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O Papa apresentou um retrato preocupante do mundo, com referência a “graves violências”, associadas aos “flagelos da pobreza e da fome e também às catástrofes naturais e à destruição do ambiente”.

Em particular, condenou as “resistências de ordem económica e política na luta contra a degradação do ambiente”, lembrando o fracasso da recente Cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas.

Neste contexto, Bento XVI deixou votos de que “no decurso deste ano, primeiro em Bona e depois no México, seja possível chegar a um acordo para enfrentar de maneira eficaz esta questão”.

“Trata-se de uma aposta tanto mais importante quanto em jogo está o próprio destino de algumas nações, nomeadamente alguns Estados insulares”, precisou.

O Papa afirmou que “a negação de Deus desfigura a liberdade da pessoa humana, mas devasta também a criação” e que “daqui resulta que a salvaguarda da criação não visa tanto responder a uma exigência estética, como sobretudo a uma exigência moral".

Na linha de várias outras intervenções proferidas nos últimos meses, Bento XVI pediu que “esta atenção e este empenho pelo ambiente apareçam devidamente ordenados no conjunto dos grandes desafios que se colocam à humanidade” e criticou o “açambarcamento por alguns dos bens destinados a todos”.

Crise e droga

Após lembrar a “crise dramática que atingiu a economia mundial, provocando uma instabilidade social grave e generalizada”, o Papa apontou o dedo às “raízes profundas desta situação”, que situou “numa mentalidade egoísta e materialista corrente, esquecida dos limites inerentes a toda a criatura”.

“Queria sublinhar ainda que a salvaguarda da criação implica uma gestão correcta dos recursos naturais dos países e, em primeiro lugar, daqueles que se encontram economicamente desfavorecidos”, afirmou Bento XVI.

Falando em particular da África, o Papa disse que “a luta pelo acesso aos recursos naturais é uma das causas de vários conflitos”, sendo a fonte de um “risco permanente também noutros casos".

Bento XVI falou das “vastas extensões, por exemplo no Afeganistão ou alguns países da América Latina, onde infelizmente a agricultura está ainda ligada à produção de droga, constituindo aquela uma fonte não indiferente de emprego e subsistência”.

“Queria pedir, uma vez mais, à comunidade internacional que não se resigne com o tráfico da droga nem com os graves problemas morais e sociais que a mesma gera”, indicou.

Armas

Outra das grandes preocupações manifestadas no discurso papal, um dos mais importantes do ano, esteve relacionada com o aumento das despesas militares e a “manutenção e desenvolvimento dos arsenais nucleares”.

Neste contexto, o Papa deixou votos de que “por ocasião da Conferência para o exame do Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, que se realizará no próximo mês de Maio em Nova Iorque, sejam tomadas decisões eficazes em ordem a um desarmamento progressivo, que vise libertar o mundo das armas nucleares”.

“Deploro que a produção e a exportação das armas contribuam para perpetuar conflitos e violências, como no Darfur, na Somália ou na República Democrática do Congo”, acrescentou, lamentando a “a aparente impotência dos outros países e das organizações internacionais para restabelecerem a paz, sem contar a indiferença quase resignada da opinião pública mundial”.

Bento XVI quis também falar do problema do terrorismo, “que põe em perigo tantas vidas inocentes”, pedindo a “a quantos fazem parte de grupos armados, sejam eles quais forem, para que abandonem o caminho da violência e abram seu coração à alegria da paz”.

Solidariedade e diálogo

O Papa solicitou a “generosa assistência” da comunidade internacional para com as vítimas das “catástrofes naturais, que semearam mortes, sofrimentos e destruições, durante o ano passado, nas Filipinas, no Vietname, no Laos, no Camboja e na ilha de Taipé”.

Além da solidariedade, Bento XVI destacou a importância da “concórdia e da estabilidade dos Estados”, sublinhando “a aproximação que a Colômbia e o Equador estão a realizar depois de vários meses de tensão”, o “entendimento concluído entre a Croácia e a Eslovénia” a respeito das suas fronteiras e o acordo entre a Arménia e a Turquia “em ordem à retoma das relações diplomáticas”.

Quanto à questão israelo-palestina, o Papa voltou a defender a tese dos dois Estados. “Uma vez mais, elevo a minha voz pedindo que seja universalmente reconhecido o direito que tem o Estado de Israel a existir e gozar de paz e segurança nas fronteiras internacionalmente reconhecidas. E que de igual modo seja reconhecido o direito do Povo Palestino a uma pátria soberana e independente, a viver com dignidade e a deslocar-se livremente”, declarou.

Bento XVI pediu “o apoio de todos para que se protejam a identidade e o carácter sagrado de Jerusalém, a sua herança cultural e religiosa, cujo valor é universal”.

Relativamente ao Irão, o Papa espera que “através do diálogo e da colaboração, se encontrem soluções compartilhadas, tanto a nível nacional como no plano internacional”.

“Ao Líbano, que superou uma longa crise política, desejo que prossiga pelo caminho da concórdia. Espero que as Honduras, depois de um tempo de incerteza e agitação, se encaminhem novamente para uma normalidade política e social. E desejo que venha a suceder o mesmo na Guiné e em Madagáscar, com a ajuda efectiva e desinteressada da comunidade internacional”, prosseguiu.

O Papa quis frisar que, desde há algumas semanas, a Santa Sé e a Federação da Rússia estabeleceram “relações diplomáticas plenas”, bem como o “grande significado” da visita do presidente do Vietname ao Vaticano.

Actualmente, 178 Estados têm relações diplomáticas com a Santa Sé. Somam-se a União Europeia e a Ordem de Malta, para além de uma missão especial junto da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

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