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As diversas actividades previstas ao longo deste ano, que vão desde exposições, apresentação de livros, conferências, dança, teatro, tertúlias e muito mais, foram apresentadas hoje de manhã, numa Conferência de Imprensa realizada no Café Calcinha – um dos espaços da cidade ligados à República – e contou com a presença do executivo municipal e do director do Museu da Presidência, Diogo Gaspar.

A Câmara de Loulé quis associar-se às celebrações nacionais até porque dois louletanos desempenharam o mais alto cargo da nação – Aníbal Cavaco Silva e José Mendes Cabeçadas. Como tal, a autarquia lançou um repto à Presidência da República para a realização de duas exposições sobre estas figuras incontornáveis da história portuguesa do século XX.

Em relação à exposição biográfica dedicada à vida e percurso do actual líder da Nação, e que vai estar patente ao público até 9 de Maio, pretende-se dar a conhecer a vida e obra deste louletano nascido em Boliqueime, através da exposição de um conjunto significativo de documentos, objectos, fotografias e registos audiovisuais, na sua maioria desconhecidos do grande público. No total são duas centenas de peças, entre objectos pessoais, documentos de Estado e outros documentos disponibilizados também pela autarquia, onde a família e testemunhos na primeira pessoa enquadram alguns dos momentos mais marcantes da vida em privado do Chefe do Estado e do seu percurso nos cargos que foi ocupando ao longo da vida.

O percurso académico e profissional, a participação na vida política, o exercício dos cargos de Ministro das Finanças, de Primeiro-Ministro e de Presidente da República e os prémios e condecorações, nacionais e estrangeiras, com que foi distinguido, testemunham a vida de um estadista filho de Loulé.

Visivelmente satisfeito com a realização desta iniciativa de projecção nacional, o edil de Loulé rejeitou qualquer leitura política desta exposição associada às próximas eleições presidenciais. “Esta exposição foi marcada há já algum tempo, e de momento nem sequer foi ainda definida a recandidatura ao cargo pelo professor Cavaco Silva. Portanto, não se pode fazer essa associação. Faz todo o sentido que o Presidente da República queira iniciar esta exposição biográfica na sua terra natal – que é a cidade de Loulé – o que muito nos satisfaz”, realçou Seruca Emídio.

Esta ideia também foi clarificada por Diogo Gaspar, responsável do Museu da Presidência, que salientou que se justifica inteiramente a presença desta exposição em Loulé já que “o Senhor Presidente é filho desta terra”. O director disse também tratar-se de mais uma acção integrada na “política de descentralização da actividade do Museu, que abriu há cinco anos”, que conta, por exemplo, com exposições biográficas de todos os presidentes da República.

Durante esta apresentação, o autarca de Loulé aproveitou para falar também da importância da República e dos seus ideários no contexto concelhio. “É evidente que a Câmara de Loulé não podia ficar alheia a estas comemorações e dentro dos seus ideários principais, a Educação tem sido uma das áreas prioritárias para este executivo, através da reabilitação de muitas escolas e da construção de novos estabelecimentos de ensino; são muitos os milhões de euros que temos investido e que estão bem explícitos da obra que tem sido feita e que se integram neste ideário republicano – mais educação, mais formação, mais desenvolvimento para o nosso país”, salientou Seruca Emídio.

Também a Cultura, elemento indissociável da República, tem sido uma aposta do Município. E de acordo com o edil, em ano de aniversário da República, a Câmara irá inaugurar a remodelação do Cine-Teatro Louletano, um edifício ligado também a um republicano – Frutuoso da Silva – e levar a cabo obras de requalificação na Praça da República, local onde decorreram importantes acontecimentos ligados ao 5 de Outubro de 1910.

Mendes Cabeçadas, o Presidente controverso

A outra grande figura louletana associada à República – José Mendes Cabeçadas Júnior – também vai estar em destaque neste programa promovido pela Câmara Municipal. Presidente da República por um curto período, “esta figura controversa” fica também na história portuguesa e na vida louletana, pelos vários cargos desempenhados, sobretudo o de estadista.

Esta exposição tenta mostrar que Mendes Cabeçadas não foi somente o militar, embora essa fosse claramente a sua vertente visível. Ele envolveu-se na política, nos negócios, civicamente empenhado, regionalista e opositor ao regime salazarista. Envolve-se na vida política activa, ainda durante a vigência do regime monárquico, tornando-se republicano. Participa nas conspirações para derrubar o regime. Contacta também as sociedades secretas, como era habitual na época, onde se desenvolviam algumas das conspirações que abalaram Portugal.

