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A atualização do clero das dioceses do sul, realizada o mês passado, apresentou o tempo presente como de grande oportunidade para a Igreja.

João Eleutério

“Quando pensamos a catolicidade da Igreja, devemos pensá-la em termos de desafios e oportunidades”, referiu João Eleutério. O orador, que discorreu sobre o tema “A riqueza da Catolicidade: comunhão numa pluralidade de Igrejas”, realçou que “o primeiro desafio é o do diálogo intercultural e o da inculturação da fé”.

Aquele docente da Universidade Católica Portuguesa referiu como dimensões desse desafio “a constante metamorfose das culturas urbanas e rurais, a arte e a cultura, a imaginação sacramental, as culturas digitais, a globalização, o impacto das migrações nos tecidos comunitários eclesiais, a religião e o religioso, as tensões com as religiões históricas e institucionais, o diálogo inter-religioso, o diálogo ecuménico” e os “dinamismos sinodais” como expressão da catolicidade que disse ser “uma realidade dinâmica e não estática” e “uma riqueza a reencontrar”.

Alfredo Teixeira, docente da mesma academia, garantiu que o binómio crentes/não crentes “já não é muito eficaz” para a compreensão da relação dos indivíduos com a religião.

Na sua reflexão sobre o tema “O diálogo com os sem religião. Antecâmara da evangelização”, o orador referiu que atualmente, neste campo, “uma das principais fronteiras é a dos pertencentes e dos não pertencentes” e que, dentro destes últimos, há “um conjunto de pessoas cada vez mais importante, sob o ponto de vista do seu peso relativo, que se representa como crente”.

Alfredo Teixeira

Lembrando que “a prática está muito ligada ao sentimento de pertença”, Alfredo Teixeira sublinhou que o fenómeno “da afirmação das pessoas que dizem não pertencer a nenhuma religião” tem proliferado na sociedade portuguesa nos últimos anos, mas que, “apesar de dizerem que não pertencem a uma religião, subjetivamente, compreendem-se como crentes”.

Aquele conferencista doutorado em Antropologia, com especialização em Antropologia Política, que, para além de licenciado em Teologia, é mestre em Teologia sistemática, sublinhou que esta categoria dos “crentes sem religião” afirma-se, sobretudo, em Portugal na região a sul do Tejo e que a par dos agnósticos “são os que apresentam maior interesse pelo «assunto» religião”.

“Os crentes sem religião não se revêem numa posição não crente, mas numa posição de não pertença religiosa. Afirmam-se numa dupla distinção: demarcam-se dos não crentes porque se representam subjetivamente como crentes, mas também divergem dos outros crentes, uma vez que declaram não pertencer a nenhuma religião”, desenvolveu.

Alfredo Teixeira acrescentou que entre as pessoas da sociedade contemporânea encontra-se “com frequência uma certa contraposição entre o que compreendem como religião e o que compreendem como espiritualidade”.

O orador considerou que “o diálogo com as pessoas que não sentem para a sua vida qualquer necessidade de uma experiência de pertença religiosa que se descreva como vida comunitária sob o ponto de vista religioso, tem de encontrar aquilo que são os fulcros fundamentais da sua própria existência que possam revelar-se como aberturas às questões fundamentais que o Cristianismo coloca”.

Neste sentido, aludiu a “questões de fronteira na experiência humana que se transcrevem muitas vezes em mediações culturais fundamentais”. “Talvez nas lógicas de investimento pastoral não tenhamos posto no devido «cesto» todas as nossas energias. Se calhar, estamos a pôr imensa energia em coisas que, por ventura, estão a sofrer uma enorme erosão e que não vão conseguir dar resposta a esta nova realidade. E, por ventura, não estamos a apostar noutros espaços de interlocução que seriam mais facilitadores para o diálogo com este tipo de população”, alertou, ressalvando que as três dioceses do sul de Portugal – Algarve, Beja e Évora – “são as únicas em que a prática religiosa está a aumentar em percentagem no país”.

Frei José Nunes

O frei José Nunes também considerou que “hoje há uma grande oportunidade para o evangelho e para o Cristianismo”. O provincial da Ordem dos Pregadores (dominicanos), que refletiu sobre o tema “O Cristianismo diante dum mundo secularizado e descristianizado”, referiu-se a uma “exculturação do Cristianismo”. “Contudo, apesar desta situação, a verdade é que esta cultura da secularização e o mito do progresso – de construir a felicidade do ser humano através do progresso à margem da transcendência, que foi o que comandou esta cultura da modernidade nos últimos 400 anos – não trouxeram a prometida felicidade”, constatou, sublinhando que as pessoas reconhecem as “limitações” desta “cultura moderna descristianizada” e que a religião lhe “pode oferecer qualquer coisa de novo”.

“Hoje, toda a gente de boa vontade reconhece que as religiões podem ter algo de muito importante a oferecer em todas as culturas e países, mas em particular nestas deste mundo descristianizado. Hoje há uma consciência generalizada de que o religioso tem algo muito importante a oferecer à nossa sociedade justamente porque ela criou problemas para os quais ainda não encontrou resposta”, prosseguiu.

O frade dominicano, que também é docente da Universidade Católica Portuguesa, defendeu uma “nova evangelização ou re-evangelização” para “grupos inteiros de batizados que perderam o sentido vivo da fé ou mesmo já não se consideram membros da Igreja, vivendo uma vida distante de Cristo e do seu evangelho”.

Neste sentido, apelou a um “diálogo com a cultura, com as religiões e com os homens e as mulheres de boa vontade”. “Há uma missão, uma verdade a comunicar, mas é no diálogo e é com a linguagem própria de hoje, deste lugar e desta cultura”, sustentou, realçando a importância de um “diálogo com respeito pelas culturas”.

A atualização de bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja e Évora foi promovida pela décima quarta vez consecutiva pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, este ano pela primeira vez por via digital devido à Covid-19, realizou-se entre 18 e 21 do mês passado e teve como tema “Diálogo, opção evangélica e ponte civilizacional”.

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