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Nesta “Primeira Casa” (“Domus” e, depois, na “Ecclesia”) em Milreu, celebrar-se-ia a união matrimonial, e este Sacramento teria também a patente da deusa “Vénus”, divindade relacionada também com o mar, e desenho encontrado dessa deia pagã, inscrita numa lucerna e também aí achada. As várias funções sacramentais da Igreja vernacular, estão testemunhadas simbolicamente e, descobertas numa relação particular pagano-cristã e, congregadas pelos múltiplos rituais sacramentais: Baptismo, Eucaristia, Ordenação, e Matrimónio, no espaço da “Ecclesia”. Por fim, através da Extrema unção atingiria o último Sacramento, em ritual específico na própria “Domus”. O culto mortuário, envolveria, nesta época protocristã, o rito através de lavagens pelas águas como já se referiu antes, e também pelo ritual purificador na passagem através de um “banho”, junto com “unções” perfumadas para purificação do corpo do falecido. Esta última acção, só poderia ter tido lugar no interior da “Domus”, em sítio muito particular e para esse efeito. Os vários restos de unguentários de vidro para óleos e perfumes aí achados, comprovam-no, associados a uma “nova” lucerna de barro, Paleocristã, com o símbolo XP, e também achada numa última e importante campanha arqueológica de Felix Teichner. “Outro” signo mais ancestral, e impresso no fundo de um vaso de vidro, é impressionantemente significativo. A marca monogramática de uma “cruz”, ladeada por “duas pombas”, estabelece, por fim, um “elo” simbólico evidente com a religião cristã e, pertencente ao “fundo de taça encontrada por Estácio da Veiga” (Mª. Luísa Afonso). Estes 2 “invólucros”, e atribuição da Eclésia nascente, teriam um só conteúdo. O sincretismo simbólico é também impressionante.

Através de “Hipollytus” (discípulo de Ireneu de Leão), e a partir do seu importante livro “Tradição Apostólica”, este “Padre da Igreja” descrimina detalhadamente o sacramento de iniciação pelo Baptismo. Logo no princípio do século III, este “Padre da Igreja” confirma a necessidade de um banho purificador, ou até, e em situação alternativa, através do derrame de água por efusão. As abluções, obrigariam que fossem realizadas a partir de um fluxo de água que, deveria ser “corrente”. Prescreveria, igualmente, lavagens purificantes específicas, ainda que de forma complementar e, também pela necessidade de frequentar as termas em dia próprio para o efeito, e por meio preparatório balnear através de loções perfumadas. Precisamente às “quintas-feiras”, e antecedendo propriamente o acto Baptismal, na senda de entronizações dos jovens catecúmenos, do ensino normal, de banhos para adultos e da catequese superior. Esta a razão da função primordial das termas de Milreu, fazendo parte integrante da “Domus-Ecclesia” em meados do século III, tal como muitas outras estações arqueológicas hispânicas e mundiais já atrás apontadas nesta dissertação. As muitas basílicas pagãs dos primórdios romanos, em paralelismo funcional, também apresentam essa herança arqueológica termal mas, para efeito recreativo, costume exclusivamente ocioso sobrevindo da sua origem civil palatina e gentia. Depois, os primeiros Baptistérios das Basílicas paleocristãs, constituem-se, de raiz, anexos arquitectónicos e, geralmente posicionados, precisamente, à entrada principal das Igrejas. A purificação balnear, tem de anteceder o ingresso no Templo e, na Eclésia, e pela tradição arquitectónica e ritual herdada directamente do culto gentílico ou hebraico.

Esta noção acerca da importante alteração interpretativa e religiosa, sobretudo exercida através da funcionalidade evolutiva da Arquitectura geral em Milreu, entre uma análise iconográfica (pesquisa simbólica dos mosaicos e artefactos) e, fundamentalmente, pelo registo icnológico arquitectural (indicadores sucessivos das plantas, cortes ou secções), e ligados em primeiro lugar ao Baptismo, deverá ser profundamente actualizada. Numa acção funcional essencialmente litúrgica, são neste estudo interpretadas diversas práticas rituais protocristãs, estreitamente ligadas ao Catecumenato e, ao principal Sacramento cristão do Baptismo. É numa acção cultual de entronização que se liga a fundação originária da Eclésia (“Ecclesia”, Templo) mas, simultaneamente, à Eucaristia e inicialmente exercida no Cenáculo (“Coenaculum”) da antiga “Domus”, de que herda o seu formato quadrangular geral. A Eclésia de Milreu é, particularmente, um Baptistério e, está exactamente posicionada à entrada da sua “Domus”. A união dos termos greco-romanos constituem a designação mais apropriada para o conjunto arqueológico geral: “Domus-Ecclesiae”.

São também significativas as posições teóricas de outro “Padre da Igreja”, Tertuliano de Cartago, desta vez orientando-se contra o Baptismo infantil, e cerca dos anos 200-206, reconhecendo dessa forma a preexistência da mesma realidade ritual (Baptismo infantil), e de iniciação das crianças por esse rito (efusão) e, pelo menos na África setentrional donde seria oriundo este escritor. Sendo posterior à posição de Ireneu de Leão do século II e, contrárias a esse ritual infantil e já atrás referido mas, sendo anterior a Hipólito em pleno século III, distingue-se uma posição também alternante, isto é, ao longo do tempo detectam-se variações nessa mesma forma de acção baptismal e, sobretudo direccionada aos jovens infantes. As suas palavras acerca do Baptismo (“De Baptismo”) e, referindo-se à acção simbólica e purificadora, tem uma importância metafórica pela alegoria ao “cardume” de “peixes”, e testemunho que alude indirectamente à parábola para o “Grande Peixe”, expressão poética que, na época, se encontra intimamente ligada a “Cristo”:

«Mas, nascidos como pequenos peixes na água
seguindo o nosso Senhor Jesus Cristo,
e só pela água podemos ser salvos”
(Tertuliano, “De Bapt.” 1,3)

(continua)

Vitor Cantinho
Arquitecto e ensaísta

Bibliografia consultada:

Bíblia, "Novo Testamento".
Borges Coelho, "Portugal na Espanha Árabe", V. I.
B. Altaner, A. Stuiber, "Patrologia".
Eusébio, "História Eclesiástica".
Eusebius, "Historia Eclesiastica".

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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