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O prelado, que foi bispo do Algarve entre 1988 e 2004, diz que “foram anos de muitas alegrias e de muita felicidade”, mas também “de alguns desgostos e deceções” e até anos de “miséria humana e falta de correspondência aos desígnios que Deus” tinha sobre si. “Pela parte positiva dou graças a Deus e reconheço a minha pequenez, face a tantas maravilhas realizadas pelo Senhor; pela parte negativa, peço-Lhe perdão e rogo-Lhe que a minha incúria não faça recair sobre o povo que me foi confiado, no decorrer deste meio século, as consequências das minhas infidelidades”, refere D. Manuel Madureira Dias.

O bispo emérito reconhece que “é difícil fazer uma avaliação do que aconteceu no decorrer destes 50 anos”. “Primeiramente, porque muitas coisas já ficaram na penumbra do consciente; depois, porque, tratando-se do exercício de um ministério sagrado, será melhor deixar o juízo e a revisão a Deus, a quem consagrei a vida, de modo especial, no momento da ordenação”, refere D. Manuel Madureira Dias, ressalvando que “as coisas do espírito não podem ser contabilizadas como as coisas materiais, porque pertencem mais a Deus do que à nossa capacidade”.

O prelado adianta, porém, que o que mais o marcou positivamente foi a “correspondência dos sacerdotes e dos fiéis leigos aos apelos e desafios” que, muitas vezes, lhes dirigiu. “Recebi muito mais do que dei e pude saborear, graças a Ele [Deus, ndr], as alegrias que o Povo de Deus me deu em muitos dos seus membros, quer em Évora, quer em Elvas, quer no Algarve”, acrescenta, manifestando “conforto e alegria no Senhor”.

Pela parte negativa, D. Manuel Madureira Dias reconhece que “também houve algumas desilusões e mágoas”. “Negativo, mesmo negativo, foi o que fiz mal e o que deixei de fazer, podendo fazê-lo”, resume, na expectativa da “misericórdia” de Deus.

Desde a sua resignação tem-se dedicado (como previu na altura) a colaborar com muitas dioceses, entre as quais o Algarve. “Escrevi alguns textos que ficarão, provavelmente, para ser publicados postumamente, se alguém entender que merecem ser publicados ou para destruir; escrevi artigos para revistas e jornais, fiz palestras muito diversificadas, de índole teológico-pastoral, em variadíssimos lugares do território português, desde o Algarve até Coimbra; orientei alguns retiros, principalmente ao clero de algumas dioceses.

Em Évora, para onde regressou, D. Manuel Madureira Dias também tem sido uma presença colaborante. “Tenho substituído alguns párocos, em várias celebrações; uma que outra vez, coopero com o prelado de Évora. Procurei não esquecer o exercício do ministério do perdão e da orientação espiritual, quando solicitado para o efeito”, testemunha.

A resignação de D. Manuel Madureira Dias, aceite pelo Papa João Paulo II em 2004, foi motivada por constatar que já não tinha saúde para o trabalho que lhe era pedido como bispo diocesano do Algarve. Entretanto, juntaram-se “outros males” às complicações cardíacas e da diabetes. O bispo emérito do Algarve atesta mesmo o agravamento do seu estado de saúde. “Devo dizer que me sinto, agora, muito mais debilitado do que quando saí do Algarve. As resistências são muito menores e tenho vindo a reduzir os trabalhos que ia fazendo, especialmente os retiros e outras atividades que exijam deslocações para terras mais longínquas”, refere.

Já em 2004 garantia que o seu projeto era “não ter projeto”, propósito que reafirma uma vez mais. “Quereria que o projeto a adotar fosse apenas e só o de Deus. Daqui por diante, é mais importante procurar saber que projeto tem Deus para comigo do que saber qual o meu projeto de vida, entendido como atividade pastoral. Cada vez poderei fazer menos coisas, mas seria importante – e isso rogo ao Senhor – que eu ame mais a Igreja”, refere D. Manuel Madureira Dias.

A Diocese do Algarve assinala o 50º aniversário da ordenação sacerdotal do seu bispo emérito com a celebração de duas Eucaristias, ambas presididas por D. Manuel Madureira Dias (ver notícia).

Samuel Mendonça
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