A personalidade que será evocada nesta exposição tem muitos aspectos controversos, por vezes ainda mal explicados e ainda por descobrir. Entre os aspectos aliciantes da sua vida destaca-se o facto de ter sido um dos responsáveis pelos acontecimentos que levaram à Implantação da República em 1910, mas, ao mesmo tempo, participou nas conspirações para derrubar a mesma República, integrando o triunvirato que provocou o golpe de 28 de Maio de 1926.

A sua ligação à região algarvia e a Loulé manteve-se ao longo do tempo. Começou por ser deputado às constituintes de 1911, pelo círculo eleitoral de Silves, foi Governador Civil do Distrito, durante o sidonismo, capitão do porto de Vila Real de Santo António e comandante da Escola de Alunos Marinheiros do Sul (Faro). Já em Lisboa, pertence aos órgãos fundadores da Casa do Algarve, onde colabora ao longo de vários anos.

Sendo José Mendes Cabeçadas Júnior um republicano, pretende-se também, nesta exposição, recordar algumas ideias que foram fundamentos do regime que se estabeleceu em 1910. Por um lado perceber que no Algarve existiam estruturas organizadas do Partido Republicano. Funcionavam regularmente centros e comissões republicanas onde se fazia propaganda política. Esta era alicerçada em órgãos da imprensa que defendiam o credo republicano. Por outro lado, um dos eixos da propaganda republicana foi o problema do combate ao analfabetismo. A escola como espaço de socialização e como mecanismo de desenvolvimento do país. Outro aspecto fracturante durante a República foi a questão social, com as greves a marcar a época. Também a questão religiosa, com a publicação de legislação retirando poder à Igreja Católica, foi um aspecto marcante, em particular no confronto com as sociedades secretas (Maçonaria e Carbonária) que desempenharam papel decisivo na época.

A exposição poderá ser visitada, no Convento de Santo António de Loulé, entre 25 de Maio e 27 de Novembro.

Actividades variadas para assinalar Centenário

Luís Guerreiro, chefe de Divisão da Cultura e História Local, falou das várias actividades que se inserem neste programa de comemorações e que vão trazer a Loulé desde conferências a espectáculos de teatro, dança, poesia, relembrando o que foi o período histórico da implantação da República e associando-o ao contexto concelhio.

“Para além destas duas figuras que justificam as comemorações em Loulé da implantação da República – Cavaco Silva e Mendes Cabeçadas – há muitos outros políticos de relevo que estiveram associados à República”, disse Luís Guerreiro, referindo nomes como o Conselheiro Azevedo e Silva, Procurador Geral da República entre 1912 e 1929, natural de Loulé e o Procurador que ocupou o cargo durante mais tempo em toda a história, mas também os louletanos que integraram o Directório.

“Durante toda a República há uma série de pessoas que se destacam e notabilizam em diversos cargos e, por isso, faz todo o sentido, que, para além destas duas exposições, se comemore com um conjunto de trabalhos de investigação”, explicou este dirigente. Como tal, vão marcar presença em Loulé, nos próximos meses, vários professores universitários e investigadores, que abordarão a temática e serão também responsáveis pela apresentação de conferências e pela elaboração de um catálogo que será lançado: o Grão-mestre da Maçonaria, António Ventura, Joaquim Romero de Magalhães, Luís Farinha, Reis Torgal, entre outros.

As “Tertúlias Republicanas” serão outra das iniciativas que decorrerão no Convento de Santo António. O papel das mulheres algarvias no período da República e a sua importância na emancipação e defesa dos direitos da mulher, nomeadamente Maria Veleda e Ana Castro Osório serão, de certo, motivo para conversas e debates animados.

Também o teatro vai ser contemplado neste programa e, no dia 5 de Outubro, a ACTA vai estrear uma peça sobre Manuel Teixeira Gomes, sobre a temática republicana, num dos eventos inaugurais do Cine-Teatro Louletano.

No que toca à apresentação de livros, o lançamento de “A Maçonaria no Algarve”, de António Ventura ou o livro de BD do ilustrador José Carlos Fernandes intitulado “José Mendes Cabeçadas – Um espírito indomável”, são iniciativas a destacar.

Toda a programação pode ser consultada no site da autarquia www.cm-loule.pt.

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