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O livro em causa é composto por um conjunto de visitas pastorais realizadas pelos comendadores e cavaleiros da Ordem de Santiago às igrejas e padroados que possuía no território algarvio, com documentos datados desde 1565 a 1827, sendo que neste caso, as visitas dizem respeito ao concelho de Loulé.

Os visitadores deixavam memoriais do que tinham visto, desde património material imóvel e móvel – edifícios eclesiásticos, quadros, imagens de santos e esculturas, alfaias eclesiásticas, vestimentas e paramentos – até à certificação dos procedimentos correctos ou incorrectos dos párocos e das populações no cumprimento das suas obrigações.

De tudo se deixava registo para que na visitação seguinte se certificasse da correcção dos erros apontados. Daqui se depreende que à luz dos nossos dias, estes documentos são de uma enorme importância quer pelo seu valor intrínseco inestimável, quer pela informação neles contida, qual inventário de bens eclesiásticos, de objectos de arte, de análise da vida social e dos usos e costumes das populações.

Em agosto do ano passado, a Câmara de Loulé, através do seu Arquivo Municipal e a Diocese do Algarve em conjunto com a paróquia de São Clemente de Loulé, concordaram na necessidade urgente de se proceder a um processo de restauro e de preservação da obra.

A fragilidade do documento, com folhas soltas e rasgadas, corroído pelas tintas ferrogálicas, dobrado pelo tempo e pelo uso, sujo, e com outros problemas inerentes a circunstâncias impróprias para a sua conservação chamou a atenção dos párocos da paróquia de São Clemente de Loulé que, abraçando uma oportunidade de encontro institucional entre a Diocese e a Câmara entraram em contacto com o Arquivo Municipal no sentido de se proceder à recuperação do importante documento para a historiografia do concelho de Loulé e da Igreja.

A intervenção para restauro constou de desmembramento do corpo do livro, limpeza dos fólios e remoção de sujidade, limpeza aquosa para remoção de produtos de alteração solúveis em água, remoção de carcelas, consolidação de rasgões com papel japonês e cola de amido, preenchimento das faltas de suporte com papel japonês e cola de amido, execução de novas carcelas em papel japonês para não aumentar a altura da lombada, planificação do suporte, execução da costura segundo estrutura original, colocação de novas guardas em papel, consolidação das pastas de cartão, consolidação da pele e do tecidos das pastas, acondicionamento em caixa de cartão neutro.

Na sessão da devolução simbólica, que teve lugar na Câmara Municipal e que incluiu a assinatura do protocolo entre a autarquia e a paróquia, o bispo do Algarve sublinhou a importância de “salvaguardar aquilo que é o património de todos”. “A Igreja mais do que proprietária destes bens culturais é depositária, visto que proprietários somos todos, sobretudo as populações locais”, destacou D. Manuel Quintas. Lembrando que “estas obras definem não apenas a época histórica mas a identidade daquilo que somos hoje”, o prelado apelou à “corresponsabilização comum” de se continuar a “preservar aquilo que é de todos”.

A técnica da autarquia responsável pelo trabalho, Luísa Martins, explicou ainda que ainda que algumas das “Visitações” da Ordem de Santiago ao concelho de Loulé já foram transcritas e publicadas por si, pelo falecido padre João Coelho Cabanita, antigo pároco de Loulé, e por Pedro Encarnação, mas existem muitas outras para serem trabalhadas, quer no arquivo paroquial de São Clemente, quer no Arquivo Nacional.

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