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FOLHA DO DOMINGO – Como é que surgiu a vontade de querer ser cristão?
Jorge Lourenço – Os meus pais são católicos. Já na minha infância tínhamos prática cristã, embora fosse mais vivida em casa uma vez que a igreja ficava distante e não tínhamos meios para nos deslocarmos. O monte onde eu nasci fica a 16 quilómetros da aldeia. Mas a educação que tive foi sempre católica e sempre tive vontade de ser batizado Sempre quis ser cristão mas o que me fez decidir, foi a minha filha. A minha filha foi batizada e anda na catequese e foi ela o incentivo maior. O meu filho manifestou vontade de que também gostaria de ser batizado e eu disse-lhe: «então vamos os dois!». E fi-lo porque acredito.

Porque é que não foi batizado em criança?
Jorge Lourenço – Antigamente, quando nascíamos, havia o hábito de sermos «prometidos» a uma madrinha e um padrinho que tinham uma palavra a dizer sobre o momento do nosso batismo Como vim com os meus pais para o Algarve e a minha «madrinha» ficou no Alentejo, fizemos vidas separadas. Por isso, tanto ela como eu próprio não nos decidimos e o tempo foi passando. E passaram-se, entretanto, 44 anos.

E os seus pais?
Jorge Lourenço
– Os meus pais nunca fizeram força para que eu fosse batizado No entanto, os meus três irmãos são batizados, embora o mais novo só o tenha sido no dia em que se casou.

Quando é que iniciaram a vossa caminhada cristã?
Berto Lourenço
– Em novembro de 2009. Logo quando soube que poderia ter de fazer uma caminhada de três anos, quis desistir. Até porque tinha medo de iniciar a formação e não conseguir perseverar para a terminar. Mas no dia no batismo da minha irmã, gostei muito. Na altura, pensei melhor e decidi vir, com o meu pai, saber o que era necessário para nos batizarmos Entretanto disseram-nos que bastaria um ano de preparação num grupo.
Jorge Lourenço – Viemos falar com o cónego José Pedro e ele explicou-nos que teríamos de fazer uma caminhada.

O batismo da vossa familiar foi o impulso final para a tomada de decisão?
Jorge Lourenço
– O batismo da minha filha incentivou-me muito. Viver aquela celebração foi algo que me marcou e «mexeu» muito comigo. É um marco.

Algum de vós tinha frequentado a catequese anteriormente?
Berto Lourenço
– Não. Apenas tinha tido aulas de Educação Moral e Religiosa Católica.
Jorge Lourenço – Foi a primeira vez.

Acharam estranho que, para batizar um adulto, fosse necessário frequentar a catequese?
Jorge Lourenço
– De maneira alguma. Não fazia ideia que fosse assim, mas achei bastante interessante.

Tinham ideia de que havia tantos adultos a pedir à Igreja para serem cristãos?
Berto Lourenço
– Para mim foi uma surpresa, até porque não fazia ideia de que os adultos pudessem ser batizados
Jorge Lourenço – Até deveria haver mais gente a pedir porque a nossa sociedade está muito perdida. As pessoas estão a optar por outro tipo de caminhos que não as levam a lado nenhum.

Berto, agora que já és cristão, é mais fácil testemunhares a tua fé diante dos teus colegas e amigos?
Berto Lourenço
– Eu tenho amigos que não acreditam e há sempre um certo gozo. Muitas vezes digo-lhes: “aceito a tua opinião, por isso respeita também a minha” ou “não digas isso à minha frente” e eles acabam por compreender. Alguns tentam convencer-me a não acreditar, mas é complicado…

Traziam alguns preconceitos pré-estabelecidos contra a Igreja?
Jorge Lourenço
– A Igreja antes não me dizia nada mas agora diz-me muito. Vim de livre vontade e com esperança de encontrar algo de novo, algo que não conhecia. E encontrei.

