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O sítio arqueológico de Milreu e a sua “Domus-Ecclesiae” (Casa-Igreja) perto de Estoi (Faro), depois de muito estudado, fez-me suspeitar precisamente de outro local para prelecções, e de preceitos relativos ao ensino elementar religioso. Mas, igualmente, de características pedagógicas superiores e complementares, muito ligadas aos vários espaços de representação e retórica (Aulae) de um marcante “Collegium” cristão, na periferia da importante cidade de “Ossonoba” (Faro). O provável espaço da sua biblioteca (bibliotheca) dividir-se-ia pelas duas alas agregadas e envolvendo outro local retórico e litúrgico por excelência, o Cenáculo (coenaculum) com abside semi-circular para prelecções doutrinárias, no coração da “Domus”. Uma das suas alas atribuo-a para depósito de “volumes” em língua grega, e a outra lateral para os de latim, como era uso e costume na organização destes espaços arquitectónicos. Mas, muito mais importante seria também pelo paralelismo funcional, ritual e cultual, entre estas “duas” bibliotecas, relativamente à maior e principal Sala de representação e de pregações em Milreu: o Cenáculo. Recordamos que nesta época os “livros” constituíam-se através de “rolos” (voluminis) de papel, arrumados e empilhados em estreitas estantes.

Curiosamente um “volumen” (“rolo”, na forma desenrolada) é o formato que envolve o braço da enigmática escultura (pequena estatueta) achada no sítio da “Domus” em Milreu e, atribuível a um “filósofo”. Precisamente Platão para alguns investigadores, ou S. Paulo e em minha opinião. Como é sabido a imagem icónica deste Santo é caracterizada, exactamente com O “Livro” na mão, sendo que a representação do “volumen” (rolo) é indicativo da sua antiguidade, tal como está assinalado em inúmeras estátuas e esculturas de eruditas personalidades clássicas, e da época do Cristianismo primitivo.

As grandes Escolas teológicas no Oriente (Alexandria, Antioquia, Cesaréia…) convencem-me que teriam sido fundadas a partir do grande centro do Ocidente (Roma). A “megapolis” do império setentrional na península itálica (Roma) e, logo em simultâneo, na segunda “polis” no mediterrâneo meridional, em Alexandria (Egipto). Depois, espraiando-se através do mesmo mar mediterrânico pelo Médio Oriente e pela Ásia Menor, onde já estariam estabelecidos os “primeiros cristãos”.

O célebre Orígenes, o mais fecundo escritor com mais de 2000 livros, fundou no ano de 232, uma nova Escola em Cesaréia da antiga Palestina, com outra notável e famosa biblioteca cristã. E daí ter-se-ão estendido as ideias religiosas e filosóficas cristãs pela Capadócia, através de outros Padres e eclesiásticos, procurando conciliar “harmoniosamente o espírito de Alexandria e o de Antioquia (escola neo-alexandrina).” (5) Este literato esteve intimamente ligado com a mãe do imperador Alexandre Severo, tendo sido chamado a Antioquia, depois de ter conhecido a “antiquíssima Igreja de Roma” (Eus. «H.E.» VI,14,10). Anteriormente, em Alexandria, sabe-se ainda que “Orígenes tinha dezoito anos ao começar a dirigir a escola de catequese” («H.E.» VI, 3,3) e, com esse facto, achamos outra relação de juventude marcante na estrutura de ensino eclesial.

A “exegese bíblica” também constituiu apanágio destas Escolas, e o “método alegórico” uma norma antiga intimamente relacionada com a primeira forma de ensino religioso, talvez ingénita e “originalmente” em Roma, e através da importante literatura bíblica. (continua)

Vítor Cantinho
Arquitecto e ensaísta

(4) "Patrologia", p.195.
(5) "Patrologia", p.196.

Bibliografia consultada:
Bento XVI, "Os Padres da Igreja, de Clemente Romano a Santo Agostinho".
B. Altaner e A. Stuiber, "Patrologia".
Eusébio de Cesaréia, "História Eclesiástica".

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