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O bispo emérito de Aveiro, de férias no Algarve, defendeu ontem à noite na igreja de Vilamoura que o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, tem uma “atualidade tremenda”, mas grande parte das suas determinações estão por realizar e que “há forças ocultas que tendem a apagar e esconder os frutos fundamentais do próprio concílio”.

No encontro de reflexão, realizado anualmente durante os seus dias de férias como colaboração à comunidade que o acolhe, D. António Marcelino explicou que o Concílio Vaticano II evidenciou a “responsabilidade de todos [os membros da Igreja] na construção do reino de Deus” e reclamou a “igualdade radical” dos mesmos, numa altura em que a Igreja precisava de um “rosto novo, de serviço, de mãe que é serva e pobre, para poder ser mestra”. “E isto custou muito a entrar”, testemunhou, considerando que o encontro conciliar trouxe “qualquer coisa de totalmente novo”: a “dimensão de uma Igreja dialogante com o mundo”. “O Concilio veio dizer que as alegrias, as tristezas e as angústias do mundo são as da Igreja”, complementou.

O prelado, que refletiu sobre as implicações na vida dos cristãos do 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, do Ano da Fé (outubro de 2012 a novembro de 2013), proclamado para toda a Igreja pelo Papa Bento XVI, e da Nova Evangelização, lembrando as fragilidades de muitos membros da Igreja da altura, muito preocupados com o “carreirismo” e a “disputa de lugares”, e adiantou mesmo que havia receios “que alguém boicotasse o concílio”. D. António Marcelino lembrou que, mesmo depois do concílio, quando se implementou a comunhão na mão, “em Lisboa, fizeram-se novenas pela conversão do Papa Pio XII”.

O bispo emérito de Aveiro, que considerou que a criação do “espírito de serviço, a partir da hierarquia [da Igreja], não é fácil”, criticou os “títulos exteriores” atribuídos ao clero (como os de monsenhor) e regozijou-se que o concílio tenha trazido “dignidade igual” e a “santidade como vocação comum” para todos os membros da Igreja. “Temos de orientar as pessoas nesse sentido. Há santos anónimos de um valor extraordinário e isto é a descoberta da santidade ao nível das próprias pessoas. Os padres têm obrigação de ajudar as pessoas a crescer à medida de Deus”, advertiu.

Perante cerca de 50 pessoas, D. António Marcelino lamentou que hoje se fale “muito menos” do “povo de Deus”. “Isso mostra perfeitamente como há forças ocultas que tendem a apagar e esconder os frutos fundamentais do próprio concílio”, complementou.

O orador defendeu ainda ser “uma urgência a iniciação cristã, a adesão consciente e pessoal a Jesus Cristo e a integração numa comunidade de irmãos onde se cresce, se vive e se pode testemunhar”.

O bispo emérito de Aveiro lamentou o “divórcio entre fé e cultura” e alertou para a “realidade de uma Europa que está laicizada e ateia, onde cresceram os movimentos ateus e agnósticos”. “O que vamos fazer? Vamos acolher bem esta gente. Temos o exemplo maravilhoso do Papa João Paulo II em Assis”, afirmou, considerando que “a Igreja tem de ser sensível a estas realidades”. “As mudanças culturais não pararam, vão continuar e temos de nos preparar para elas”, complementou, acrescentando que “a nova evangelização vai dar capacidade aos cristãos de viverem, no mundo de hoje, fiéis à sua própria fé com opções certas”.

Lamentando que haja “gente que não está ainda na Igreja conciliar”, D. António Marcelino defendeu novas abordagens. “Temos que descobrir caminhos de evangelização e estão ao nosso alcance. Toda esta realidade obriga-nos a pensar de novo a nossa presença no mundo de hoje, a nossa presença como Igreja”, sustentou.

O prelado, que afirmou que “o Ano da Fé é para se tomar a sério e a Nova Evangelização é uma urgência para quem quer defender a sua própria fé e ter uma ação positiva em ordem à fé dos outros”, considera que “o grande desafio que se faz no Ano da Fé é que os responsáveis das paróquias façam experiências para ver como podem ultrapassar determinado tipo de dificuldades”. “Nada se resolve na Igreja por decreto do bispo ou do Papa”, afirmou, exortando a “experiências novas, com imaginação e capacidade”.

D. António Marcelino passa férias no Algarve desde 1971, primeiro em Monte Gordo, depois em Alcantarilha e, desde 1982, em Vilamoura.

Samuel Mendonça
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