada sentido) lhe ficaria em 20,78 euros. O funcionário encolheu os ombros e mandou-a protestar com o Governo português.

Rosário protesta à Lusa: “Isto é um roubo”, indigna-se, invocando as compras e refeições que há muitos anos faz em Portugal, o dinheiro que, enfim, deu a ganhar aos empresários e ao Estado português. Logo ela, que vive a escassos quilómetros da fronteira e gasta “quase tudo” no país vizinho.

O camionista José Coelho, 55 anos, foi um dos dois portugueses que entrou na área de serviço pela porta do posto de combustível durante as duas horas de reportagem, mas apenas para comprar um maço de cigarros.

“Foi só o tabaco, mas vou parar já na próxima bomba para almoçar”, garante, para logo depois esclarecer que estacionará no parque da área de serviço da Galp de Boliqueime, mas acomodar-se-á na parte de trás da cabine do camião, dando conta de uma refeição que a mulher lhe preparou.

Mas trata-se de uma exceção. A maior parte das vezes nem para nas áreas de serviço da ex-SCUT: “Temos ordens da empresa para circular o mais possível na EN125 e, lá em cima, para sair no nó do Carregado, para evitar a A2”, informa.

“Nem sei se estes postos se vão aguentar, a perder dinheiro todos os dias como estão”, refere, jurando que raramente vê um único carro nas áreas de serviço.

Lusa

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