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Por outro lado, o “método alegórico” da “outra” escola alexandrina é sucessivamente posto de parte, e onde o profícuo escritor Orígenes, da primeira metade do século III, tivera início intelectual e gnóstico, depois de uma sucessão de outros filósofos religiosos com particular destaque para Clemente de Alexandria e já neste estudo referido. Este último, escreveu “Paidagogós” um “hino a Cristo”, revelando-se igualmente ter uma linguagem e sensibilidade poéticas.

Tal como na vida final e intelectual de Orígenes (c. 253-4), o historiador Eusébio, mais tarde e na charneira do século III para o IV, estaria também ligado a Cesaréia e naturalmente à sua Escola, e onde parece ter sido entronizado, finalmente, Bispo dessa importante cidade romana.

E descobre-se uma relação eclesiástica fundamental com as primitivas “Dioceses” locais e respectivos “Bispos”, e sobretudo com as Escolas ligadas ao “direito episcopal” no “locus” das “civitatis” metropolitanas. E a destrinça ou marcante divisão entre ensino paroquial, “normal” ou de método “catequético elementar” (6), e a formação “superior” e sacerdotal, isto é, mais erudito preceito e dirigido a um “auditório mais culto”. Estas Escolas Filosófico-Teológicas, seguindo o mesmo plano do catecumenato normalizador, seriam naturalmente de “direito episcopal”, já que nesta fase do cristianismo original, até o sacramento do Baptismo só poderia ser ministrado pelo próprio Bispo.

Desta explanação resulta o facto de interpretar naturalmente uma escola “normal” e, ainda “outra”, mais “erudita” e complementar. A relação prende-se também entre a formação dos primitivos cristãos e, primeiramente adultos, convertidos do paganismo ou do hebraísmo, para logo depois, haver uma necessidade de ensino de “outra” nova geração, a dos mais jovens (crianças). Uma “nova” relação etária de cristãos é estabelecida, e já constituídos “filhos” ou até “netos” de cristãos. Todos estão, no entanto, englobados etariamente, no ensino estrito e meramente de catecumenato “normal”. Depois, numa relação elevada e mais erudita, nascida concomitantemente, através de um ensino catequético fundado na anterior relação: o Ensino Sacerdotal e Teológico. A relação etária também seria de natural evidência, em novo estágio pedagógico e nível de ensinamentos doutrinais, dirigidos e desenvolvidos pelos primeiros conhecimentos dos catecúmenos, e em competição teórica e filosófica com as escolas “catequéticas” superiores e tradicionais de origem judaica ou de matriz greco-romana. Recordo que a palavra “catecismo” revela a sua origem grega ligada a “instrução”. “Catequético” a de um ensino “de viva voz”, precedido do Baptismo de entronização dos “primeiros” fiéis, e disciplinado às prelecções superiores, retóricas, científicas e filosóficas.

Secundariamente, acha-se outra diferenciação entre a exegese literal, e a interpretação alegórica fundada directamente na Bíblia. Numa relação que é doutrinariamente oposta e paralela entre Escolas do Oriente e do Ocidente. Neste caso, indiscutível, face à divisão administrativa imperial romana “futura”, mas também de ordem geográfica e religiosa fundamental, pela única “limitação” física da navegabilidade através do pequeno mar mediterrânico.

Milreu e a sua “Domus-Ecclesiae”, através da datação arqueológica genérica (cronologia entre os séculos I-IV), na sua “Schola” de meados do século III englobaria todos estes estágios normais, complementares e etários de ensino religioso. Denuncia uma Escola Catecumenal muito “romana” mas, igualmente um Colégio (Collegium) “heleno” superior nos finais do século III, ligado ao Ensino Catequético de fase monástica e, também muito primitiva. As representações dos múltiplos “peixes”, pequenos e grandes, em “assembleia”, forrando os vários pavimentos, paredes, baptistérios, e em toda a estância sagrada, acusam alegoricamente uma congregação de ossonobenses em “vida contemplativa” (Fílon) numa existência monástica “fora de muros”. Percorreriam, esses primeiros cristãos, “a vida nos campos e em jardins” (Fílon), em ensino exegético de “exercícios” e reflexão bíblica (ascese) mas, essencialmente, através de “caminhos” de conteúdo religioso significativo e “alegórico”.

Estes “peixes” reunidos em cardumes mais não são que figurações dos agrupamentos de jovens catecúmenos ou de adultos em catequese do regime escolar, e também de Ensino Sacerdotal, prestes a entrar na “barca” da “Eclésia”.

Vítor Cantinho
*Arquitecto e ensaísta

6) "Patrologia", p.196

Bibliografia consultada:
Bento XVI, "Os Padres da Igreja, de Clemente Romano a Santo Agostinho".
B. Altaner e A. Stuiber, "Patrologia".
Eusébio de Cesaréia, "História Eclesiástica".

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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