Esta descoberta da pessoa de Cristo foi uma experiência agradável para vós?
Jorge Lourenço
– Sem dúvida! Só conhecíamos a imagem mas a mensagem é fenomenal e leva-nos mesmo a acreditar…

Em que é que mudou a vossa vida desde que iniciaram esta caminhada e agora com a receção destes sacramentos? Sentem-se mais enriquecidos?
Berto Lourenço
– Nos momentos menos bons surge uma certa esperança. Nunca pensei que o batismo fosse assim… O sorriso, a simpatia e o contacto das pessoas e do bispo foi especial. Ganhei vários amigos. Sinto-me muito melhor assim. É outra vida. Parece que encontramos sempre solução quando estamos aborrecidos ou perante as dificuldades. Tornei-me, por isso, uma pessoa mais alegre e feliz.
Jorge Lourenço – A liberdade foi, por exemplo, um dos aspetos que mudou em mim. Liberdade para me expressar, me mostrar e falar à vontade sobre a minha fé. Antes era um pouco difícil falar sobre isso, até porque sabia pouco.

O que achou a família da vossa decisão de quererem ser batizados?
Jorge Lourenço
– Para os meus pais e irmãos foi uma surpresa por ser iniciativa minha, um pouco tardia (embora eu entenda que nunca é tarde). Para a minha mulher e filha foi também uma notícia bem-vinda. Houve apoio por parte de família, embora, para mim, o principal estímulo fosse o da minha filha.
Berto Lourenço – No meu caso, também foi a minha irmã que me estimulou. O facto de ter vindo fazer a preparação com o meu pai também me deu segurança.

Jorge, a sua mulher é cristã?
Jorge Lourenço
– Sim, já era batizada

Alguma vez, ao longo deste percurso, sentiram vontade de desistir?
Jorge Lourenço
– Não.
Berto Lourenço – Não, nunca me passou pela cabeça. Mas houve dias difíceis. Eu pratico atletismo, treino todos os dias e, à quarta-feira, termino às 20h. Muitas vezes não me apetecia vir à catequese porque chegava a casa muito cansado e nem tinha tempo para jantar para conseguir estar no grupo às 21h.

Foi preciso ser bastante perseverante para não desistir…
Berto Lourenço
– … sim. Nem o meu pai me deixava desistir. Já que começámos, não íamos deixar a meio.
Jorge Lourenço – Fazermos este caminho juntos, foi uma vantagem.

Não foi fácil conciliar esta preparação com os afazeres que já tinham.
Berto Lourenço
– Sem esforço, nada se consegue.

Serem batizados, crismados e receberem a primeira comunhão no mesmo dia foi marcante?
Jorge Lourenço
– Foi fantástico! Nunca imaginei que fosse uma celebração tão grandiosa como foi. A celebração, pelo facto de termos a atenção sobre nós, com a presença e a renovação das promessas do batismo dos elementos do Caminho Neocatecumenal e pela homilia, foi especial.

Apesar de já terem recebido os sacramentos continuam a vir ao grupo de formação. Sentiram-se obrigados a isso?
Jorge Lourenço
– Não. Quando entrámos no grupo sempre dissemos que iríamos até ao fim. E, futuramente, quando o grupo terminar, vou continuar a frequentar a igreja e gostava de continuar a participar nestes encontros…

…a vossa prática cristã também se tornou mais regular durante esta caminhada?
Jorge Lourenço
– Claro. E tenho vontade de continuar, até porque tenho de acompanhar a minha filha na caminhada dela, ainda que muitas vezes não seja fácil porque atualmente tenho dois trabalhos, um dos quais implica trabalhar aos sábados até de madrugada.

Ao longo deste percurso reconhecem alguns sinais de Deus que vos tenham estimulado a continuar a vossa caminhada?
Jorge Lourenço – Para além do dia em que vim falar com o cónego José Pedro, lembro-me de uma outra ocasião em que tivemos um acidente de viação…
Berto Lourenço
– …esse foi, para mim, o sinal mais forte… Despistámo-nos, o carro ficou todo destruído e nós ficámos bem… E nesse dia, por pouco não tínhamos mais dois acidentes.
Jorge Lourenço – É que no dia seguinte ao acidente, domingo, na missa, alguns dos aspetos referidos pelo padre, na homilia, relacionavam-se, de certa forma, com o que se passara connosco na véspera.

Na Igreja não existem só os bispos, os padres e os diáconos. Já perceberam que existem também religiosos e leigos que, sendo como vós, têm um papel fundamental no desempenho da ação que a Igreja desenvolve. Imaginam-se, dentro de algum tempo, a exercer alguma dessas funções como cristãos mais empenhados?
Jorge Lourenço
– É um pouco complicado imaginar isso agora porque a vida não está fácil e porque não sei a vida que terei amanhã. Isso poderá até vir a acontecer, naturalmente. Um dia mais tarde, talvez.

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