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O termo Eclésia é empregue, pela primeira vez, num dos mais antigo textos bíblicos, o Evangelho segundo “S. Mateus” (18,17). Depois, surge novamente nos “Actos dos Apóstolos” (8,3) ainda da primeira metade do século I, e a “Eclésia” tem já um significado institucional, ao ser atestada precisamente na célebre passagem acerca de Paulo de Tarso perseguidor; “…assolava a Igreja, entrando pelas casas…” e em sentido orgânico de um “corpo”, junto à referência do conjunto de cristãos e aos seus “membros”: “homens e mulheres”. Mais tarde, ele próprio S. Paulo a confirmaria em registo epistolar “aos Colossenses” (4,7), certificando exactamente a “Casa” (“Domus”) de “Ninfa” enquanto arquitectura, na cidade de “Laodicéa” e através do excerto : “…e à Igreja que está em sua casa”.

As Eclésias, são instituições organizativas mas, igualmente, primitivas arquitecturas domésticas de reunião a que “raramente” aludem os textos neo-testamentários e, com esse nome específico. No entanto, essa designação de origem grega faz inúmeras alusões aos próprios locais de culto, através das múltiplas menções a “Casas” (“Domus”) senhoriais registadas no “Livro” do século I. No geral, ela também significa as multiplicadas Eclésias e entre cerca de uma centena de nomes titulares (“tituli”) dos seus proprietários em Roma mas, também distribuídos pela Grécia, no Egipto, e da Ásia Menor ou de muitas outras “cidades e vilas” no Médio Oriente. Constitui um único “corpo” social congregado através de muitos “membros” espalhados pelo campo e cidades. No princípio do século IV, existiam já “25 tituli” (“as primeiras Eclésias” paroquiais) em Roma e, examinadas arqueologicamente como “casas privadas utilizadas para as pregações”. (1)

A transição greco-romana do binómio “Domus-Ecclesia” (Casa-Igreja) é também paradigmática, pela marcante relação faseada entre os dois termos. Aludirão às funções eminentemente religiosas desses espaços e arquitecturas em conjunto e, através da complexa análise arqueológica e arquitectónica (Icnologia) doméstica. É nessa imensa estrutura arquitectural privada, espraiada geograficamente e numa primeira fase por todo o império romano, que este ensaio incide e, particularmente na Lusitânia. A importância desta fase doméstica da Igreja nascente do século I é mais abrangente e maioritária, e o termo “Domus-Ecclesia” deverá ser adoptado para caracterizar a sua função primordial e, especialmente em Milreu.

Defendo, simultaneamente, a tese da origem restrita e doméstica das primeiras “Igrejas” ou “Casas” (Eclésias ou Casas-Igreja), anteriores à erecção de autênticas edificações autónomas (Basílicas). As “Basílicas” ou “Grandes Igrejas” (Basilicae) corresponderão à segunda fase religiosa eminentemente pública, e de incremento multiplicativo de fiéis. A Basílica é a “mãe” de todas as “Casas”.

Recordo que nesta fase protocristã, as Sinagogas e os templos pagãos teriam já servido, paralelamente, para a proclamação da “Palavra”. Com o crescimento exponencial dos fiéis, a Igreja originária terá tido necessidade de se autonomizar e de possuir arquitecturas próprias e independentes. A herança arquitectónica da “família” cristã inicial teria, sobretudo, sido implementada primeira e maioritariamente em “Casas” (Domus). Esse facto arquitectural mais atrás exposto é bíblico (Novo-Testamento), e expressa bem a autonomia inicial da Eclésia face ao estado romano ou de outra atribuição funcionalista pagã, e entre poder temporal e espiritual. Depois, noutra etapa, a Igreja nascente irá sendo paulatinamente envolvida pelo império romano e pela governação, coincidindo com a ocupação das Basílicas civis para o culto cristão e o gradual abandono de cultos gentílicos.

As Eclésias também traduzem uma época original de transição, inicialmente privada e doméstica das “Domus” (“Casas de oração” e “Oratórios”), para outra nova etapa edificante da família religiosa pública (“Ecclesiae” ou “Basilicae”) duma irmandade crescente e reconhecida oficialmente mas, interpolada por algumas fases de esporádicas perseguições religiosas.

(continua na próxima edição)

Vítor Cantinho
Arquitecto e ensaísta


(1) "A History of Rome", p.475.

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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