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No princípio do século V, outro “Padre da Igreja”, Agostinho de Tagaste (354-430), ainda condena o “Orfismo” através do monumento literário “De Civitat Dei”, motivo iconográfico da mitologia gentia, e que é representado em vários edifícios romanos com mosaicos em Portugal (“Arnal” e “Martim Gil”). E sabe-se que a representação de “Orpheu” rodeado pelas várias espécies animais e pela natureza vegetal, está directamente miscigenado com o culto dionisíaco e, logo depois, ambos relacionados ao próprio cristianismo. “Cristo-Orfeu” é assim plasmado por todo o mundo latino, confirmando a origem oriental destes rituais, e reproduzidos através de inúmeras imagens de índole protocristã.

Naturalmente, também estabeleço outra relação geográfica africana e, acima de tudo, com os mosaístas das Escolas artísticas oriundas da metrópole norte-africana (Tunísia, “África Proconsular”), especialmente com centro em Cartago (Tunes) mas, também da “Numídia”, das “Mauritânias” na antiga “Tripolitania”, e ainda das “Líbias”. Da antiga cidade metropolitana de Alexandria (“Egipto”) esse vínculo artístico é ainda mais originário e ancestral. As rotas marítimas estabelecem os elos artísticos e os enlaces das ideias e ritos religiosos.

O testemunho iconológico pagão mais antigo, está também patente num documento importantíssimo referente ao século III e, logo no princípio, das actas do Concílio protocristão de Elvira (“Eliberi”, Granada). Esse manifesto escrito hispano-lusitano, com inúmeros cânones comprovativos, e aludindo a essa relação pagano-cristã, têm paralelismo material através dos muitos vestígios em múltiplas necrópoles romanas na Ibéria, e que designam também evidências epigráficas e formais desses múltiplos sincretismos. E são atestados através dos monumentos funerários (mausoléus, tumbas, estelas, aras e cupas) em particular do Algarve e Alentejo. E a exemplo dos dois sistemas de deposição funerária (incineração e inumação) e, arquitecturalmente, pela reutilização de Templos e Basílicas pagãos adaptados, pelos cristãos, ao novo culto religioso. Lembro ainda que, só em meados do século II é que se inicia a generalização da inumação e, esse facto necrológico “novo”, relaciona-se directa e paralelamente com a implantação do Cristianismo. No entanto, o enterramento não seria exclusivo da “nova” religião de Cristo.

Acerca das Eclésias, julgo serem diminutos templetes de matriz etrusca mas, originalmente ligadas ao Sacramento eucarístico e, sobretudo, umbilicalmente ao Baptismo. São, no máximo, dimensionadas para uma população fiel de cerca de 100-120 mulheres e homens. São também estruturas restritas e centralizadas, quase quadradas, com origem no principal espaço da “Casa” (“Domus”) com peristilo greco-romano e, com “exedra” (abside): o “Coenaculum” (Cenáculo). São dessa fase muito antiga e privada, intimamente ligada às mais ancestrais “Domus-Ecclesiae”, a origem doméstica de toda a estrutura arquitectural e icnográfica protocristã. E essa arquitectura elege, também, outra notável correspondência bíblica pascal.

As Basílicas, por sua vez, serão de origem palatina e resultante arquitectónica da amplificação dimensional das Eclésias mas, de modo faseado, e são já eminentemente públicas. São implantadas no centro da urbe para congregar muitas centenas de fiéis, e para reunir as várias paróquias numa única e grande “Sala” da “Casa do Rei” (“Basilica”), e para a refeição principal romana: a Ceia. A Basílica, serviria também de “Casa” e, acima de tudo, para nela se implantar a “Cadeira” (“Cathedra”) episcopal. A “Catedral”, constitui, outrossim, a “Casa” ou a morada (“Sedes”) do Bispo na cidade.

(continua na próxima edição)

Vítor Cantinho,
arquitecto e ensaísta

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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