Pub

As artes ancestrais populares do Algarve estão a ser catalogadas num livro que fará o levantamento do artesanato da região e o classificará consoante o risco de ameaça à sua conservação, disse o promotor da iniciativa.

O Livro Vermelho das Artes Tradicionais Ameaçadas do Algarve irá categorizar as atividades artesanais por grau de ameaça e deverá estar concluído em julho, afirmou à Lusa João Ministro, da empresa algarvia Proactivetur.

“O livro vermelho vai ao encontro do espírito do que já existe para vertebrados ou botânica, que fazem um levantamento e uma classificação de espécies de acordo com o seu estado de ameaça, atribuindo um estatuto que estará depois na base de ações de conservação”, exemplificou.

João Ministro esclareceu que o trabalho que as equipas estão a fazer no terreno para recolha de informação “vai buscar esse princípio, só que aplicado ao artesanato, que não existe em Portugal e é o primeiro do género”, sublinhou.

O projeto foi lançado pela Comissão de Coordenação e de Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve e “enquadrado num projeto INTERREG de cooperação transfronteiriço que se chama Magalhães ICC”, acrescentou, notando que o objetivo é apontar soluções para a sua salvaguarda das atividades ameaçadas, numa “fase posterior”.

Segundo aquele responsável, a “experiência acumulada” com o projeto TASA (Técnicas Ancestrais Soluções Atuais) foi importante para a CCDR/Algarve escolher a Proactivetur para fazer a recolha da informação sobre as atividades em risco na região e hierarquizá-la, sublinhou aquele responsável.

“O Livro consiste num levantamento exaustivo das artes tradicionais que existem no Algarve, na aplicação de um conjunto de critérios muito bem balizados do ponto de vista científico e técnico, que vão servir para atribuir uma classificação ou um estatuto às artes identificadas, que vão ser ordenadas de acordo com o grau de ameaça e depois, no final, funcionar como uma ferramenta para que se desenvolvam ações concretas de proteção e salvaguarda desse património”, explicou.

A classificação fará a identificação por “artes criticamente ameaçadas, artes em perigo, artes viáveis”, criando a base para “aquelas artes que estejam criticamente ameaçadas e sejam viáveis” poderem “ser alvo num futuro próximo de ações das entidades públicas para as salvaguardar”.

Entre essas ações poderão estar formações ou apoios para artesãos, mas João Ministro salientou que “isso só virá numa fase seguinte”, embora a “transmissão de saber seja uma das componentes mais importantes” a adotar para salvaguardar este património cultural.

“O trabalho está a decorrer neste momento, o livro vai estar pronto em julho deste ano e é o primeiro caso em Portugal. E temos a expectativa de, se o projeto tiver sucesso, poder ser replicado noutras regiões”, afirmou ainda o responsável da empresa.

João Ministro deu à Lusa exemplos de “artes que já desapareceram no Algarve”, como “albardeiro” ou “fazer alcatruzes de barro para a pesca do polvo”, cujo “único oleiro que havia já fechou”, ou que estão na “iminência de desaparecer”, como a “cestaria com esparto” ou “outro tipo de cestarias”, que já “só têm quatro ou cinco pessoas” a manter o ofício.

“Só conhecemos um ferreiro que ainda trabalha como antes, com bigorna e o fogo”, lamentou, frisando que o trabalho só abrange “artes populares tradicionais ancestrais e populares” e ficam de fora as “ligadas à gastronomia” ou “que tenham a ver com artes modernas urbanas, como bijuteria”.

João Ministro realçou ainda a importância de o trabalho contar com um “conselho técnico-científico” composto por “instituições algarvias e também nacionais” que “dão cobertura científica para que o trabalho tenha qualidade e representatividade”.

A Universidade do Algarve, a CCDR, a Direção Regional de Cultura ou a Comissão Nacional da Organização para Educação, a Ciência e a Cultura. das Nações Unidas (UNESCO) são algumas dessas entidades.

Pub