“Celebrar a Imaculada Conceição é algo que nos envolve, impele e impulsiona, particularmente neste caminho de Advento, para celebrarmos adequadamente o nascimento de Jesus”, afirmou ontem o bispo do Algarve.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

D. Manuel Quintas, que presidiu na catedral da diocese à solenidade da Imaculada Conceição, exortou os cristãos a terem Maria como modelo, fazendo com que “a Palavra escutada, discernida, aprofundada, acolhida” seja “depois assumida e transformada em serviço, em dedicação aos outros”. “É assim que se completa todo este percurso, esta ação de Deus na vida de todos aqueles que, como Maria, escutam, acolhem, assumem, assimilam e transformam em serviço a Palavra escutada”, sustentou na Eucaristia celebrada ontem à noite na Sé de Faro, lembrando que após o anúncio do arcanjo Gabriel de que iria ser mãe, Maria “não ficou quietinha à espera que passasse o tempo”, mas “subiu apressadamente a montanha” para ir ter com a sua prima Isabel.

“É por isso que ela é modelo de escuta da Palavra, de acolhimento, de aprofundamento, de assimilação desta Palavra para fazer com que ela se transforme em vida como se transformou”, completou, tendo advertido que o “reconhecimento desta verdade de fé” da Imaculada Conceição “deve ter implicações” na vida, “sobretudo de quem está a caminho de Advento”, de quem “está a preparar-se para o Natal, neste contexto até da celebração deste Ano Jubilar que é, acima de tudo, um caminho de conversão”. “A Imaculada Conceição, celebrada em tempo de Advento, constitui para nós um sinal grandioso de esperança neste Ano Jubilar da Esperança”, sustentou.

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O bispo do Algarve começou por lembrar que celebrar aquela solenidade significa algo que “diz muito” aos cristãos, particularmente aos portugueses e também aos algarvios. D. Manuel Quintas recordou que a Imaculada Conceição é padroeira e Rainha de Portugal desde 1646, quando a 25 de março foi proclamada por D. João IV em Vila Viçosa.

O bispo diocesano evidenciou o “sensus fidei” do povo que “foi muito à frente” do magistério da Igreja que só em 1854, pela voz do Papa Pio IX, declarou o dogma da Imaculada Conceição. “Foi difícil, mas não foi da parte do povo. O povo acredita mesmo sem conseguir explicar porque é que acredita”, afirmou, constatando que “o Espírito Santo sopra onde quer” e “sobre todo o povo de Deus”.

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D. Manuel Quintas acrescentou que “teólogos de grande nomeada não conseguiam explicar este título de Nossa Senhora”. “Não conseguiam concebiam como é que se podia explicar que Nossa Senhora tivesse nascido sem o pecado original porque se tivesse nascido dessa maneira, quer dizer — e era esta a razão — que a redenção de Jesus não tinha sido universal, não a tinha incluído a Ela, como ser humano que é, sendo sujeita a ser filha de Adão e Eva como nós”. “Seria quase como que negar a universalidade da redenção de Jesus, que Deus veio para redimir toda a humanidade. Sem exceção. Todos, inclusivamente Nossa Senhora também”, explicou, lembrando ter sido um teólogo franciscano que desbloqueou aquela dificuldade.

“Teve uma intuição, inspiração do Espírito Santo, que explica a razão”, lembrou D. Manuel Quintas, evidenciando que “Maria usufruiu, por antecipação, dos méritos de Cristo, ou seja, foi pré-redimida”. “Mesmo sem Jesus ainda ter nascido, sem ter sido crucificado e sem ter operado o mistério da redenção, Deus fez com que ela já tivesse usufruído por antecipação desses méritos, de modo a preparar-se convenientemente para ser mãe de Jesus. Para aquela que concebeu sem pecado Jesus, fosse também ela concebida sem pecado, no seu nascimento, na sua conceção” explicou, acrescentando que “para aquilo que tem a ver com as verdades de fé, não há pressa”. “É preciso que o Espírito inspire, de uma maneira mais clara, mais definida e mais determinada, aquilo que se pretende declarar”. “Foi o que aconteceu”, constatou.

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“Passaram os séculos e o povo manteve-se sempre fiel na afirmação desta verdade de fé, na veneração de Nossa Senhora como Imaculada Conceição, reconhecendo que aquela que foi escolhida para ser mãe de Jesus tinha de ter algo de diferente do comum dos mortais, dos filhos de Adão e Eva”, sustentou.

Relativamente à relação dos algarvios a Maria e, concretamente, àquela invocação mariana, D. Manuel Quintas recordou que das 80 paróquias algarvias, 42 “têm como padroeira a Nossa Senhora, sob diferentes títulos”, e, destas, 12 têm a Imaculada Conceição como orago. “É sinal de que hoje estamos unidos a tantas paróquias aqui do Algarve que estão a celebrar a sua a festa da sua padroeira”, referiu, constatando que a veneração inspirou também a nomeação de localidades como Conceição de Faro ou Conceição de Tavira.

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