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Entretanto, estabeleço ainda outra relação paralela, entre este conjunto escultórico (S. Pedro e S. Paulo) achado em Milreu, com a Eclésia da Vila de Frades (“Templo” alentejano) em S. Cucufate, e a sua piscina axial de exterior para o Baptismo colectivo. Da mesma forma similar, através dos 2 “nichos” ainda existentes neste importante e original Baptistério, e patentes na parede interior da sua abside, balizando a sua cabeceira, num paralelismo icnológico impressionante _ pena foi que não tenha chegado até nós nenhum vestígio imagético de mosaicos para o confirmar _ e para a provável deposição estatuária dos 2 maiores Apóstolos da Cristandade. As dimensões gerais dos nichos ou recantos da “êxedra” em S. Cucufate e, em relação paralela às das estatuetas de Milreu, também são em tudo, de proporções análogas. Diz-se que S. Cucufate (c.269-304) fora um mártir barcelonês (S. Cugat) mas, de origem africana e cartaginesa (“Scillium”), morto durante a “última grande perseguição”, execução imposta por Galério, um dos seus “carrascos” (homónimo doutro co-imperador de Diocleciano), e com a função de pró-consul na Hispânia.

É precisamente com Eusébio iconoclasta, que são registadas as primeiras imagens descritivas de interesse histórico, e testemunho arqueológico do oriente, confirmado através do depoimento “visual” do próprio historiador, e averbado na sua «História Eclesiástica». O subsequente trecho é bem paradigmático, acerca da Eclésia ou de uma “Casa” no levante, sobrevinda do século III, unindo pinturas da representação dos 2 principais Apóstolos. Junto com uma importante “estátua” dedicada a Cristo “de pé ”, no mesmo local, Eusébio afirmaria nos princípios do século IV que : “não é de admirar que outrora pagãos beneficiados por nosso Salvador, a tenham erguido, quando sabemos terem sido preservados ícones pintados em cores dos apóstolos Pedro e Paulo e do próprio Cristo. É natural, pois os antigos, segundo um uso pagão entre eles observado, tinham o costume de honrá-los desta maneira sem preconceitos, quais salvadores ” («H.E.» VII,18,4). Está, nesta breve descrição e da mesma época (séculos III-IV), e contemporânea à “Domus-Ecclesiae” de Milreu no ocidente, também retratada uma extraordinária vinculação artística clássica pagano-cristã sobrevinda do gentilismo. Esta rara passagem descritiva de Eusébio e, do mesmo capítulo, refere ainda outra relevante “Casa”, e um dos seus “admiráveis monumentos” de Arquitectura Cristã Imperial, numa memória alusiva à grandiosa Basílica do século III da antiga cidade de Cesaréia de Filipe (“Paneas”) do médio oriente, e “onde o Jordão tem as nascentes”.

Em Milreu, os 2 grandes “pescadores de homens”, S. Pedro e S. Paulo, e da Eclésia primitiva estariam aí representados através de duas prováveis esculturas mas, também alusiva e iconologicamente interpretados em toda a magnífica e extensa alegoria bíblica sobre a “pesca”. A relação simbólica com os “peixes” (representações dos “fiéis” e “catecúmenos”) é directa, e íntima e iconograficamente ligada ao Baptismo colectivo, quando posicionados sob a forma de um rito de entronização especial, isto é, por meio de “filas … de peixes nadantes” (Brito Rebelo, Mª. Luísa Afonso). Mas, também, relacionados com toda a estância arqueológica de Milreu, congregando diversos conjuntos de mosaicos figurativos através da magnífica espacialidade da “Domus”. No seio do seu “Coenaculum” (Cenáculo) forrando o “ninfeu” da abside, no “umbigo” do “primeiro” “Baptisterium” e principal anexo desta “Primeira Casa” cristã, passando pelo seu peristilo com um “mar” bíblico de “múltiplas” espécies marinhas. Mas, sobretudo, cobrindo o “lavacrum” (pia de abluções) e o extenso “podium” do “novo” Baptistério (Templo), e alistados em cardumes à entrada da “Barca” e, da Eclésia.

Vitor Cantinho
Arquitecto e ensaísta

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Continuação de anterior Bibliografia consultada:
Fortunato de Almeida, «História Eclesiástica»
Francisco Lameira, «A Escultura Romana no Algarve»
Ireneu de Leão, «Contra as heresias»
Joseph Ratzinger, Bento XVI, «Jesus de Nazaré»
J. Maria Blázquez, «Historia de Roma»
Lactâncio, «Sobre a morte dos perseguidores»
Le Glay, Voisin, Le Bohec, «A History of Rome»
Maria Luísa E. da Veiga Afonso, «Arqueologia Romana do Algarve»
Mário Lyster Franco, «Uma Estatueta de Sileno»
Michael Gough, «Os Primitivos Cristãos»
Miguel de Oliveira (Pe.), «História Eclesiástica de Portugal»
Múltiplos autores, «Religiões da Lusitânia»
Pierre Pierrard, «História da Igreja Católica»
Simon, Benoit, «Judaísmo e Cristianismo Antigo»
Theodor Hauschild, Felix Teichner, «Milreu, Ruínas»
Virgílio Lopes, «Mértola na Antiguidade Tardia»
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