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Todo o “limes” territorial e a sua implantação geográfica, natural e paralelamente indiciam uma próspera actividade complementar rural, industrial e comercial romana. Mas, igualmente, constituir-se-iam “mansionis” ou estações de muda noutra actividade paralela e militar, sobretudo, ligada à cavalaria (“Vexillationes”). A imagem de um cavalo é manifestamente o ícone desenhado numa cerâmica de Milreu e, depreende-se desse elemento simbólico uma representação organizativa do exército romano, e na missão de patrulhamento através das vilas, campos e cidades. A patente arqueológica do “caminho” empedrado e, ainda existente no local, pela presença da via romana que atravessa a “metade” do conjunto religioso de Milreu, confirma novamente essa relação. Essa importante via prolongar-se-ia para nascente e para poente. Naturalmente, também com uma função comercial, administrativa e governativa subjacente, e pela correspondência viária e provincial evidente. Não se pode excluir a hipótese de ser a conhecida e, também registada “Via Antonino”, importante estrada do reinado deste piedoso imperador (“Pius”), e que passaria também por “Balsa” (Luz de Tavira) e “Baesuris” (Castro Marim) mas, também ligada a “Myrtilis” (Mértola) pelo lado do sotavento, e paralelamente a “Arannis” (Garvão?) pelo lado do barlavento, unindo Algarve e Alentejo. A célebre “Statio Sacra”, qualquer que seja a sua posição, não estaria muito fora desse circuito viário mas, essencialmente, “enlaçada” pela religião gentia e, depois, também cristã.

A expansão geográfica da Igreja nascente é basicamente muito antiga e dispersa, atravessando campos, vilas e cidades mas, também cruzando muitas províncias, paróquias e dioceses, numa relação viária ecuménica transversal ibérica, europeia e, também africana. O mar Mediterrânico e os principais rios, constituem fortes elos civilizacionais mas, também laços fundacionais do império romano e da cristianização.

É de Ireneu de “Lyon” (Gália), a célebre frase do século II : “ As Igrejas fundadas na Germânia, … as da Ibéria, … as dos Celtas, … as do Oriente, … as do Egipto, … as da Líbia, …as estabelecidas no centro do mundo (Roma) … / …como se morassem numa só casa … embora pelo mundo sejam diferentes as línguas, o conteúdo da tradição é um só e idêntico…” («Adversus Haereses» 1,10,2). Através do mesmo “Padre da Igreja” é autenticada a fundação de muitas Eclésias pelos próprios Apóstolos, sendo “a da Igreja maior, mais antiga, por todos conhecida, a Igreja de Roma, fundada pelos gloriosos apóstolos, S. Pedro e S. Paulo” («A.H.» 3,3,2). Não pode existir melhor registo escrito, e testemunho da “Prima Cathedra” em Roma mas, também “da Ibéria”.

Deste escritor da Patrologia e na mesma obra («Adversus Haereses»), sabemos da existência do importantíssimo Sacramento baptismal de “crianças” («A.H» 2,22,4), exercido especialmente pelo meio ritual particular e por “efusão” («A.H» 1,21,4), através do “derramamento” de água. Esse acto cultual e facto litúrgico “novo”, é fundamental para a interpretação icnológica do Baptistério de Milreu (Templo) e Eclésia original protocristã mas, não só por essa forma de acção ritual e sacramental registada por esta figura da Igreja, Santo Ireneu de Leão. O célebre Origenes, no século III, também afirma que o Baptismo das “crianças” remonta à própria tradição apostólica (12).

A Eclésia (Templo) de Milreu, congregaria em si o normal conjunto de Sacramentos do rito cristão e de entronização principal pelo Baptismo mas, também, com particular evidência para o Sacramento do matrimónio. A “Domus” (Casa), por sua vez, e nesta fase construtiva, teria readaptado uma das suas alas e, supostamente, para local de prática ritual de unções e abluções, dedicadas evolutivamente como “Collegium” funerário, e para purificações dos “irmãos” falecidos. Mas, também pelas acções litúrgicas abluentes e purificadoras, dedutíveis das sensíveis palavras por parte de Eusébio ainda no século III, e acerca dos defuntos; “purificavam-lhes os olhos e fechavam-lhes a boca; carregavam-nos nos ombros e sepultavam-nos; pegavam-nos, abraçavam-nos, revestiam-nos, depois de lavá-los…” (“H.E.”VII, 22,9). (continua na próxima edição)

Vitor Cantinho
Arquitecto e ensaísta


(12) "Patrologia", p.213


O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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