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Aura Miguel, que acompanhou João Paulo II em 51 das suas viagens por todo o mundo, considerou ontem à noite que o falecido Papa será elevado aos altares “com toda a justiça”, no próximo dia 1 de maio.

A jornalista vaticanista da Rádio Renascença, que apresentou uma conferência em tom informal no Seminário de São José, em Faro, para “ajudar a preparar o grande momento que é a beatificação de João Paulo II”, deteve-se, de entre as inúmeras possibilidades de análise da personalidade de Karol Wojtyla sob o ponto de vista teológico, filosófico ou intelectual, na demonstração da sua humanidade enquanto pessoa.

Perante cerca de 100 pessoas, que lotaram por completo a capacidade da sala, Aura Miguel salientou que “a pessoa do Papa era absolutamente fascinante porque teve uma vida excecional, até no sofrimento” e considerou que a sua “faceta mais atrativa” era “uma espécie de normalidade” que o fazia continuar a gostar de fazer desporto, teatro ou atividades com jovens, mesmo sendo Papa. “Karol Wotjyla não deixou de ser quem era só por causa do cargo que ocupava”, testemunhou, acrescentando que João Paulo II “tinha um coração enorme” e “vivia com uma galhardia e uma humanidade que se revelou desde sempre”.

Com recurso ao relato de vários episódios da vida pessoal de João Paulo II, Aura Miguel procurou demonstrar o “gosto imenso da vida” de uma Papa que “era muito humano”. Tanto que, por vezes, “até nos desarmava”, confessou.

Por outro lado, a jornalista apontou a “chave de leitura” de todo o pontificado de João Paulo II, um dos maiores da história da Igreja. “João Paulo II ensinou-nos que o infinito tem um nome – Jesus Cristo – porque só Ele satisfaz plenamente o desejo do coração”, afirmou, acrescentando que “só Cristo conhece verdadeiramente o que está dentro do coração”. “Esta era a certeza inabalável de João Paulo II que se gastou a apregoá-la pelo mundo”, complementou, evidenciando que “as circunstâncias mais difíceis nunca o impediram de manter esta frescura de coração”. “O segredo era o imenso amor a Cristo, consciente que Ele era o único capaz de responder ao desejo de coração. O segredo era uma frescura de amor”, concluiu Aura Miguel.

A jornalista destacou assim que o Papa “assumiu a sua doença” de um modo que “não vai nos critérios do mundo”. “O Papa mostrou-nos que a aparência não é tudo. Aceitar expor-se assim, mostra uma total liberdade, de alguém que já deu tudo e já não tem nada para defender. Foi a «bandeira» maior de um santo”, afirmou, considerando que João Paulo II passou desta forma uma “mensagem muitíssimo maior que ele”. “A maneira como viveu o sofrimento até ao fim, tocou milhões de pessoas”, lembrando que o “fenómeno” do seu funeral “foi uma coisa totalmente imprevista”. “Numa época em que se quer fazer crer que a fé, e a sua expressão, é uma coisa privada, o facto de as pessoas terem comparecido daquela maneira, desmonta essa tese”, afirmou, considerando esta como a “última lição” de João Paulo II. “A realidade superou a ideologia”, frisou.

Aura Miguel considerou ainda a “coincidência” da morte do Papa, no primeiro sábado do mês (2 de abril de 2005), como algo de extraordinário por se conhecer a sua adesão à devoção dos primeiros sábados, pedida por Nossa Senhora nas aparições em Portugal e a sua ligação a Fátima, e por ter ocorrido no dia da festa da Divina Misericórdia, instituída pelo próprio João Paulo II para toda a Igreja, por via das aparições de Cristo à irmã Faustina Kowalska.

Precisamente a ligação do Papa a Fátima motivou a segunda parte da iniciativa de ontem, promovida pelo Seminário diocesano, na qual Aura Miguel apresentou um documentário de sua autoria realizado para assinalar o primeiro ano da morte de João Paulo II. “Foi um trabalho muito duro mas muito gratificante em que tentei contar a profundíssima ligação, que todos sabemos haver, entre João Paulo II e Fátima, com os sinais todos que o Papa fez questão em deixar”, explicou a jornalista, aludindo à sua tese de ligação do pontífice à Virgem de Fátima sobre a qual confessou nunca ter falado com João Paulo II. “O Papa dizia que o seu pontificado tinha durado apenas três anos: de 1978 a 1981. Os restantes 23 anos foram de milagre de Nossa Senhora de Fátima”, testemunhou, referindo-se à convicção de João Paulo II de que tinha sido salvo do atentado de 1981 por Nossa Senhora.

Samuel Mendonça

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