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Segundo D. Manuel Quintas, esta atitude que "deve prevalecer sobre a indiferença e o desinteresse nascidos do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada»”. “Hoje respeitamo-nos tanto uns aos outros, não queremos entrar na vida privada dos outros, que até se morre sem se dar conta”, criticou na homilia da missa de abertura da Quaresma a que presidiu na Sé de Faro, na qual apresentou a sua mensagem para o presente tempo litúrgico da Igreja.

Cintando Bento XVI, o prelado lembrou que “prestar atenção” significa “observar bem, olhar conscienciosamente, dar-se conta” e desafiou o cristão “a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos” mas a ser o seu “guarda” contra “uma espécie de anestesia espiritual”.

Exortando a “relações caracterizadas por recíproca solicitude”, D. Manuel Quintas considerou que este “olhar de fraternidade” fará “surgir do próprio coração a solidariedade, a justiça, a misericórdia e a compaixão, e desejar para o outro o bem sob todos os seus aspetos: físico, moral e espiritual”.

O bispo do Algarve lembrou que “a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o seu bem, e que ele se abra à lógica do bem”. “Significa não deixar que «uma espécie de anestesia espiritual» – como adverte o Papa – endureça o coração e feche os olhos ao sofrimento dos outros”, advertiu, acrescentando que “a riqueza material e a saciedade, os interesses e preocupações pessoais impedem, frequentemente, este olhar de amor e compaixão, feito de humanidade e de carinho pelo irmão”.

Como sublinha o Papa, D. Manuel Quintas lembrou que este modo de “prestar atenção” deve levar à “solicitude” pelo “bem espiritual”, como é o caso da “correção fraterna”, “característica de comunidades verdadeiramente maduras na fé”. Segundo o bispo do Algarve, a “correção fraterna” é uma “dimensão fundamental do amor cristão que nos impede de ficar calados e inativos diante do mal, contrariando o respeito humano, o comodismo e a adequação à mentalidade comum e nos leva a alertar os irmãos «contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem»”.

D. Manuel Quintas explica que “a advertência cristã, despida do espírito de condenação ou censura, é sempre movida pelo amor e pela misericórdia” e “visa «ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor»”. Neste sentido, o prelado sublinha que “ninguém se converte sozinho”. “Não basta propormo-nos a nós mesmos convertermo-nos. Convertemo-nos uns aos outros através desta correção fraterna”, evidenciou.

Por outro lado, o bispo do Algarve salientou que “o prestar atenção uns aos outros manifesta o «dom da reciprocidade», apontado por Bento XVI, e “contradiz a mentalidade redutora da vida que a limita à dimensão terrena, não considera a sua perspetiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual”. “Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida”, advertiu, citando o Papa. “Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação; a minha existência está ligada à sua, quer no bem quer no mal”, acrescentou.

Neste sentido, D. Manuel Quintas lembrou que “o amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – enraíza-se nesta pertença comum”. “Formamos um só corpo e somos corresponsáveis uns pelos outros”, complementou, lembrando que “tudo deve ser feito de maneira silenciosa, humilde e discreta”.

O apelo do bispo do Algarve para a presente Quaresma, que classificou como “expressão de um dinamismo crescente de identificação com Cristo”, resume-se assim ao apelo ao “testemunho da caridade” com que iniciou a sua homilia, lembrando que “passa por aí” a “verdade e autenticidade” do jejum e da oração dos cristãos.

A celebração teve continuidade com a imposição das cinzas aos presentes. Tanto na Bíblia como na prática da Igreja, impor as cinzas sobre a cabeça é sinal de humildade e penitência. A sua imposição lembra aos fiéis a origem do homem – “recorda-te que és pó e ao pó hás de voltar” – e pretende simbolizar a renovação do compromisso de seguir Jesus, fazendo morrer o "homem velho", ligado ao pecado, para fazer nascer o "homem novo", transformado pela graça de Deus. Por isso, ao colocar um pequena porção de cinzas sobre a cabeça, o ministro ordenado pronuncia a frase “arrependei-vos e acreditai no Evangelho”.

A Quaresma é um período de 40 dias – excetuando os domingos -, marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência, que serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário dos cristãos.

Samuel Mendonça
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