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No império oriental, Valeriano (253-260) e pai de Galiano, e com quem fora co-imperador, teve o ensejo de ser tolerante nos primeiros anos de governação, sendo a sua corte já constituída por inúmeras personalidades cristãs. Esta fase inicial pacífica, também registada por Eusébio («H.E.» VII,10,3), alterou-se finalmente, com a indução perseguidora de um ministro opressor, Macriano.

Pouco tempo depois, o imperador Aureliano (270-275) e também com registo epigráfico em Ossonoba (Faro), constitui a mais assinalável personalidade numa relação íntima com a ancestral Igreja de Antioquia (Síria) no oriente, e relato também patente na obra de Eusébio. Nele se revê um governante empenhado em dirimir outro conflito de sucessão bispal na mais antiga “Igreja” da cristandade, e onde os fiéis são apelidados de “cristãos” pela “primeira vez” (Ac.11,26). Este antigo “Palácio Episcopal” e sede do Bispo da importante capital metropolitana, em Antioquia, deveria pertencer “àqueles que se achavam em comunhão com os bispos da doutrina cristã na Itália e em Roma” («H.E.» VII,30,19). Esta acção dominante mas, também pacífica, e por parte do imperador Aureliano, reconhece e exerce principalmente a hegemonia católica de Roma, entre a hierarquia eclesial do oriente. Constitui outro acto de relação “íntima” Império-Igreja e, relativo às primeiras congregações da antiga Síria e dos “primeiros” cristãos no “Levante”. Logo depois, essa relação de paz alterou-se e, nas palavras de Eusébio : Aureliano “teve outros sentimentos, e foi iniciado por determinados conselhos a mover-nos novamente perseguição” («H.E.» VII,30,20). “Novamente” repetindo-se, e de forma cíclica, isto é, depois de uma fase pacífica segue-se, outra breve “perseguição”.

Numa marcante ligação religiosa pagano-cristã, e concomitantemente entre Dionisismo e Cristianismo primitivo, no nosso território, a “Domus-Ecclesiae” de Milreu detém muitos outros testemunhos arqueológicos duma importante acção ritual e funcional religiosa, aliada especialmente ao culto funerário. A acção matrimonial gentia ou o Sacramento do casamento, também estariam patentes localmente, através do Paganismo ou com a religião Cristã. “Vida” e “Morte” sempre em paralelismo, através do seu máximo representante, o deus Diónisos (Baco). Os vários sincretismos religiosos são a sua principal característica, com particular ligação ao culto dionisíaco de raiz funerária mais antiga mas, outrossim, à união matrimonial e, sobretudo, à “renovada” acção sacramental pelo Baptismo. Em Milreu, e na órbita do seu vasto campo mortuário, foi também achado um extraordinário busto de Diónisos (ver imagem) ou escultura de Baco romano em mármore branco, e de grande qualidade artística. Junto com as figuras de “Pavões” e “Peixes” de representação impressa em vários ladrilhos, ou ainda através de piedosas estatuetas angelicais com “Amores” ou “Anjos”, que estariam em “assembleia”, patentes em alguns “nichos” ou insertas na própria arquitectura da antiga “Villa” e, muito depois, na grande “Domus” do século III. Estes testemunhos, associados aos mosaicos de “tessellae” (pedrinhas) e sincretizados na “Domus” (1ª fase), distribuídos pelas diversas áreas funcionais religiosas mas, também pertença da “Ecclesia” e do “Baptisterium” (Templete, 2ª fase) e, essencialmente, todos em conjunto sintetizados pelos vários quadros pavimentares e murais de outros tantos mosaicos que de forma complementar, denunciam uma relevante fusão pagano-cristã. Mas, também através das profusas representações de espécies marinhas e dos multiplicados “peixes” alusivos ao mar bíblico que, misturados com a relevante arte escultórica pagã ou de algumas cerâmicas desenhadas, e achados “in loco”, revelam igualmente uma importante congregação protocristã.

Pela arte pictórica e pelos magníficos mosaicos de Milreu, também estabeleço vários paralelismos religiosos marcantes, quer através de 2 imagens mitológicas pagãs (Centauro e Monstro marinho), bem como pela principal alusão baptismal do profuso ícone : O “Peixe” (em grego “IKTHYS”, e acróstico com o nome de “Cristo”). Outras espécies marítimas (conchas bivalves, lulas, ouriços-do-mar, lagostas…) em assembleia, simbolizando os “fiéis”, constituem “elos” imagéticos dessa fusão entre paganismo e cristianismo. Mas, são sobretudo materializados pela “malha” da sua arquitectura nos vários espaços de carácter religioso, quer na “Domus” de meados do século III, quer na “Ecclesia” (Templete e Baptistério) dos finais do mesmo século. Mas, também, pelo assentamento paralelo de 2 importantes actos funéreos e, distintas formas de implantações funerárias. Primeiro, através da cremação de origem pagã e, com deposições em 2 mausoléus do século II (hoje soterrados), terão depois, e sequencialmente, pela inumação e prática distintamente cristã, um indispensável cemitério autónomo com localização relativamente afastada, no Cerro do Guilhim. Recordo ainda que “Kometeria” (cemitério) é um termo cristão de origem grega, e onde estariam sepultados com a devida orientação nascente-poente, as cerca de 50 sepulturas registadas por Estácio da Veiga em planta muito precisa, e que constituiriam, na época imperial, locais para celebrações rituais dos muitos fiéis do cristianismo original. O Dionisismo fora simplesmente sincretizado pela “nova” religião cristã. A “nova” disposição ritual necrológica do Guilhim, próximo a Milreu poente, é bem revelador dessa mesma alteração faseada entre ritos e cultos pagãos por um “lado” e, paralelamente, com as deposições funerárias cristãs de outro “lado”. Este fenómeno mortuário evolutivo, ao ser comparado paralela e faseadamente ao mais antigo depósito de vasos com cinzas resultantes da incineração, em 2 mausoléus próprios e também registados em Milreu nascente da fase pagã, constituem provas dessa mesma simbiose, e do Cristianismo antecedido pelas religiões de índole pagã (Dionisismo). Estabelece-se, igualmente, uma alteração ritual funerária significativa, e testemunho vincado na passagem dos 2 ritos, precisamente pelas duas implantações distintas na transição dos séculos II-III, com a “Domus-Ecclesiae” de permeio. Em face dos importantes achados artísticos, não duvidamos da importância do “locus”, e de considerar a estação arqueológica de Milreu um Centro Religioso Protocristão, tal como Estácio da Veiga considerou e que, depois, com Brito Rebelo, os registaram através de magníficos desenhos e, até, por meio de lindas aguarelas. (continua)

Vitor Cantinho
Arquitecto e ensaísta

(7) «Judaísmo e Cristianismo Antigo», p. 116.
(8) «Patrologia», p.215.
(9) «A History of Rome», p.392 e 397.
(10) «Dicionário de Termos de Arte e Arquitectura”, p.16.
(11) «A History of Rome», p.310.

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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